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Sexta, 15 Novembro 2013 16:42

"Arquivamento dos casos de altos dirigentes angolanos tem timing estranho e muitas coincidências"

Quero acreditar que nada houve entre a justiça e a política na questão do arquivamento. Todavia... Eugénio Almeida, investigador do Centro de Estudos Africanos do ISCTE, acredita que é, de facto, estranho que tudo tenha acontecido de supetão e em encadeamento.

O comentador angolano Cláudio Silva concorda que, coincidência ou não a verdade é que, depois do presidente angolano bater com a mão na mesa, a maioria dos processos foram arquivados.

Segundo estes peritos, porém, as relações entre Angola e Portugal nunca saíram da normalidade durante este período.

O arquivamento em Portugal, nas últimas duas semanas, de vários processos relacionados com altas autoridades angolanas, surge numa altura de tensão diplomática entre Lisboa e Luanda. Cláudio Silva afirma que se os arquivamentos  são ou não resultado das ameaças feitas, só o Ministério Público português poderá responder. Mas como alguém que acompanha este caso desde o seu início, por ser angolano e por envolver as mais altas entidades do meu país, acho muito estranho o timing do seu arquivamento. Sublinha que a retirada das acusações neste contexto, para os cidadãos de ambos os países, pode até parecer chantagem, e que a chantagem resultou.

Eugénio Almeida prefere destacar o que considera serem  estranhas coincidências, como o facto de a Procuradoria-Geral da República ter dito que o processo de João Maria de Sousa, PGR angolano, estava sob análise quando, conforme mais tarde seria explicado, tinha sido arquivado em Julho passado, ou ainda o facto de o arquivamento dos casos que incluíam Manuel Vicente e Higino Carneiro ter sido anunciado no dia em que José Eduardo dos Santos declarou que estava  há tempo demais no poder e que o MPLA considerava transições.

Para o investigador a bem da separação entre a justiça e a política, todos queremos crer que foram coincidências e que não terá havido pressões ou ameaças, mas que não deixam de ser estranhas, lá isso.

No que diz respeito ao impacto que estes casos tiveram nas relações entre Portugal e Angola, tanto Eugénio Almeida como Cláudio Silva julgam que a normalidade prevaleceu.  Não percebi a tempestade que se fez em Portugal diz Cláudio Silva.  No terreno, não mudou absolutamente nada. Relembra que milhares de gestores portugueses vivem e trabalham em Angola, dominando algumas áreas do mercado e mesmo trabalhando como advogados e gestores de fortunas para os altos dirigentes do país.

As normais relações vão continuar entre Angola e Portugal enquanto os interesses de ambas as partes persistirem afirma Eugénio Almeida. No entanto, coloca algumas reservas relativamente aos dirigentes portugueses que poderão orquestrar o reatar diplomático, pois se sabe  que a maioria dos membros do governo português não são bem vistos em Luanda.Sendo assim, sugere que será necessária uma intervenção directa de Cavaco Silva junto de José Eduardo dos Santos.

Cláudio Silva acrescenta a isto que as relações entre os povos são tão ou mais importantes que as relações entre governos. Critica assim a falta de mediatização, em Portugal, do défice de democracia e direitos humanos em Angola, negligenciado por questões económicas e estratégicas das duas nações.

LusoMonitor

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