A Venezuela ocupa o ponto exato onde o pêndulo geopolítico atinge sua máxima tensão. Suas vastas reservas de petróleo não representam apenas riqueza, mas a energia vital do mundo moderno. Ao buscar controlar esse recurso, os EUA tentam estabilizar seu próprio sistema energético e político. Contudo, como ensina o existencialismo, toda ação carrega uma reação inevitável.
O petróleo, sangue da máquina contemporânea, desloca o peso da balança global. Ao conter a influência russa e chinesa no Ocidente, os EUA podem fortalecê-las em outros tabuleiros. O sistema energético é interdependente: quando um fluxo é bloqueado, outro se intensifica, pois o consumo permanece. Assim, um ganho estratégico em Caracas reorganiza e tensiona todo o mercado global.
No plano humano, o dilema é trágico. O povo venezuelano encontra-se diante de uma escolha trágica: submeter-se a um autoritarismo interno ou aceitar uma tutela externa travestida de libertação. A queda de um regime não garante liberdade real; uma democracia imposta pode substituir a opressão pela dependência.
A geopolítica atua como espelho. A provocação de que "a OTAN batia à porta da Rússia" encontra seu eco na Venezuela. O equilíbrio exige que, se uma potência avança sobre a zona de influência de outra, o sistema responda. A intervenção americana é, em essência, o fechamento de uma rachadura por onde China e Rússia infiltravam sua influência no ocidente. É a natureza buscando o status quo de sua própria geografia. Não por moralidade, mas por necessidade ontológica vital.
No plano energético, a intervenção reordena placas tectônicas. O controle do petróleo venezuelano reduz a dependência dos EUA do Oriente Médio, forçando países como a Arábia Saudita a buscarem novas alianças, possivelmente com a China.
Sob a ótica filosófica, não há vencedores definitivos, apenas deslocamentos de força. A Venezuela pode reconstruir-se, mas sem plena soberania. Os EUA ampliam sua segurança, mas assumem o peso de sustentar uma ordem artificial. O equilíbrio não elimina o conflito; apenas o reorganiza. O essencial, portanto, não é julgar o evento por preferências políticas, mas compreender o movimento. Onde surge um excesso — ditadura, influência externa concentrada, cartelização do poder — nasce, inevitavelmente, uma força contrária. Como ensinou o filósofo Heráclito, a harmonia não é paz estática, mas a tensão contínua que impede a estagnação da história.
E, enquanto potências disputam poder e recursos, é o povo venezuelano que sangra, lembrando que toda “harmonia” construída pelo conflito cobra, antes de tudo, seu preço em vidas humanas.
Mauro Falcão, Pesquisador e escritor brasileiro
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