Domingo, 03 de Julho de 2022
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Terça, 29 Março 2022 01:12

Não é só entre a Ucrânia e a Rússia

O Presidente Biden não pôde exprimir melhor e de deixar mais claro o que está em jogo no conflito (bélico) que arrebentou na Europa. Quando quase todo mundo se preparava para suspirar de alívio de uma outra guerra que nos opôs à um inimigo invisível que (na noção coletiva) foi capaz de condicionar as nossas vidas nos últimos dois anos, deflagrou a guerra da pólvora à sério.

No discurso em território da Polónia, no decurso de uma visita estratégica a um importante parceiro transatlântico, Joe Biden foi assertivo na alusão ao prístino posicionamento assumido pelo Papa João Paulo II em 1979. A visão e a coragem de João Paulo II foram contributos determinantes para a queda do muro de Berlim e o colapso da cortina de ferro ao fim de dez anos – disse o presidente norte-americano.

Num registo incisivo, Joe Bin denunciou a disputa entre dois mundos que se opõem. A competição pela afirmação de duas constelações de valores que se repelem mutuamente, que são inconciliáveis, por isso, ciclicamente, têm de enfrentar-se. Das palavras do presidente norte-americano ressoa, insistentemente; Enquanto e sempre que o mundo se deparar com homens e/ ou com regimes que atentam contra a razão e a justiça, contra o dever de respeito pela dignidade humana, que desprezam a escolha e a autodeterminação dos povos, violem a liberdade e a independência de estados livres e soberanos, o mundo civilizado tem de unir-se e atuar em defesa dos valores sem os quais não se pode alcançar a paz mundial e estabelecer a harmonia na convivência entre os estados e os povos.

No centro do discurso do presidente norte-americano surge reiteradamente a palavra democracia. Disse-o de forma mais ou menos directa: O mundo não está assistindo a uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia. O privilégio infeliz que todos partilhamos nesse momento é o de testemunhar um ataque brutal da ditadura contra a democracia.

O totalitarismo não é capaz de absorver a ideia da convivência pacífica com seu antípoda – democracia. Não sendo capaz de se integrar no mundo através de dinâmicas orientadas para inclusão num quadro de respeito pela diversidade de pensamento, o totalitarismo dedica-se ao aperfeiçoamento de estratagemas que atacam as liberdades - seja na esfera da partilha de ideias e da informação, seja no campo do exercício pleno dos direitos políticos (passivos e activos) como seu alvo último a subverter. Daí a base dialética de toda criação narrativa putinista na preparação da invasão à Ucrânia.

De ouvidos bem focados na voz do presidente Biden, em uníssono com a União Europeia (EU em inglês), com certeza, dir-se-á que o povo angolano tem motivos legítimos, acrescidos, para exponenciar as suas expetativas no horizonte das próximas eleições. A final, se a democracia está em perigo no mundo inteiro e onde quer que ela exista ou, os povos a desejam instituir, Angola é um caso a merecer atenção especial. Esta atenção deverá vir do presidente Biden e da EU visto que o país tem eleições marcadas para o ano corrente.

É mais que evidente que o próximo acto eleitoral em Angola é decididamente controverso porque, na sua preparação pelas autoridades instituidas, totalmente desencontrado com o fim almejado pelos ilustres pensadores da democracia. Os pilares sobre os quais assenta a própria concepção que vivifica, que ativa o espírito da tolerância com influxo da justiça da igualdade para as entranhas do regime democrático, têm sido sistematicamente objecto de tiro ao alvo por parte do poder político instituído. O presidente Biden e a EU, ainda vão a tempo de conhecer os meandros da realidade política e socioeconómica de Angola por forma a atuarem em nome e à bem da defesa da democracia e do sucesso da sua luta contra os totalitarismos. Em detrimento de uma realidade democrática de aniagem, o povo angolano deseja muito o estabelecimento da democracia real em todas suas formas de expressão. Como o povo da Ucrânia, o povo angolano também é merecedor de uma ajuda preciosa e sem reservas, pois, quer e muito lhe convém livrar-se do totalitarismo encapotado em vestes democráticas. As oligarquias que combatem a democracia as quais o presidente Biden e a EU declararam guerra implacável, também se estabeleceram em Angola e sequestraram todas aspirações em ordem o estabelecimento de um estado democrático assente na liberdade e vontade popular.

Perante a assertividade e a determinação do presidente Biden e dos líderes da EU, o sentimento do povo angolano não pode ser outro senão a ânsia de receber, de imediato, a ajuda da poderosa influência dos mais proeminentes guardiões da democracia e da paz, da estabilidade e da ordem mundial. As rendas provenientes dos recursos energéticos de Angola devem ser mobilizadas e aplicadas ao avanço e a consolidação de um regime democrático em Angola. A realidade estrutural angolana representa uma frente apreciável para a resistência e sobrevivência do totalitarismo. Os oligarcas angolanos devem e merecem o tratamento direcionado aos seus pares russos. Não há que hesitar se o caminho a privilegiar é o abraçado há 43 anos pelo Papa João Paulo II em homenagem aos valores do cristianismo e das culturas livres e amigas das liberdades. Como bem disse o presidente Biden: “Pelo amor de Deus, este homem não pode permanecer no poder.”

O povo angolano, através do silêncio martirizante das suas aflições diárias, de um modo ensurdecedor dirá aos ouvidos do presidente Biden e dos líderes europeus, esperançoso de ser ouvido com a mesma decência, dignidade e determinação: “Pelo amor de Deus, unam-se também pela nossa causa. Os oligarcas angolanos não podem permanecer no poder.”

Por: Bráulio Sousa Monteiro     

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