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Sexta, 17 Junho 2022 13:25

Eduardo dos Santos, o rei que se transformou em peão

O antigo Presidente angolano, cujo estado de saúde tem sido pretexto para uma forte onda de rumores, é por estes dias um peão disputado por fações da sua própria família e também pelo governo liderado por João Lourenço.

Por Celso Filipe 

José Eduardo dos Santos (JES), durante mais de três décadas, foi o rei no xadrez do poder angolano. Atualmente, por força das circunstâncias, está transformado num peão desse jogo complexo que dominou de forma incontestada.

A doença do ex-presidente angolano, exponenciada pelos rumores de um putativo falecimento, assim como a ida da sua mulher, Ana Paula Santos, para Barcelona, Espanha, estruturam uma intriga que envolve o governo liderado por João Lourenço, o MPLA e a família de JES. Esta, por sua vez, é exponenciada pelas eleições gerais que se realizam este ano e os problemas com a justiça em que estão envolvidos três dos filhos de Eduardo dos Santos: Isabel dos Santos, José Filomeno dos Santos e Tchizé dos Santos.

Neste tabuleiro, é relevante o facto de Ana Paula dos Santos, que se encontrava afastada de JES desde 2018, ter voltado à liça. A ex-primeira-dama, ao viajar para Barcelona, reassumiu o estatuto de antiga primeira-dama e defesa dos interesses dos quatro filhos que resultaram do seu casamento com Eduardo dos Santos.

Desta forma, Ana Paula dos Santos colocou-se como parede entre JES e os filhos deste de outras relações, precisamente Isabel, Tchizé e José Filomeno, dando uma preciosa ajuda a João Lourenço. Não por acaso, na passada semana, após Ana Paula dos Santos se ter instalado em Barcelona, Isabel dos Santos publicou na sua conta do Instagram, a seguinte frase: “A pior traição vem sempre daqueles em que mais confiamos.” Tchizé foi mais assertiva na sua descrição: “Eis que eu vou a Londres alguns dias e quando regresso encontro Ana Paula dentro da casa. Alguém cujos carimbos do passaporte não mentem: nunca acompanhou JES nos últimos quatro anos. (…) Depois de ver tudo isso peguei as minhas coisas e vim-me embora. Não quero que amanhã ainda me usem como álibi do que eventualmente se esteja a passar ali. Sinto-me impotente. Sinto-me triste.”

Filhas afastadas

Num cenário-limite, o qual será o óbito de JES, é garantido que as cerimónias fúnebres serão preparadas pelo Estado e irão decorrer em Angola, ou seja, João Lourenço e o próprio MPLA minimizam as possibilidades de interferência das filhas Isabel e Tchizé dos Santos, pela circunstância de Ana Paula dos Santos ter reclamado o seu estatuto de esposa de JES.

Eduardo dos Santos, outrora temido, parece ter perdido vontade própria. O seu destino está nas mãos da esposa, a mesma que em 2018 cogitou pedir a separação. Nessa altura, o então chefe de Estado estava a preparar a lei que define o estatuto dos antigos presidentes e das suas famílias, tendo então incluído uma alínea que determina a cessão de direitos em caso de divórcio. E, assim, o distanciamento entre ambos acabou por ser apenas informal.  Jornal de Negócios

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