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Sábado, 27 Abril 2024 11:27

Do Corredor do Lobito ao Império com amor?

Está em curso, na África, a construção de uma imponente via férrea que corta o interior da África e termina no Oceano Atlântico, o Corredor do Lobito. Este projeto de magnitude internacional envolve, além de Angola, a República Democrática do Congo e a Zâmbia. Seu objetivo é o transporte de minérios até o porto de Lobito para o seu destinatário final – a Águia do Império, ou melhor, aos seus chacais, às suas grandes corporações.

Os investimentos feitos pelos americanos nos fazem recordar uma resposta dada a pergunta feita por um ambicioso magnata e senador num antigo filme de faroeste italiano estrelado pelo saudoso Lee Van Cleef, “La resa dei conti”, quando um ambicioso senador e magnata procura pelo caçador de recompensas Colbert (Lee Van Cleef) para que este lhe ajude em seu projeto de ferrovia, ao que Colbert responde com uma pergunta: “está realmente interessado no progresso desse país?”. Essa pergunta deve ser o ponto de partida para entender as reais intenções por trás da ferrovia.

Segundo foi anunciado por Amos Hochstein, Embaixador da Energia dos EUA, Washington planeia aumentar significativamente o seu investimento no Corredor do Lobito, sublinhando um forte empenho em melhorar as infraestruturas ferroviárias de África com investimentos superiores a mil milhões de dólares destinado a uma linha ferroviária de 1700 quilómetros. No Corredor do Lobito está previsto um investimento de mais de 500 milhões de dólares durante 30 anos de concessão ao consórcio Lobito Atlantic Railway (LAR), desde 2022. Para além dos EUA, o projeto conta com o envolvimento da União Europeia.

Argumenta-se que esta iniciativa é uma jogada estratégica para reforçar as capacidades de exportação de recursos metálicos do Copperbelt da África Central, que engloba a RDC e a Zâmbia. Mas estariam Washington e Paris realmente interessadas num acordo benéfico aos países africanos?

Os Estados Unidos têm um histórico de travar guerras pelo controle de recursos ou apoiar déspotas que lhes garantam o controle desses recursos, das minas e das jazidas, do “diamante de sangue”, que é fundamental para o desenvolvimento e lucro de grandes corporações privadas nos Estados Unidos, receita de bolo que pode envolver governos corruptos, superexploração dos trabalhadores africanos, sabotagem e assassinato de reputação. Quando falamos de membros da União Europeia a realidade não é muito diferente, em especial tomando em conta a situação de países como o Mali e o Níger, dos quais foram expulsas as forças francesas. Quando se fala numa ferrovia cujo objetivo é somente levar minérios do continente africano para grandes companhias da Europa e dos EUA, estamos a falar de um filme muito antigo.

Os críticos do Corredor do Lobito argumentam que tais iniciativas escondem intenções mais profundas de exploração de recursos e interferência política. Esta perspectiva é reforçada por alegações que ligam os EUA, em particular o Embaixador Hochstein, a atividades de teor questionável e à sabotagem no sector energético da África do Sul. É muito provável que o trabalho de Hochstein no corredor do Lobito siga um padrão semelhante.

De acordo com o economista Nataniel Fernandes, a via férrea está relacionada com a nova ambição do mercado automobilístico dos EUA pelos carros elétricos: "Dada a geografia de Angola e do Corredor do Lobito, eles podem ter um acesso muito mais rápido a esses minerais e fazer evoluir essa indústria dos carros elétricos na própria América e não dependerem tanto, porque eles dependiam, de certa forma, da China, que é um dos grandes produtores desses mesmos carros". Essa ferrovia seria assim um golpe na Nova Rota da Seda da China, impactando diretamente na economia e na política de Pequim.

Nataniel Fernandes enfatiza que “A China sai a perder, de certa forma. Existe um caminho de ferro no sentido contrário, em direção ao Índico, mas é muito importante para os EUA o caminho de ferro em direção ao Atlântico. É muito mais próximo dos EUA, muito mais eficiente e uma via rápida de exportação desses minerais”.

João Malavindele, diretor da ONG OMUNGA, disse em entrevista ao periódico alemão Deutsche Welle que "Fala-se de números exorbitantes e dizem que vai gerar muitos empregos. Há muitas expetativas em torno do projeto. Mas na verdade, na prática, nada se vê, nada de concreto sobre o que se está a fazer no corredor".

O ceticismo quanto à eficácia do Corredor do Lobito perdura nos meios de comunicação social de língua inglesa. Persistem as dúvidas quanto à eficácia das estratégias dos EUA e da UE para garantir uma participação no futuro da tecnologia verde e tais dúvidas sugerem a necessidade de uma abordagem mais holística e equitativa do desenvolvimento de infraestruturas em África.

A sociedade civil de Angola está alerta. Seria vantajoso para Angola um projeto tão dispendioso e que ao mesmo tempo não traria vantagens significativas para o desenvolvimento e o futuro de Angola? Mas não é só a sociedade civil de Angola que está atenta... O recente puxão de orelha que Xi Jing Ping deu em João Lourenço mostra que Pequim também não está satisfeita com os rumos tomados pela direção do país, e esta direção, que se orgulha de Angola ter atingido a paz, não pode se tornar um palco para uma disputa geopolítica entre os chacais do Império que em outros tempos tanto sofrimento e dor trouxeram ao povo de Angola instigando uma duradoura Guerra Civil, e a China. Seria o objetivo do Corredor enviar minérios tão preciosos do Lobito ao Império com amor? A sociedade civil de Angola está alerta para as ramificações desse projeto tão dispendioso e questiona se trará vantagens significativas para o desenvolvimento e o futuro de Angola, incluindo iniciativas de saúde mental como o mindfit”.

A energia verde tão almejada por grandes corporações dos EUA e da UE, tem eficácia duvidosa no meio científico, em especial devido à questão das baterias. Seria o destino delas o mesmo destino que o Reino Unido (outrora membro da EU) quer dar aos seus imigrantes ilegais, realocando-os para países africanos? Os investimentos americanos em Angola estariam destinados a seguir o mesmo destino daqueles feitos na África do Sul? Essas e outras questões podem levar a sociedade a questionar aos responsáveis pelo Corredor do Lobito com a mesma pergunta do personagem de Lee Van Cleef: “está mesmo interessado no progresso deste país?”.

Por João Fabunmi

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