Terça, 24 de Mai de 2022
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Quarta, 26 Janeiro 2022 11:10

Quando a Transparência Internacional cai na armadilha

As mais recentes conclusões da Transparência Internacional sobre a percepção melhorada da corrupção em Angola levantam sensações e leituras antagónicas. Mais do que isso, enfatizam o desleixo e a leviandade com que, muitas vezes, somos observados a partir de fora.

Variados analistas e políticos nacionais têm alertado com frequência para os riscos da vulgarização do que se convencionou por combate à corrupção em Angola. Abel Chivukuvuku, por exemplo, tem-se destacado, ao insistir numa espécie de delimitação de conceitos para clarificar o que é e o que não é corrupção. E não o faz por mera vontade de fazer política.

A concentração dos roubos do passado na corrupção tem facilitado o branqueamento da negligência voluntária do poder, face aos roubos do presente. Justamente por isso, mesmo da sociedade, são mais frequentes as críticas a situações do passado do que a casos do presente, quando os órgãos de justiça não actuam. É, de certo modo, nesta armadilha em que também caiu a Transparência Internacional ao reportar a percepção da corrupção em Angola.

Os factos, entretanto, não mentem. Quem observa Angola com atenção e isenção sabe que, em matéria de corrupção, a justiça angolana nunca teve a imagem tão comprometida. Leis caucionadas pelo poder e denúncias repetidas que ecoam na comunicação social atestam que os órgãos de justiça estão a ser arrastados apressadamente para o topo dos mais corruptos, no conjunto das instituições do Estado.

Dito isto, as comparações tornam-se inevitáveis. No passado, a justiça tinha as mãos atadas por culpa das ordens superiores. Quando o assunto era o saque ao erário, não investigava, nem prendia ninguém. Como contrapartida, os chefões do sistema eram compensados com benesses e uma infinidade de estatutos especiais para manterem tudo como estava. Quem estivesse na base se limitava, por sua vez, a cumprir as ordens, na mendicidade.

No presente, com as mesmas ordens superiores, a justiça tem licença para agir barbaramente contra uns e carta-branca para proteger os que interessam. Como recompensa, o quinhão dos chefões acabou multiplicado com leis que permitem a usurpação selvática de bens de pessoas que os próprios se encarregam de condenar antes mesmo dos julgamentos. Uma espécie de roubalheira legalmente sofisticada.

Já na base e nas posições intermédias, ao contrário do passado, aparentemente se instalou uma luta frenética a céu aberto. É a aparente caça da oportunidade para subir na vida, num vale tudo que inclui a extorsão e a chantagem. A Transparência Internacional caiu certamente na armadilha das percepções. VE

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