Quarta, 07 de Janeiro de 2026
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Terça, 06 Janeiro 2026 14:59

Grito pela vida contra a hipocrisia da guerra

O discurso do Presidente da Colômbia contra os Estados Unidos da América, a OTAN e a Europa marca um daqueles raros momentos de lucidez moral e coragem política no cenário internacional contemporâneo.

Num mundo onde o silêncio cúmplice se tornou regra e a hipocrisia diplomática foi normalizada, ouvir um chefe de Estado denunciar, sem rodeios, a máquina de guerra que continua a ceifar vidas inocentes é um acto que merece ser reconhecido, amplificado e apoiado.

Concordo com ele. Chegou a hora de dizer basta.

Basta à morte sistemática de povos indefesos. Basta à normalização do massacre de crianças, mulheres e civis em nome de interesses geopolíticos, económicos e estratégicos que nada têm a ver com a defesa da humanidade, da liberdade ou da democracia. O discurso oficial do chamado “mundo livre” perdeu qualquer autoridade moral no momento em que passou a aceitar, financiar ou justificar guerras que destroem nações inteiras e esmagam gerações inteiras antes mesmo de nascerem.

Falo em nome dos povos da Palestina, em particular de Gaza, transformada num cemitério a céu aberto. Um território onde crianças são mortas antes de aprenderem a escrever o próprio nome, onde hospitais deixam de ser refúgios e escolas viram escombros. Em Gaza, a vida foi reduzida a uma estatística fria, enquanto o mundo poderoso observa, calcula e relativiza.

Falo também do povo ucraniano, usado como peça num tabuleiro de xadrez entre potências militares. Um povo que paga com sangue uma guerra que não decidiu, empurrado para uma lógica de confronto que serve interesses estratégicos externos, enquanto mães enterram filhos e cidades desaparecem do mapa.

Falo ainda de tantos outros povos esquecidos — no Iémen, no Sudão, no Congo, no Sahel — onde a morte não vira manchete porque não serve aos interesses das grandes potências. Ali, as bombas não chocam, os corpos não comovem, e a dor não mobiliza conferências internacionais. São vidas tratadas como descartáveis num sistema global profundamente desigual.

Os Estados Unidos, a OTAN e muitos países europeus não podem continuar a apresentar-se como guardiões dos direitos humanos enquanto patrocinam, armam ou legitimam conflitos que violam de forma grotesca o Direito Internacional Humanitário. Não se pode defender a vida apenas quando convém. Direitos humanos não são selectivos, não têm fronteiras ideológicas, nem podem ser suspensos conforme alianças militares ou interesses económicos.

A indignação expressa pelo Presidente da Colômbia ecoa o sentimento de milhões de cidadãos no Sul Global, cansados de uma ordem internacional injusta, violenta e moralmente falida. Uma ordem onde algumas vidas valem mais do que outras. Onde a morte de uma criança é relativizada conforme a bandeira que ela carrega, a religião que professa ou o território onde nasceu.

Tem que se dar um basta aos violadores de direitos humanos, ao enriquecimento ilícito e ao neocolonialismo, que continuam a sustentar esta arquitectura global de exploração, pilhagem e violência. Não há paz possível enquanto a impunidade for regra, enquanto recursos de países pobres continuarem a financiar o luxo de poucos e enquanto antigas lógicas coloniais se reinventarem sob novas roupagens diplomáticas, financeiras e militares.

É chegada a hora de romper com o silêncio cúmplice. De exigir o fim das guerras de agressão, dos bloqueios desumanos, das sanções que matam lentamente, e do comércio de armas que alimenta conflitos intermináveis. É chegada a hora de colocar a dignidade humana acima dos interesses militares, industriais e financeiros.

Este não é um discurso contra o Ocidente. É um discurso a favor da vida. É um apelo ético, humano e universal. E quem se recusa a ouvi-lo precisa explicar por que continua a aceitar a morte de crianças como “dano colateral” de um sistema internacional que perdeu a alma.

A História não absolverá os que se calaram. Nem os que justificaram.

Nem os que apertaram o gatilho à distância.

Por Rafael Morais

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