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Domingo, 26 Janeiro 2020 18:52

Combate à corrupção ou caminho para a confusão?

Em nome da igualdade, liberdade e fraternidade, os revolucionários franceses cortaram a cabeça do rei Luiz XVI e da rainha Maria Antonieta. Em nome da revolução, Robespierre, o defensor do povo, o chamado incorruptível, mandou para a guilhotina os seus opositores girondinos e também os seus companheiros de luta jacobinos.

Em nome da justiça e da revolução Robespierre foi ele mesmo guilhotinado pelos adversários por ter-se tornado cruel, ditador. Sangue e terror mancharam os nobres ideias da Revolução Francesa.

Em nome da libertação do jugo colonial começou de forma mais brutal a luta pela independência de Angola quando em março de 1961 a UPA matou e mutilou, muitos à catanada, centenas de colonos brancos e também negros nas fazendas de café na região dos Dembos, Negage, Úcua e Nambuangongo.

Em nome da luta contra o imperialismo norte-americano e seus lacaios no continente milhares de angolanos perderam as suas vidas outros tantos ficaram mutilados e milhares fugiram da guerra. O mesmo aconteceu em sentido inverso em nome da luta contra o comunismo o mesmo aconteceu em Angola. Em nome da luta contra o fraccionismo centenas foram mortos sumariamente e outros tantos implacavelmente perseguidos e desaparecidos sem deixar rastros. A pretexto de alegadas conspirações políticas e práticas de feitiçaria no "reino'' da Jamba famílias inteiras foram dizimadas, pessoas perseguidas e torturadas até a morte, mulheres e crianças queimadas vivas.

A ambição política e o revanchismo sempre marcaram os principais atores nos processos pré e pós independência em Angola. E o slogan "a luta continua" parece fazer também jus a uma história de continuidade de erros trágicos que lideranças políticas angolanas teimam em repetir. Do inicial entusiasmo com o necessário combate à corrupção somos tomados por uma inquietude com a repetição trágica da história quando vemos que a ambição política e o revanchismo parecem claramente guiar e manchar o imprescindível combate à corrupção que, na minha modesta opinião se faz acima de tudo com boa governação e criação de mecanismos de fiscalização da transparência na gestão da coisa pública, passando também por uma oposição capaz, uma sociedade civil atuante e uma imprensa vigilante.

Vazamentos estrategicamente seletivos, focus mediático e criação de ambiente para discurso de ódio visceral dirigido a apenas um clã de uma família política responsável pelo destino do país desde a independência, tudo isso nos leva a questionar sobre as boas intenções do alegado combate à corrupção num jogo onde árbitro e juiz se confundem.

Em nome do combate à corrupção condenou-se por convicção e factos indeterminados um ex-presidente brasileiro, destruir-se empresas com tecnologia de ponta e implantação global na área da construção civil, desapareceram centenas de empresas que delas dependiam nas mais diversas áreas, milhares dentro e fora do Brasil caíram no desemprego e um estudo recente aponta que os impactos diretos e indiretos da Operação Lava Jato na economia brasileira rondam os U$ 35,6 bilhões. E, não menos trágico, abriu-se caminho para um neonazista como Jair Bolsonaro.

Aguardemos que em nome do combate à corrupção o país não acrescente mais uma página trágica à sua já dolorosa história.

Por Alberto Castro

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