Quarta, 30 de Novembro de 2022
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Sábado, 26 Março 2022 18:36

Plataforma 27 de Maio quer especialistas a analisar os 10 corpos recuperados em Angola

A Plataforma 27 de Maio, que junta sobreviventes e órfãos do alegado golpe de Estado em Angola, disse que se “impõe” a participação de especialistas forenses na identificação dos 10 corpos recuperados pela CIVICOP, denunciando encenação governamental.

“[…] Impõe-se a participação de especialistas com experiência na matéria, de modo que se possam estabelecer conclusões sobre a causa da morte”, alertou em comunicado.

De acordo com a associação, as famílias das vítimas não foram “chamadas a acompanhar os trabalhos, efetuados de forma leviana, com maquinaria pesada revolvendo indiferenciavelmente os terrenos, sendo notória a falta de acompanhamento de técnico habilitados”.

“Procura-se, manifestamente, apresentar publicamente resultados, seja a que custo for, em vez de se adotar um caminho seguro, de acordo com os padrões internacionais”, indicou.

A Plataforma 27 de Maio disse ainda que o ministro da Justiça de Angola, Francisco Queiroz, teve “o desplante de dizer que o Estado não assumirá os custos relacionados com a entrega dos corpos e funerais das vítimas, uma pretensão das famílias e uma obrigação do Estado, como responsável pelos desaparecimentos forçados”.

“Pelas razões expostas, a Plataforma 27 de Maio vem denunciar a encenação, apelando a que se imprima um rumo diferente aos trabalhos, com o recurso, nomeadamente, à cooperação internacional e adoção das medidas complementares exigidas: acompanhamento pelas famílias, identificação dos responsáveis e assunção de responsabilidade integral pelo Estado de Angola”, é acrescentado.

Nito Alves, Sita Valles e José Van-Dunem, protagonistas do alegado golpe do 27 de Maio de 1977 em Angola, podem estar entre os dez corpos recuperados pela CIVICOP e cuja confirmação está a ser feita através da comparação de material genético.

O anúncio foi feito terça-feira pelo ministro da Justiça de Angola, Francisco Queiroz, à saída da terceira reunião da Comissão de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP) em que foram apresentados balanços dos subgrupos de microlocalização e exumação de ossadas, médico-forense e comunicação institucional deste órgão.

Segundo Francisco Queiroz, foram localizados os corpos de dez pessoas que estão a ser trabalhados pela equipa médico-forense para que seja possível comparar o ADN com os resultados genéticos obtidos juntos de 35 famílias.

“Não há certezas sobre a quem pertencem os ossos desses dez indivíduos, são oito com ossos completos e dois com ossos parciais”, afirmou, admitindo que podem ser de pessoas relacionadas com o 27 de Maio pelo modo e local como foram encontrados.

“Os indicadores apontam para que sejam pessoas relacionadas com o 27 de Maio, designadamente Nito Alves, Pedro Fortunato, Bakalov, Monstro Imortal, Sita Valles , José Van-Dunem, David Zé, Urbano de Castro, Domingos Barros “Sabata” e Artur Nunes e ainda Júlio e Ilídio Ramalhete, dois gémeos funcionários da ex-DISA (polícia política)”, disse.

Entre estes, estão figuras centrais do 27 de Maio como Nito Alves, então ex-ministro da Administração Interna e apontado como líder do suposto golpe, o guerrilheiro Monstro Imortal, e os ex-membros do Comité Central do MPLA, Sita Valles e José Van-Dunem, acrescentou o governante.

“São mais do que os dez corpos que encontrámos, mas enviámos cartas às famílias de todos estes para recolhermos o material genético e fazer o cruzamento”, explicou o ministro.

Em 27 de maio de 1977, uma alegada tentativa de golpe de Estado, foi violentamente reprimida pelo regime de António Agostinho Neto, o primeiro Presidente da Angola independente. Num ajuste de contas entre dirigentes do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) e com a ajuda das tropas cubanas, então presentes em Angola, o regime deteve e matou milhares de pessoas, cujo total nunca foi apurado.

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