Quando uma sociedade falha na proteção da sua infância, falha em tudo o resto. Não há desenvolvimento económico, estabilidade política ou progresso social possíveis quando crianças crescem marcadas pelo trauma, pelo medo e pela desconfiança.
A pobreza não cria abusadores, mas cria vulnerabilidade. Em Angola, milhares de crianças vivem em contextos onde falta quase tudo: alimentação adequada, habitação segura, acesso à escola, acompanhamento familiar e protecção social.
Em muitos bairros, a sobrevivência diária ocupa tanto espaço que a segurança da criança torna-se um luxo. A violação sexual de menores não pode ser analisada fora deste contexto. Ignorar a pobreza como factor de risco é fechar os olhos à realidade concreta onde o crime acontece.
Casas superlotadas, ausência de privacidade, crianças deixadas sozinhas ou sob cuidados improvisados, deslocações longas e inseguras para a escola - tudo isso aumenta a exposição ao abuso. Quando as autoridades administrativas ou estatais não chegam a comunidade, a população se habitua à precariedade e a criança fica entregue à sua sorte.
O papel do Estado
O Estado angolano tem leis, compromissos internacionais e discursos bem articulados sobre a protecção da criança. Mas a verdade sentida nas comunidades é outra. A justiça é lenta, distante e, muitas vezes, inacessível aos mais pobres. Denunciar um abuso ainda significa enfrentar burocracia, exposição pública, medo de represálias e, em muitos casos, abandono institucional.
Para os decisores políticos, é preciso actuar com precisão e dizer com clareza: proteger crianças exige investimento real. Exige serviços sociais funcionais, psicólogos, assistentes sociais, formação de professores, polícias preparados e tribunais que funcionem com celeridade. Exige dados transparentes, políticas de prevenção e acompanhamento contínuo das vítimas. A infância não pode ser protegida apenas em documentos oficiais. Ela precisa de presença concreta do Estado onde a vida acontece.
As igrejas e líderes comunitários
As igrejas e lideranças comunitárias ocupam um lugar central na vida social angolana. São espaços de confiança, escuta e orientação moral. Por isso, o seu papel na prevenção e combate à violação de menores é incontornável.
Quando líderes religiosos escolhem o silêncio, a minimização do abuso ou a resolução interna de crimes graves, tornam-se parte do problema. Fé não pode ser desculpa para encobrimento. Moral não pode servir para culpar vítimas. Espiritualidade verdadeira protege os mais vulneráveis, mesmo quando isso exige confrontar o erro dentro da própria comunidade.
As igrejas precisam falar claramente sobre abuso sexual, educar crianças e pais, incentivar a denúncia e cooperar com as autoridades. O púlpito não pode ser um lugar neutro quando a infância está em risco.
Pais e famílias
É injusto apontar o dedo aos pais sem reconhecer o peso que carregam. Muitos trabalham longas horas, enfrentam desemprego, instabilidade e falta de apoio. Ainda assim, a protecção dos filhos não pode ser totalmente delegada.
O diálogo dentro da família é uma das ferramentas mais poderosas contra o abuso. Crianças informadas, que sabem identificar limites e confiar em adultos responsáveis, têm mais chances de pedir ajuda. Falar não rouba inocência; o silêncio é que a destrói.
É urgente romper com a cultura da vergonha. Proteger o “nome da família” nunca pode ser mais importante do que proteger uma criança. O abuso não é um assunto privado - é um crime e uma violação de direitos humanos.
Às vítimas, é preciso dizer-lhes que o seu corpo tem valor, ninguém tem direito de tocar-lhes sem consentimento, e denunciar não é traição. O medo, a culpa e a confusão são armas usadas pelos abusadores para continuar. A escola, os clubes juvenis, as associações e os espaços comunitários devem ser lugares seguros de informação e apoio. Educar jovens é prevenir futuros crimes.
A violação sexual de menores em Angola não é responsabilidade de um único sector. É um fracasso colectivo que exige resposta colectiva. Estado, igrejas, famílias, comunidades e jovens precisam agir em conjunto, com coragem e compromisso. Cada criança protegida é um futuro preservado. Cada silêncio quebrado é um passo contra a impunidade. Angola não pode continuar a perder a sua infância para a pobreza, para o medo e para a indiferença. O tempo das declarações já passou. Proteger as crianças não é opção política, nem escolha moral - é uma obrigação urgente e inadiável.
David Capelenguela * Doutorando em C.S (Sociologia), M. em Direito

