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Segunda, 17 Março 2014 10:01

Queda do avião da LAM. Falta de pressão do Governo irrita familiares das vítimas

Já passam 105 dias desde a tragédia aérea na Namíbia. Das 33 vítimas mortais, nove são angolanas. Informações oficiosas dão conta que apenas foram encontrados cinco corpos. As famílias apelam às autoridades para enviar a Angola os restos mortais já descobertos. O mutismo tem sido a resposta das entidades consultadas por este jornal.

"No encontro que mantivemos com os técnicos da empresa que opera em serviços de emergência - Kenyon International, no Ministério das Relações Exteriores (MIREX), disseram- nos que o processo de identificação dos corpos era moroso, porque não existia cadáver intacto, que ficaram todos despedaçados. Aí mentiram"!, adiantou ao Agora Elsa Luvualu, mãe do falecido rapper Action Nigga, que aliás é contra a recepção dos cinco corpos dos angolanos em simultâneo, porque, segundo ela, o país não tem condições para tal.

Acrescentou: "o meu Action está intacto! Do corpo dele não caiu um pedaço, excepto o rosto, até o cabelo está completo. Eu vi as imagens dele num computador de um técnico, na Namíbia", disse a progenitora do músico, que faz parte dos nove angolanos, cujos corpos ainda não foram entregues aos familiares, desde o dia 29 de Novembro de 2013, data em que o voo TM 470, Embraer 190 da LAM - Linhas Aéreas de Moçambique, se despenhou- se no Parque Bwabwata, Namíbia.

Sem desdizer Elsa, outra fonte contactada pelo Agora sobre o caso LAM, Augusto Tenente Marques, irmão mais velho do engenheiro João Tenente Marques, de 33 anos, também falecido na mesma aeronave, revelou incumprimento da parte da Kenyon International e da LAM.

"Desde que estiveram em Angola, no dia 10 de Janeiro, nas instalações do MIREX, onde assinei um documento, tal como os outros familiares, que os autorizava a reportar por correio electrónico sempre que identificassem uma parte do corpo do meu irmão, até agora nada me foi comunicado". Aliás, "temos conhecimento de que foram encontrados apenas cinco dos nove corpos angolanos sinistrados. Porque não nos dão, uma vez que o tempo de espera pelos restos mortais se arrasta há quase quatro meses"?, questiona.

Mas, esta não é a única acusação dura contra a LAM e a Kenyon International, neste misto de silêncio das autoridades, angústia das famílias, inércia dos órgãos competentes, para defender os direitos das famílias angolanas, alegaram as fontes que o Agora contactou, que preferiram não ser identificadas. A progenitora de Action Nigga censura: "A LAM quer fazer muito mais, mas não pode mexer-se porque é uma marionete. Agora, pergunto: A Namíbia é um Estado ou uma aldeia, como é que está a abandalhar o Governo Angolano"? Entretanto, a companhia aérea moçambicana "vai-nos mandando informações, mas recebe-as do país de Sam Nujoma", reforçou.

HÁ UM TROCA-TINTAS NA HISTÓRIA.

O último comunicado da LAM, a que o Agora teve acesso, feito no dia 14 de Fevereiro, endereçado aos familiares das vítimas angolanas, dava conta que "haveria a possibilidade de um início da transladação dos restos mortais". "O processo começaria no dia 28 de Fevereiro e culminaria no dia 15 de Março de 2014, amanhã, sábado. Todavia, já houve uma série de adiamentos sem uma justificação plausível", alegam os familiares, que se mostraram agastados com a situação. "Acredito que isto não vai acontecer neste sábado, com tão-pouco tempo de antecedência, pois implica algum esforço logístico", disse incrédulo Augusto Marques.

"Portanto, já não sabemos quando os corpos chegam. Estamos cansados", desabafou. Volvidos 105 dias, ou seja, desde o dia 29 de Novembro de 2013, que o voo TM 470 ceifou 33 vidas, nada foi feito, diga-se, os corpos até agora não foram entregues, uma luta por que se bate Elsa Luvualu e outros membros das famílias enlutadas ouvidas por este semanário. Especialistas em Medicina Legal lusos e angolanos deslocaram-se a Windhoek, a fim de, sob coordenação das autoridades locais, prestarem auxílio, dado que, no âmbito do Direito Internacional Privado, cabe àquele Estado tomar a dianteira na resolução de situações desta índole, apesar de a tragédia ter vitimado cidadãos da China, do Brasil, de Moçambique, da França, de Portugal e de Angola.

O Agora, na edição n.º 851, de 6 de Dezembro de 2013, deu estampa que, naquela fatídica sexta-feira, havia começado a identificação dos restos mortais dos defuntos angolanos em Windhoek, e paralelamente, em Luanda, no Laboratório Central de Criminalística, arrancara o processo de recolha de amostras de DNA aos familiares directos das vítimas. Na altura, as questões que mais preocupavam os familiares eram: Quando terminam as investigações? Quais foram as causas da tragédia. Hoje, a indagação mais premente no seio das famílias enlutadas é: quando chegam os restos mortais dos nossos irmãos, para serem sepultados?

CRIMINALISTAS, LAM E EMBAIXADA DE ANGOLA NA NAMÍBIA EM EVASIVAS.

O Agora abordou, via telefone, Irina de Matos, Relações Públicas da LAM, que afirma que as informações que "possamos ter vêm da Namíbia, maso que sabemos é que se continua a trabalhar para a identificação dos restos mortais". A família de António Soares Nunes, cidadão português falecido na tragédia do dia 29 de Novembro de 2013, tem pressionado o Governo de Pedro Passos Coelho, a fim de ser mais actuante para com o Governo da Namíbia, na medida em que os corpos dos outros cidadãos lusos já foram entregues às suas famílias, segundo veiculou a imprensa portuguesa. Sobre esta matéria, Irina Matos, responsável administrativa da LAM, não soube precisar a este jornal, quantos corpos já foram entregues no cômputo geral. Outrossim, alguns juristas ouvidos por este semanário entendem que Angola fica mal na fotografia, pela inércia das autoridades que deixa os seus cidadãos a Deus dará nesta luta diplomática.

"Este assunto está a nível do Governo e das autoridades de cada país. É assim que o processo decorre", disse a responsável administrativa, que sublinhou ainda: "temos dado apoio psicológico e material às famílias, bem como prestamos informações inerentes ao processo". No dia 10 de Março, endereçámos uma série de questões a Chana de Aragão, adida de Imprensa da Embaixada de Angola na Namíbia, inerentes à demora para a entrega dos restos mortais das nove pessoas, ao resultado final das investigações e que papel tem jogado a representação diplomática angolana naquele país vizinho? A diplomata alega que tem colocado as mesmas questões à comissão internacional criada, após o 29 de Novembro, mas promete: "vamos voltar a contactá-los para as informações que se impõem".

Um médico afecto à equipa angolana do Laboratório Central de Criminalística apenas adiantou que esta matéria está em segredo de Jus-tiça, pelo que não tinha autorização para falar a respeito, sugerindo para segunda-feira, 17, um contacto directo com a equipa de peritos angolanos colocada na Namíbia.

LAM VAI INDEMNIZAR AS FAMÍLIAS.

As oito famílias enlutadas vão ser indemnizadas, soube o Agora de fonte limpa, porquanto constituíram como advogado o jurista Carlos Freitas, que tem defendido os seus interesses junto daquela companhia aérea.

Apesar das inúmeras conjecturas sobre como se vai desenrolar o processo, as nove famílias vão solicitar, em bloco, ajuda aos órgãos de imprensa, pois o assunto tem provocado mal-estar entre as autoridades moçambicanas, envolvendo, parte a parte, o ministro dos Transportes, Gabriel Muthisse, e os operadores aéreos nacionais, devido ao facto de João de Abreu, director do Instituto de Aviação Civil de Moçambique (IACM), órgão tutelado por Muthisse, ter alegado, em conferência de imprensa, que o relatório preliminar sobre a tragédia indicava clara intenção de despenhar a aeronave por parte do comandante Hermínio Fernandes. Apesar de tudo, em Angola, observa-se uma autêntica letargia, criticaram alguns especialistas em aeronáutica.

AGORA

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