Terça, 06 de Janeiro de 2026
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Segunda, 05 Janeiro 2026 10:20

Diplomas sem Indústria: o dilema da Escola 42 e do OGE

O Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2026 volta a expor uma contradição recorrente: gastos elevados em programas e instituições que não geram receitas diretas para os cofres do Estado.

Multiplicam-se diplomas e certificados, mas o impacto económico imediato é reduzido.

━ O sector público, ao tentar ocupar o espaço do sector privado, acaba por usurpar o seu papel natural.

━ Como o sector público depende das receitas do sector privado, sufocar este último é matar indiretamente a sua própria fonte de financiamento.

2 - A verba para a Escola 42

O documento oficial do OGE 2026 mostra que a Escola 42 Luanda vai receber uma dotação de 3.236.919.905 Kz, inscrita dentro do Programa de Expansão e Modernização do Sistema de Ensino, representando 2,08% da despesa desse programa.

Este valor é superior a outros programas de formação de quadros, como:

━ Incentivo de Cursos com Oferta Deficitária: 220 milhões Kz

━ Sistema Integrado de Gestão da Oferta Formativa: 53 milhões Kz

A prioridade dada à Escola 42 é clara, mas levanta questões:

━ O Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN) 2023/2027, que terminará próximo ano, tem como metas aumentar receita fiscal, criar emprego para a juventude e melhorar o ambiente de negócios…

━ Como a Escola 42 contribui diretamente para estas metas?

━ O risco é acumular diplomas sem impacto fiscal ou económico imediato, enquanto problemas urgentes ficam sem apoios.

3 - O consumo digital e o prejuízo externo

Angola enfrenta um déficit anual estimado em 500 milhões USD devido ao consumo de serviços digitais externos.

━ O país importa tecnologia e exporta capital financeiro em divisas, sem contrapartida interna.

━ A Escola 42 poderia ser vista como solução estratégica para formar recursos humanos, mas sem indústria digital para absorver estes quadros, o impacto é limitado.

4 -  Comparação internacional

O modelo de financiamento da rede 42 varia de país para país:

━ França (Paris): financiada por Xavier Niel, empresário privado.

━ Portugal (Lisboa): apoiada por empresas privadas e associações de inovação.

━ Brasil (São Paulo): sustentada por fundações privadas.

━ EUA (Silicon Valley): financiada por investidores privados.

━ Angola (Luanda): participação estatal direta, diferindo do modelo predominante.

5 - Argumentos contra

 1 - Diplomas e certificados sem indústria não se traduzem em receitas imediatas.

 2 - Pressão orçamental: sectores críticos ficam sem recursos.

 3 - Modelo internacional diferente: em outros países, o financiamento é sobretudo privado.

 4 - Risco de dependência: programas sem retorno tornam-se peso adicional ao OGE.

6 ━ O problema mais amplo

Assim como a Escola 42, existem muitas instituições que apenas produzem diplomas, numa altura em que o país precisa de finanças para sustentar programas e iniciativas.

━ O mercado angolano sofre de falta de indústria real, capaz de transformar conhecimento em produção e gerar receita fiscal.

━ Sem indústria, diplomas acumulam-se sem se converter em capital financeiro para enfrentar necessidades urgentes de saúde, educação e infraestruturas.

━ O país investe em formação sem criar o ecossistema produtivo que converte essa formação em riqueza real.

Conclusão

A Escola 42 pode ser uma iniciativa relevante para o futuro digital de Angola, mas o modelo de financiamento merece revisão.

━ Antes da escola, deveria investir-se na indústria.

━ O Estado pode ser o catalisador inicial, mas não deve carregar sozinho o peso da iniciativa.

━ O ideal é um modelo misto, em que empresas privadas do sector tecnológico assumam progressivamente o financiamento, já que são elas que beneficiam diretamente da mão de obra formada.

━ Mais importante ainda: não basta formar pessoas, é preciso criar indústria.

Sem este equilíbrio, corremos o risco de transformar soluções estratégicas em problemas orçamentais, acumulando diplomas sem gerar capital financeiro para o país.

Por: Tomás Alberto

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