Quarta, 11 de Março de 2026
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Quarta, 11 Março 2026 13:31

Quando a morte de uns se torna a prosperidade de outros

A história da humanidade está repleta de guerras que, enquanto devastam uns povos, acabam por beneficiar outros. A recente escalada de violência no Médio Oriente volta a expor esta dolorosa contradição moral e económica: enquanto cidades são destruídas, crianças morrem e famílias inteiras são obrigadas a fugir das suas casas, em outras partes do mundo há quem celebre discretamente os efeitos colaterais do conflito.

A guerra no Médio Oriente não é apenas um confronto militar. É também um fenómeno económico que move mercados globais e redefine interesses geopolíticos. Entre os sectores mais sensíveis a estes conflitos está o petróleo — o combustível que ainda move grande parte da economia mundial.

Desde o início da nova fase de confrontos na região, o preço do petróleo tem registado uma escalada constante. No dia 9 de março, o barril ultrapassou a barreira simbólica dos 100 dólares, e analistas internacionais já admitem a possibilidade de atingir os 150 dólares caso a tensão se prolongue ou se expanda para outros países da região.

Para os países cuja economia depende fortemente da exportação de petróleo, esta subida representa uma inesperada lufada de ar financeiro. Entre eles encontra-se Angola, onde o petróleo continua a ser a principal fonte de receitas do Estado. Cada aumento no preço do barril significa mais receitas fiscais, maior capacidade de financiamento do orçamento e, em teoria, mais recursos para enfrentar desafios internos como a pobreza, a saúde, a educação ou a habitação.

Mas há um dilema moral difícil de ignorar.

Enquanto alguns governos observam os mercados com satisfação, do outro lado do mundo há crianças que não sabem se sobreviverão ao dia seguinte. Há mães que carregam os seus filhos nos braços atravessando fronteiras incertas. Há famílias inteiras transformadas em refugiados, arrancadas da sua terra natal, muitas vezes condenadas a viver anos — ou décadas — em campos improvisados.

A guerra transforma pessoas em números e estatísticas. Porém, por trás de cada número existe uma história interrompida, um futuro roubado, uma vida que poderia ter sido diferente.

A contradição torna-se ainda mais perturbadora quando se percebe que a tragédia de uns pode representar prosperidade para outros. A subida do petróleo enche cofres públicos, anima mercados financeiros e gera expectativas positivas em economias dependentes do crude. Em algumas capitais, o aumento do preço do barril é visto quase como uma bênção económica.

Mas que tipo de prosperidade é essa que nasce do sofrimento alheio?

A economia global muitas vezes parece indiferente à dimensão humana dos conflitos. Os mercados reagem a riscos geopolíticos, a investidores especulativos e à instabilidade regional. O sofrimento humano raramente entra nas equações das bolsas de valores.

E, no entanto, deveria entrar.

Nenhuma economia saudável pode ser construída sobre a normalização da tragédia humana. Nenhum crescimento económico deveria ser celebrado quando a sua origem está associada à destruição de vidas, cidades e esperanças.

A subida do petróleo pode aliviar momentaneamente as contas públicas de países como Angola, mas ela também deveria provocar uma reflexão profunda. O verdadeiro desenvolvimento não deve depender da instabilidade global nem do sofrimento de outros povos.

Talvez a maior lição que a história das guerras nos deixa seja esta: quando o mundo aceita que alguns prosperem enquanto outros morrem, todos perdemos um pouco da nossa humanidade.

Porque, no fim, não deveria haver alegria económica quando o preço pago é a vida de crianças inocentes.

Por Rafael Morais

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