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Quarta, 04 Fevereiro 2026 09:46

Saif al-Islam Kadhafi assassinado em casa por quatro homens armados

Saif al-Islam Kadhafi, de 53 anos, o filho mais velho de Muammar Kadhafi, foi assassinado em sua casa em Zintan, cidade no noroeste da Líbia, na terça-feira (3). A família confirmou a morte em sua residência. Candidato nas eleições presidenciais de 2021, que acabaram sendo canceladas, ele era considerado o provável sucessor do ex-ditador líbio, que morreu em 2011 em um confronto com rebeldes.

Desde sua libertação da prisão em 2016, Saif al-Islam vivia recluso em Zintan, com apenas dois funcionários, em uma vila isolada no alto das montanhas com vista para o deserto de Hamada. Por razões de segurança, ele levava uma vida discreta e se comunicava apenas com um círculo muito restrito de pessoas, o que não impediu a ação dos criminosos.

"Ele foi morto em Zintan, em sua casa, por um grupo de quatro homens", disse à AFP seu advogado francês, Marcel Ceccaldi. "Por enquanto, não sabemos quem são esses homens armados", continuou o advogado, que afirmou ter falado com seu cliente há cerca de três semanas. Ele acrescentou que soube, há cerca de dez dias, por meio de um dos funcionários da residência, que havia preocupações com a segurança. "Tanto que o chefe da tribo Kadhafi ligou para Saif e lhe disse: 'Vou enviar pessoas para garantir sua segurança'. E Saif recusou", continuou.

Segundo reportagens do canal Libya al-Ahrar, um conselheiro de Saif al-Islam Kadhafi, Abdullah Othman Abdurrahim, afirmou que os quatro homens conseguiram invadir a residência após desativarem as câmeras de vigilância e, em seguida, o executaram.

Procurado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes contra a humanidade, Saif al-Islam Kadhafi foi preso em 2011 no sul da Líbia. Detido por um longo período em Zintan, foi condenado à morte em 2015 após um julgamento sumário, antes de receber anistia.

Até o anúncio de sua morte, seu paradeiro era desconhecido. "Ele estava frequentemente em movimento", confirmou seu advogado. Em 2021, ele apresentou sua candidatura à eleição presidencial, contando com o apoio daqueles que sentiam nostalgia do antigo regime. A eleição acabou não acontecendo.

Efeito "mártir"

De acordo com o especialista Emad Badi, a morte de Saif al-Islam Kadhafi "provavelmente o transformará em um mártir aos olhos de uma parcela significativa da população, além de alterar o equilíbrio eleitoral, removendo um grande obstáculo à eleição presidencial". Porque "sua candidatura e suas chances de sucesso eram um ponto central de controvérsia", explicou ele no X.

O ex-porta-voz do regime de Kadhafi, Moussa Ibrahim, denunciou um ato "pérfido", afirmando que havia falado com ele dois dias antes. "Ele queria uma Líbia unida e soberana, segura para todos os seus habitantes. Eles assassinaram a esperança e o futuro e semearam ódio e ressentimento", escreveu no X.

Desde a queda de Muammar Kadhafi, a Líbia tem lutado para recuperar sua estabilidade e unidade. Dois órgãos executivos disputam o poder: o Governo de Acordo Nacional (GNA), com sede em Trípoli, liderado por Abdelhamid Dbeibah e reconhecido pela ONU; e um órgão executivo em Benghazi (leste), controlado pelo marechal Haftar e seus filhos, que estenderam sua presença militar para o sul do país.

444.ª Brigada nega qualquer envolvimento no incidente

A 444.ª Brigada, uma formação militar afiliada ao Governo de Unidade Nacional, negou qualquer envolvimento no assassinato de Saif al-Islam Khadafi, confirmando, por via de um comunicado oficial, que não esteve envolvida nos confrontos que ocorreram na cidade de Zintan.

O comunicado esclareceu que "não há nenhuma força militar ou destacamento de campo afiliado à brigada dentro da cidade de Zintan ou dentro do seu âmbito geográfico", salientando que a brigada não tem qualquer ligação, direta ou indireta, com os eventos que lá ocorreram.

O major-general confirmou que não tinha recebido quaisquer instruções ou ordens relativas à perseguição de Saif al-Islam Khadafi, explicando que esta questão não se enquadrava nas suas competências militares ou de segurança.

Apelou aos meios de comunicação social e aos utilizadores das redes sociais para que fossem precisos na divulgação de informações, se baseassem em declarações oficiais e não se deixassem influenciar por rumores destinados a induzir em erro, causar confusão e provocar distúrbios.

Quem é Saif al-Islam Khadafi?

Saif al-Islam Khadafi, nascido em 1972, é filho do falecido líder líbio Muammar Khadafi. Formou-se na Faculdade de Engenharia da Universidade de Trípoli antes de continuar os seus estudos em várias universidades europeias, seguindo um percurso académico que abriu caminho para a sua rápida ascensão na esfera pública.

Tornou-se presidente da Fundação Internacional Khadafi para a Caridade e o Desenvolvimento. Mais tarde, emergiu como uma figura-chave na vida política líbia, assumindo funções descritas como fundamentais e liderando negociações com partes e entidades estrangeiras, o que reforçou a sua presença como rosto político do regime em momentos críticos, tornando-o uma das figuras mais proeminentes do antigo regime antes da sua queda em 2011.

Em 2006, lançou um projeto de reforma sob o slogan "Libya Tomorrow" (Líbia Amanhã), que foi apresentado na altura como um caminho para a abertura, mas os opositores do regime viram-no como uma tentativa organizada de preparar o caminho para ele assumir o poder. Nessa fase, emergiu como um dos candidatos a herdar o poder.

Após a queda da capital, foi detido por fações armadas, antes de ser condenado à morte na Líbia em casos relacionados com crimes cometidos contra líbios. Ao mesmo tempo, era procurado ao abrigo de um mandado de detenção emitido pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.

Após anos de detenção, foi libertado e o seu nome começou a voltar à ribalta, havendo relatos dos seus esforços para se reintroduzir na cena política e tentativas de concorrer às repetidamente adiadas eleições presidenciais, o que o restabeleceu como uma figura controversa na arena líbia.

Desde a queda e morte de Muammar Khadafi em 2011, a Líbia tem vivido graves fraturas políticas e de segurança, dividida entre duas autoridades rivais: o governo internacionalmente reconhecido liderado por Abdul Hamid Dbeibah, com sede em Trípoli, e uma autoridade paralela no leste apoiada pelo general Khalifa Haftar.

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