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Quinta, 20 Junho 2019 11:06

Zeduísmo e monarquia

A última intervenção do presidente do MPLA no Congresso vem sendo objecto de análises positivas por jornalistas e politólogos que só analisam o presente referenciando alguns dados do passado recente consubstanciados em fenómenos que resultam, em última análise, de uma filosofia importada da ex-União Soviética: a nomenklatura.

Por Manuel Rui

Palavra derivada do latim e que designava a “burocracia” ou “casta dirigente”, que incluía os funcionários do Partido Comunista da União Soviética e a elite militar. Paradoxalmente, sem querermos fazer um historial que mesmo resumido não caberia nesta crónica, um regime que visava a igualdade, a liberdade, o primado da classe operária como bandeira que derrotara o czarismo hereditário como as monarquias, acabou numa “classe” que dominava as riquezas, impedia as liberdades e criou campos de concentração para presos políticos, uma sociedade do medo e do terror. Muitos escritores foram levados para esses campos de concentração e o último a escrever “A Nomen-klatura,” Michael Volensky, teve de se exilar.

Não obstante os sucessos na agricultura, ciência, técnica, arte e desporto, a concorrência com a América na aventura espacial, quando se anunciava o auge do sistema que estava à beira do colapso e se pensava num socialismo tipo capitalismo de estado, o novo secretário-geral do partido, Gorbatchev, introduziu a filosofia da Perestroika (reestruturação em russo) e da Glasnost (transparência), visando a implantação da democracia, a abertura política, liberdade de expressão, intenção de acabar com a “guerra fria” e tratar dos problemas políticos e éticos dentro do governo para tirar o tapete à nomenklatura. E assim, a União Soviética caia como um castelo de areia. De repente, por toda a Europa apareciam russos milionários comprando palácios, iates, clubes e até o treinador português José Mourinho… e as pessoas começaram a emigrar…muitos tocam violino no Chiado em Lisboa e outras com cursos superiores trabalham de camareiras em hotéis.

Voltando ao nosso país, a nomenclatura teve nuances diferentes que resultaram da situação de independência recente seguida de uma guerra civil desgastante, com valorização dos combatentes vindos da guerrilha e de uma nova elite castrense que vai dar origem aos generais milionários. Para subir era preciso ser militante e adulador do Presidente da República que, em meu entender, se deixou dominar por um séquito que o amarrou ao sucessivo saque das riquezas do país. As questões eram decididas no partido mesmo depois do busto silencioso de Lénine ter acabado num armazém do governo provincial de Luanda. No partido havia quem respondesse pela educação, pela economia, etc., estruturas de controlo. Lembro-me quando era consultor da Endiama aparecer um jovem estudante de Direito, controlador da área e outro estudante de Economia. Junto da Presidência havia um responsável para cada área. Quer dizer, o governo era governado duas vezes. Outra simbologia: no fim de cada reunião, mesmo na universidade, lavrava-se uma acta de apoio ao camarada presidente com adjectivos de elogio e vassalagem.

É bom reparar que enquanto noutros países as matérias de corrupção e similares são tratadas nas estruturas do Estado, aqui, o Presidente João Lourenço fez o pronunciamento no Congresso do Partido. Parece correcto, pois foi dali que saíram as decisões e as pessoas que protagonizaram o Zeduísmo. Singularmente, a nomenclatura de Eduardo dos Santos foi-se transformando numa monarquia travestida de república. Havia um rei, uma rainha, princesas e príncipes, corte e nobreza com condes, marqueses e duques em pirâmide para a prática dos actos que arruinaram o país.

E agora? É preciso refazer o Estado para uma realidade que dirija os nossos destinos e as desigualdades comecem a diminuir. Sabemos que na nossa situação há quem se exalte no “bota abaixo,” na pressa para as soluções, quando se deve manter a calma e lá onde se fez uma grande empresa com dinheiro, por exemplo, da Sonangol, é necessário que a empresa continue. Mantenha os seus trabalhadores para que o povo, a sair de uma penalização infernal, não seja penalizado com o desemprego e falta de sustento para a família. Os brasileiros lamentam-se por não terem feito como os alemães. Após escândalos de corrupção organizada e sistémica corrompendo mesmo no exterior, a gigante alemã Siemens estava a bater no fundo mas foi recuperada com uma despesa de 500 milhões de dólares e assim renasceram também toda uma série de empresas complementares ou subsidiárias, sendo certo que a sangria de uma empresa gigante arrasta consigo outras, somando um exército de milhares de desempregados. Certo que casos de corrupção exigem mudanças radicais nas empresas mas que não comprometam a sobrevivência da empresa.

Felizmente, como nos salvados da guerra, houve coisas boas que foram realizadas. Apesar dos pesares temos bons quadros para o aparelho da governação. Nos países desenvolvidos, o Estado vai às universidades buscar o saber e tudo é avaliado pelo mérito.

No entanto, o país rege-se pela Constituição e não por estatutos de nenhum partido, porque acabou a nomenclatura e a monarquia.

É interessante ver os textos e vídeos sobre o discurso do Presidente João Lourenço. Todos referem a ausência de Eduardo dos Santos. Nos vídeos vê-se e ouve-se o discurso, depois passa Isabel do Santos a andar e Eduardo dos Santos a sair de um carro… JA

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