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Domingo, 23 Abril 2023 18:45

A (in)definição da oposição angolana.

Todo grupo assente numa sociedade deve definir a sua estratégia para alcançar os objectivos na qual foi criado o mesmo grupo. E para que se alcance os objectivos preconizados, é imprescindível que a estratégia esteja devidamente definida e que haja elementos que diferem dos principais concorrentes.

Eleições nem sempre são vencidas pelo melhor candidato, nem um governo vitorioso é garantia de continuidade.

As campanhas eleitorais são importantes, ao contrário do que muitos acreditam, e pode ser que um Partido tenha governado bem e perdido, ou tenha sido um governo questionado e acaba se consolidando nas urnas. As campanhas hoje são permanentes, e um trabalho bem planeado da oposição oferece ao candidato/Partido muitas possibilidades de ser a opção escolhida pelos eleitores que desaprovam a gestão do governo, que, claro, sempre existe.

O modelo clássico da oposição angolana costuma ser rejeitar todas as iniciativas promovidas pelo Executivo, não apoia o orçamento e exerce um rígido controle sobre o partido no poder, com espírito de oposição mais do que colaborador. Nesta linha estratégica, muitos partidos da oposição falham ao não proporem políticas alternativas ao Governo actual, a sua estratégia começa e termina na má governação do MPLA.

Sem entrar em análise se é uma estratégia exitosa ou não, o que fica claro é que não é a única margem de manobra que resta para a oposição.

Ficou patente na realidade angolana que o crescimento da aceitação da oposição, é fundamentalmente pela da má governação do MPLA que da própria estratégia da oposição. E neste primeiro ano do segundo mandato do João Lourenço, notamos ainda que a oposição não está a saber aproveitar dos erros de iniciação que o governo do MPLA tem vindo a cometer.

É fundamental que a oposição angolana selecione bons tópicos para definir a sua política como Partido. Um elemento crucial no trabalho da oposição é a escolha dos temas que vão definir a política do partido nesse período e que são necessários para associar a imagem do seu Presidente aos assuntos que interessam os cidadãos. Trata-se de escolher tão bem esses temas que, quando as pessoas pensam ou veem o Presidente do Partido, imediatamente vêm à mente um conjunto de estratégias que esse Partido pretende implementar caso ganhe as próximas eleições. Um tema é um conjunto de problemas ligados por um fio comum.

Os temas comuns sobre a problemática angolana têm a vantagem de atingir um público amplo e visa criar uma imagem favorável ao Presidente do Partido. São questões com as quais todos concordam, não se polarizam e aparecem sempre nas primeiras preocupações das pesquisas:  limpeza, segurança, emprego, infraestructura, corrupção, estabilidade política... Essas questões não dividem a população, mas são mais fracas do que as questões posicionais, ou seja, aquelas que se enquadram nas disputas ideológicas dos partidos, geram polêmica e às vezes polarizam, mas inquestionavelmente fortalecem uma parte do eleitorado. A cobertura ou não da saúde pública, o caráter público ou privado da educação ou a descriminalização do aborto são questões dessa natureza. Os partidos que estão na oposição devem escolher entre um tipo de questão ou outro, embora em termos gerais tenham razões para usar aquelas que são mais ideológicas. Mas a oposição angolana está confortável nos mesmos temas que o Partido no poder apregoa.

Os temas são um instrumento essencial para lutar contra um dos principais inimigos dos políticos da oposição: a resistência à mudança. Em todas as eleições, o eleitor tem que decidir entre a continuidade do governo ou sua mudança para outro partido. Substituir o partido que está no governo não é tarefa fácil porque o familiar dá segurança e o medo do novo leva muitos eleitores a não arriscar seu voto. Uma oposição efectiva, portanto, será aquela que com sua estratégia e suas mensagens seja capaz de neutralizar a sensação de medo e oferecer soluções concretas, práticas e viáveis para os problemas da sociedade.

É importante que quando o povo olhe para a oposição, consiga distinguir claramente quais são os principais temas que definem as suas políticas alternativas e que diferem do actual governo.

Por: Adão Xirimbimbi AGX

Jurista Investigador

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