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Domingo, 04 Abril 2021 09:57

Espanha vira-se para África e elege Angola como prioridade

Espanha está atenta a Africa e elegeu como prioritários um conjunto de cinco países entre os quais Angola, que o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez visita no início de abril, disse o embaixador daquele país em Luanda, Manuel Ruigómez.

A última visita de um chefe de estado espanhol a Angola aconteceu em 1991, quando Felipe González liderava o governo espanhol, e chegou a estar prevista a vinda de Mariano Rajoy em março de 2018, mas a deslocação acabou por ser cancelada devido à situação política na Catalunha.

Com a visita de Pedro Sánchez, que inicia em Angola um curto roteiro que vai passar também pelo Senegal, Espanha quer destacar a crescente importância de África na sua política externa e mostrar-se disponível para apoiar o desenvolvimento dos países africanos através do investimento.

“Espanha está a olhar com mais intensidade para Africa e aprovou há dois anos um novo plano em que Africa ganha mais importância na política exterior”, salientou Manuel Hernández Ruigoméz em entrevista à Agência Lusa, destacando que Angola é um dos cinco países prioritários nesta estratégia, juntamente com a África do Sul, Nigéria, Etiópia e Senegal.

O diplomata lembrou que Angola tem atraído o interesse de Espanha desde que conquistou a independência, em 1975, e o primeiro-ministro castelhano à época Adolfo Suarez, chegou a encontrar-se com o seu homólogo angolano, Lopo do Nascimento, em 1976, em Madrid.

Desde então, a relação entre os dois países tem sido “sempre forte e intensa”, realçou, considerando que o futuro de África depende do seu desenvolvimento e que os europeus “deve estar próximos dos seus vizinhos do Sul” para que “juntos", possam contribuir para o progresso daquele continente.

Espanha tem tido até agora uma política externa mais direcionada para a América Latina, já que este é o continente mais próximo do ponto de vista histórico e cultural, mas Ruigómez defende uma maior aproximação europeia a África onde subsistem problemas que devem ser acautelados, como a imigração e a pobreza.

“Penso que Espanha, tal como Portugal, devem prestar mais atenção a estes problemas. Estamos juntos no mundo, como se vê agora com a pandemia, que ignora as fronteiras. Esta é a nossa fronteira sul e devemos cuidá-la”, assinalou o embaixador.

Para Ruigómez, as soluções para que os países africanos ultrapassem o subdesenvolvimento passam pelo investimento.

“Por isso, achamos que fomentando o investimento das nossas empresas e dos nossos investidores públicos e privados podemos ajudar a sair Angola e outros países de uma situação económica difícil”, salientou.

O diplomata elogiou igualmente o combate à corrupção levado a cabo pelo chefe do executivo angolano, João Lourenço, desde que chegou à presidência, em 2017, que considerou “muito importante” para facilitar a vinda de investidores espanhóis.

Também essenciais são outras iniciativas como os pacotes legislativos que o governo e a Assembleia Nacional têm vindo a aprovar no domínio da facilitação dos negócios, apontou, lamentando que a pandemia esteja a travar os intercâmbios entre os países.

Se não fosse a covid-19, Angola estaria a atrair mais investimento, acredita, indicando entre as medidas legislativas relevantes, o facto de ter deixado de ser obrigatório fazer parcerias com sócios angolanos para investir no país.

Industriais angolanos querem espanhóis na economia real

A Associação Industrial Angolana (AIA) espera que o Governo angolano “encoraje” o Governo espanhol a “olhar para economia real” do país africano, no âmbito da visita de Pedro Sánchez, pedindo “proatividade” a Portugal “para não ser ultrapassado”.

Para o presidente da AIA, José Severino, que falava hoje à Lusa a propósito da visita que o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchéz, fará a Angola nos dias 7 e 8 de abril próximo, as pequenas empresas, que compõem grande parte do mosaico empresarial angolano, "não devem ser marginalizadas".

“Infelizmente, quando vêm essas visitas ao mais alto nível os negócios já estão estipulados, já sabem quais são os corredores, já se sabem quem são os parceiros e é muito difícil depois a economia real penetrar”, afirmou hoje José Severino, em declarações à Lusa.

O presidente da AIA, que enaltece o relacionamento do embaixador espanhol em Angola com as associações empresariais, considera que Espanha, com o seu 'know-how', “pode fazer boa cooperação com Angola”, desejando que a visita de Sánchez “não seja uma grande frustração” para o pequeno empresário.

“Estas visitas ao mais alto nível são sempre uma grande frustração, a minha esperança é que desta vez isso não aconteça, porque mobilizam-se empresários, criam-se boas vontades e depois quando a gente vai a espremer só ficou a parra e não há uva”, notou.

“Infelizmente é esse o ambiente dessas grandes visitas, o que é natural, nenhum primeiro-ministro, um chefe do Governo, se desloca a um outro país com quem cooperar sem ter já as coisas alinhadas e não vale a pena estarmos a pensar de outra forma”, atirou.

Espanha é um dos maiores fornecedores de bens a Angola, sobretudo produtos da indústria alimentar.

O também economista recorda que 90% do tecido empresarial angolano é constituído por micro, pequenas e médias empresas e “é importante que os espanhóis olhem também para este segmento” e “não apenas para interesses estratégicos que são a razão da vinda de Pedro Sánchez a Angola”.

“E, naturalmente, é preciso que o Governo consiga encorajar o governo espanhol a olhar para economia real. Os espanhóis vêm fazer agricultura? Não acredito. Tem de haver muita perspicácia para encontrar filões a serem explorados”, defendeu.

O líder da AIA aponta o setor do “downstream” dos petróleos (transporte e distribuição de combustíveis) como uma área em que os espanhóis “deveriam apostar”.

Mas, observa, é preciso “muita perspicácia e boa vontade dos dois titulares executivos para encontrar formas de não virem aqui só para fazerem grandes negócios como infraestruturas, parcerias público privadas, petróleos, gás e o resto ficar marginalizado”.

Para o líder da AIA tudo depende da capacidade de interação dos dois titulares dos governos, para que a economia real não fique marginalizada.

José Severino entende também que a visita de Pedro Sánchez a Angola “deve alertar o governo português” no sentido de “ser mais proativo”, e não defender apenas grandes interesses, no sentido de “não ser ultrapassado” por Espanha no domínio da competitividade em Angola.

Em Angola “há alguns interesses espanhóis, ainda poucos, e Portugal “pode muito bem trabalhar nas infraestruturas que é uma forma indireta de apoiar a economia real”.

Espanha “já teve projetos no rio Bengo, pode fazer as parcerias público-privadas no domínio da energia fotovoltaica, Espanha tem grande capacidade nesse domínio, trabalhar nas infraestruturas, são negócios com o Estado, mas nós apanhamos boleia”, sugeriu.

“Agora Portugal tem de se mexer, se não o primeiro-ministro espanhol ultrapassa o senhor (António) Costa porque isso é competitividade, digo isso não com o sentido de beliscar seja quem for, mas o que interessa é que Portugal também reaja e venha, há quanto tempo é que Portugal não vem a Angola”, questionou.

“É importante que o nosso Governo esteja aberto à cooperação internacional, mas isto não anda sem economia real”, reforçou.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, vai visitar Angola na primeira etapa de uma curta deslocação a África que o levará também ao Senegal, disse à agência Lusa fonte do executivo de Madrid. O chefe do governo espanhol pretende retomar de forma gradual a sua agenda internacional, muito condicionada pela pandemia de Covid-19, que tem África como uma das prioridades, segundo a mesma fonte.

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