Com a formalização da convocatória, os atuais membros do Comité Central e o Presidente do partido passam automaticamente à condição de cessantes, desencadeando um processo interno que promete ser um dos mais disputados e escrutinados da história da organização.
Pela primeira vez desde a sua fundação, o MPLA prepara-se para realizar uma eleição interna com múltiplos candidatos à presidência do partido. O facto é visto por observadores políticos como uma mudança significativa no modelo de funcionamento da estrutura partidária, tradicionalmente marcada por consensos internos ou candidaturas únicas.
O Congresso, que reunirá cerca de 3.000 delegados, terá a responsabilidade de decidir quem assumirá a liderança do partido para os próximos cinco anos. Antes disso, os militantes serão chamados a participar num processo de balanço e renovação de mandatos nas estruturas de base, culminando na escolha dos delegados que terão direito a voto no conclave.
O caminho até à candidatura
O regulamento estabelece critérios rigorosos para quem pretende disputar a presidência do partido. Cada pré-candidato deverá reunir 5.000 assinaturas de militantes, distribuídas por todo o território nacional, com um mínimo de 250 subscrições em cada província.
Este processo será supervisionado pela Comissão de Candidaturas, liderada por Job Capapinha, responsável por analisar e validar os processos submetidos. Apenas após essa verificação os pré-candidatos poderão ser formalmente reconhecidos como candidatos ao cargo máximo da organização.
Além das subscrições, cada candidatura deverá apresentar uma Moção de Estratégia — documento que detalha propostas políticas, linhas programáticas e a visão estratégica para o partido e para o país. Caso o candidato seja eleito, esse documento será debatido e aprovado no Congresso, passando a orientar a ação política do MPLA durante o novo mandato.
Três nomes já avançaram
Até ao momento, três figuras já manifestaram publicamente a intenção de disputar a liderança do partido: o general Higino Carneiro, o engenheiro António Venâncio e o jurista José Carlos de Almeida.
Todos se encontram agora numa fase crítica da pré-campanha interna, dedicada à recolha de assinaturas e ao contacto direto com militantes nas bases partidárias. O objetivo é garantir o apoio mínimo necessário para formalizar a candidatura junto da Comissão de Candidaturas.
Regras para evitar favorecimentos
Os novos estatutos do MPLA introduzem mecanismos que procuram garantir maior transparência no processo. O artigo 31.º assegura que qualquer militante inscrito no Comité de Ação do Partido (CAP) e com quotas regularizadas pode subscrever candidaturas livremente.
Já o artigo 106.º proíbe expressamente qualquer favorecimento institucional a candidatos específicos. Isso significa que os recursos partidários destinados à campanha interna deverão ser disponibilizados em condições de igualdade para todos os concorrentes.
A votação para a presidência do partido será presencial e secreta, seguindo o princípio maioritário entre listas concorrentes.
Congresso com novos elementos de participação
Outro elemento inovador do processo diz respeito à composição do Comité Central. Uma proposta prevê que 15% dos CAPs passem a designar membros para este órgão, reforçando a participação das bases na estrutura dirigente.
O IX Congresso será realizado sob o lema “MPLA: Compromisso com o Povo, Confiança no Futuro”, numa tentativa de projetar uma imagem de renovação e abertura política.
Impacto para o futuro político
Embora o Congresso eleja apenas a liderança partidária, as decisões tomadas poderão ter impacto direto no cenário político nacional. O candidato que liderar o partido poderá influenciar fortemente a escolha do cabeça de lista do MPLA para as eleições gerais de 2027 — decisão que caberá ao Comité Central a ser eleito em dezembro de 2026.
Num contexto em que o MPLA enfrenta crescentes pressões políticas e sociais, o processo interno que agora se inicia poderá representar mais do que uma simples renovação de lideranças. Para muitos analistas, trata-se de um teste à capacidade do partido de adaptar-se a exigências contemporâneas de democracia interna, transparência e participação dos militantes.
Se confirmada a disputa entre vários candidatos até ao Congresso, o IX Congresso poderá entrar para a história como o momento em que o MPLA iniciou uma nova fase de competição política dentro da própria organização.

