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Domingo, 28 Abril 2024 21:02

Angola e a Terceira Via – Política e estratégias

A democracia sendo o poder das massas, representação popular, garantia dos direitos e das liberdades fundamentais, é normal fazer menção à disputa pelo poder de Estado por parte de várias forças políticas, mas em Angola todo jogo político e estratégico é dominado pelo MPLA e pela UNITA, e por não haver alterações significativas na Administração do Estado, praticamente a 50 anos, muito se tem falado sobre uma “Terceira Via”, o que é legítimo em Democracia, sobretudo nas democracias consolidadas, onde há vários partidos fortes concorrendo pelo poder político.

Entretanto, me atrevo a dizer que jamais haverá uma “Terceira Via” em Angola, nem mesmo daqui a 10 ou 20 anos, caso não tenhamos antes de tudo, uma sociedade civil organizada, bem instruída e com capacidade crítica profunda das coisas, uma sociedade que faça as suas reivindicações não simplesmente por causa da fome ou por falta de emprego, mas que o faça porque está consciente de que seus dirigentes têm a obrigação de proporcionar e demonstrar desenvolvimento econômico-social no País.

Em Angola o povo não reclama necessariamente por falta de desenvolvimento, uma sociedade civil intelectual reclamaria por isso, em Angola o povo reclama por falta de comida. No tempo de José Eduardo dos Santos, o povo reclamava e protestava menos porque muitos ainda conseguiam comer (mas já havia muita fome, muito sofrimento e instabilidade social), a moeda estava razoável (hoje o kwanza nem burro está, está outra coisa), mas isso não significa dizer que o País estava bom, o País sempre esteve mal, agora a situação só piorou ainda mais, é aqui onde está o problema, um povo intelectual reclamaria por desenvolvimento, por estabilidade estrutural econômico-financeira, por boa governação e independência dos órgãos de soberania, porque tenho certeza de que, se nesse preciso momento houvesse um certo poder de compra de bens e serviços por parte da população muitos diriam e pensariam que o País está bom, se o Kwanza estivesse a 10 mil por cada 100 dólares, muitos diriam e pensariam que o País tem estabilidade, mesmo não tendo, nessa hora poucos iriam protestar e se manifestar.

A Terceira Via em Angola exigirá intelectualidade, estratégias, diplomacia, lobby e poder econômico, fora disso é tudo perca de tempo. O meu povo não está preparado pra isso, porque ainda dão mais lugar ao emocional do que ao racional, em política isso é muito perigoso porque nada é preto no branco, nem branco no preto, em política as coisas são extremamente complexas, poucos conseguem entender esta complexidade, mesmo grande parte dos nossos políticos não têm noção disso, por isso falam uma coisa e fazem outra, prometem uma coisa e fazem outra. Procedem desse jeito não necessariamente por falta de vontade mas simplesmente porque não entendem a dinâmica que a política impõe, isso não é pra todos, o pragmatismo político não é mesmo pra todos, e assim vai o País na desordem e na instabilidade total, onde os verdadeiros intelectuais são ignorados e postos de lado, onde quem comanda um Departamento ou um Ministéro nem sequer tem programa de mandato, não tem projecto institucional, você vai às Embaixadas e aos Consulados angolanos a coisa é alarmante, é um “desastre”, não apenas desastre intelectual ou diplomático, mas sim um desastre conjuntural, em vez de crescermos estamos a regredir.

A concretização de uma “Terceira Via” em Angola não será assim tão fácil, o primeiro obstâculo são os partidos tradicionais que estrategicamente não querem alterações no status quo, ou alterações no formato das forças político-partidárias em termos de influência e domínio estatal: MPLA em primeiro lugar e UNITA em segundo lugal… outro obstâculo e o mais grave ao meu ver, é a falta de inteligência e de estratégia por parte da sociedade civil, a nossa sociedade civil é ainda desorganizada, não sabem coordenar os seus programas, se é que existe um programa, é uma sociedade civil sem um líder, em tudo requer uma liderança, mesmo a própria revolução popular não se faz de qualquer maneira, repito, é necessário inteligência, estratégias, liderança, apoio econômico e coordenação das coisas, fora disso é tudo perca de tempo.

Em política valem os resultados, um político é avaliado pelos seus resultados, caso contrário é tudo inútil, em Angola verifica-se isso, não existe um sector sequer que demonstre grandes resultados em termos de Gestão Pública, em vez de buscarem os cidadãos intelectuais, preferem manter as coisas do jeito que está. Se uma coisa não  funciona, é preciso mudar de estratégias, faça alterações pontuais, não permaneça no erro, insira cidadãos competentes no aparelho do Estado no final tereis resultados.

Contudo, independentemente de tudo quanto foi dito aqui sobre a sociedade civil angolana, vale realçar mais uma vez a complexidade da política: se num dado momento a saturação popular passar do extremo para o “não dá mais e basta”, a coisa poderá “pegar fogo”, literalmente, nessa hora, não se levará em consideração se o povo é ou não instruído, se o povo reivindica ou não por desenvolvimento, nessa hora valerá o uso da força popular, e nada é mais forte que o povo, um exército não pode nada contra o povo… ter o povo como inimigo é fatal pra qualquer um, o povo é sempre o mais forte dentro de um Estado, mas em Angola e em África os dirigentes não fazem leitura disso, quando despertarem será tarde demais e a humilhação será do tamanho do Mundo.

A Política é o que Eu sou!

Por: Leonardo Quarenta, Post-Doc Reseacher.

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