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Sexta, 08 Julho 2022 11:59

Morreu José Eduardo dos Santos, ex-Presidente de Angola

O antigo Presidente de Angola José Eduardo dos Santos  faleceu esta sexta-feira, 8 de julho, em Barcelona, anunciou hoje a Presidência da República angolana.

O ex-presidente de Angola tinha 79 anos. Nas duas últimas semanas, José Eduardo dos Santos foi acompanhado pela antiga primeira dama angolana, Ana Paula Santos, a qual se deslocou para Barcelona por pressão dos filhos mais novos do casal.

"O Executivo da República de Angola leva ao conhecimento da opinião pública nacional e internacional, com um sentimento de grande dor e consternação, o falecimento de Sua Excelência o ex-Presidente da República, Engenheiro José Eduardo dos Santos, ocorrido hoje às 11h10 [10:10 em Lisboa], (...) após prolongada doença", pode ler-se no comunicado.

O executivo angolano, que apresenta "profundos sentimentos de pesar" à família, apela ainda "à serenidade de todos neste momento de dor e consternação”.

"O Executivo da República de Angola inclina-se, com o maior respeito e consideração, perante a figura de um Estadista de grande dimensão histórica, que regeu durante muitos anos com clarividência e humanismo os destinos da Nação Angolana, em momentos muito difíceis", acrescenta o comunicado.

José Eduardo dos Santos ocupou a presidência de Angola entre 1979 e 2017, ano em que foi substituído por João Lourenço. Desde que abandonou o poder, Eduardo dos Santos viu a sua família pressionada pelo poder judicial. José Filomeno dos Santos foi condenado a cinco anos de prisão devido a fraude relacionada com a gestão do Fundo Soberano, a filha Isabel dos Santos é acusada de ter lesado o Estado angolano em mais de mil milhões de euros e Tchizé dos Santos saiu do país em 2019 alegando estar a ser vítima de perseguição.

Uma viagem ao passado

Como gostaria de ser recordado na história? "Como um bom patriota" respondeu José Eduardo dos Santos, em junho de 2013, numa entrevista ao correspondente da SIC em Israel, Henrique Cymerman.

Ainda é cedo para dizer se este desejo vai ser concretizado, mas as eleições gerais de 23 de agosto de 2017 em Angola ficaram na história por representarem o adeus ao poder de José Eduardo dos Santos, que durante 38 anos ocupou a presidência do país.

José Eduardo dos Santos saiu do Palácio da Cidade Alta [residência oficial do chefe de Estado] mas manteve uma série de privilégios. Uma lei aprovada em junho transforma-o em "Presidente da República emérito", garantiu-lhe uma pensão vitalícia de 90% do salário, proteção pessoal (extensível à família] imunidade e um lugar no protocolo do Estado. A lei estabelecia ainda que os ex-presidentes apenas possam ser julgados por atos estranhos ao exercício das suas funções pelo Tribunal Supremo. É com este confronto que José Eduardo dos Santos se prepara para virar de página na história de Angola.

Reservado e discreto foram alguns dos clichés frequentemente utilizados para construir o perfil do homem que comandou os destinos de Angola de 21 de setembro de 1979 até 2017. As suas aparições em atos públicos sempre foram escassas e as entrevistas ainda mais raras. José Eduardo construiu o seu poder em cima de um pedestal de inacessibilidade e tornou-se progressivamente mais forte graças a esta estratégia. Em paralelo foi conseguido que o país entrasse numa rota de estabilidade.

Em dezembro de 2016, José Eduardo dos Santos, já assumindo tacitamente a irreversibilidade do seu problema de saúde oficializou sua sucessão, tendo o MPLA nomeado João Lourenço, atual ministro da Defesa, como cabeça de lista para as eleições de 2017, um lugar que lhe deu acesso ao Palácio da Cidade Alta, residência oficial do chefe de Estado, caso o partido saia vitorioso desta disputa.

"Não quero fazer prognósticos, mas quero acreditar que estas pessoas, ao começarem a ter poder, vão revelar um lado delas que não conhecemos. Espero que seja o melhor lado", afirmou o ativista Henrique Luaty Beirão, que esteve preso acusado de uma tentativa de golpe de Estado, em entrevista ao Negócios, em dezembro de 2016.

Um pai reservado que gosta de moamba

Este percurso de saída da presidência iniciou-se a 11 de março de 2016, quando "Zedu" (alcunha que o acompanhou desde sempre) anunciou publicamente a sua retirada da vida política ativa. Uma decisão apressada pelo seu estado de saúde que o obrigava a deslocações cada vez mais frequentes a Barcelona, Espanha, para tratamento de um cancro da próstata.

À data, em recção a este adeus, a sua filha primogénita, Isabel dos Santos publicou na sua conta do Instagram uma imagem de ambos, acompanhada de uma citação em inglês de William Shakespeare: "não tenhas medo da grandeza. Alguns nascem grandes, outros atingem a grandeza e outros têm o impulso da grandeza sobre eles". Depois, em português, Isabel dos Santos retrata assim o pai: "Um homem excecional e um grande africano. Em toda sua ação há dignidade e inteligência. Uma verdadeira fonte de inspiração. Para mim: um pai, um guia, uma referência, um professor".

Isabel dos Santos não esconde a admiração pelo pai. A 28 de agosto (data de nascimento do pai) de 2012 deu uma entrevista à TPA (Televisão Popular de Angola) onde traçou assim o caráter do progenitor. "Muito simples", "muito inteligente" e "extremamente calmo" foram alguns dos superlativos usados pela empresária para caracterizar o progenitor, que passa "o tempo livre que tiver" a brincar com os netos.

Isabel dos Santos revelou na ocasião que Eduardo dos Santos tocava guitarra, gostava da cor azul (era adepto do Futebol Clube do Porto), de ler livros de história e política e que o seu prato preferido era o funge, um acompanhamento típico angolano que pode ser feito de farinha de milho ou de farinha de mandioca e que pode ser apresentado num prato de moamba de galinha ou de calulu, uma mistura de peixe fresco e seco.

A Angop, agência noticiosa angolana, num perfil laudatório de José Eduardo dos Santos publicado em setembro de 2015, dava mais informação: "Nos tempos livres pratica futebol, andebol e basquetebol, sabe tocar viola e tambor, prefere a música clássica. Gosta de literatura, de preferência angolana".

José Filomeno dos Santos, outro dos seus filhos, classificou-o, também em 2012, como um homem de "poucas palavras". "Um pai muito atento, reservado mas atencioso. Às vezes até dá impressão de que ele conhece os nossos problemas mesmo sem nós falarmos", afirmou à TV Zimbo o presidente do Fundo Soberano de Angola.

Fama de "playboy"

José Eduardo dos Santos nasceu no bairro do Sambizanga, em Luanda, a 28 de agosto de 1942. Filho de dois emigrantes são-tomenses, Avelino Eduardo dos Santos, pedreiro, e Jacinta José Paulino, doméstica, que tiveram outros cinco filhos, Avelino, Isabel Luís Eduardo, Marta e Lucrécio.

Patrício Batsikama, autor do livro "José Eduardo dos Santos e a ideia de Nação Angolana", diz que logo após o nascimento lhe foi dado "o nome de ‘Viajante’ pelo seu irmão mais velho, o nacionalista Avelino dos Santos [falecido a 15 de Novembro de 2016]. O verbo ‘viajar’ se diz ‘lembeka’ em Kimbundu. No dicionário de Óscar Ribas ‘Lêmba ou Dilêmba’ é o nome da divindade que se dá a uma criança que nasce nas condições de ‘viajante’. Na antropologia, ‘Dilêmbe nou Lêmbe’ relaciona-se com espíritos da terra devendo assegurar a paz e a fecundidade dos lares, a proteção dos guerreiros, etc".

José Eduardo dos Santos estudou no antigo Liceu Salvador Correia, em Luanda, atualmente Escola Mutu Ya Kevela, nome do rei Kaluanda do Bailundo que em 1902 se revoltou contra os portugueses. Fez o curso de engenharia com especialização em petróleo em Baku, hoje capital do Azerbaijão e que à data fazia parte da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Aderiu ao MPLA em 1958 e em novembro de 1962 partiu para o exílio na República do Congo.

Nesse ano integrou o Exército Popular de Libertação de Angola, braço armado do MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) e em 1963 partiu para Baku, tendo concluído os estudos em 1969.

Durante a sua estada neste país foi jogador de futebol da equipa azeri Neftchi, que disputava a primeira liga da URSS. Segundo uns, alinhou mesmo pela equipa principal, de acordo com outros nunca passou das reservas. E foi também aí que se casou pela primeira vez, com a xadrezista Tatiana Kukanova.

Desde aí foi sempre subindo na hierarquia do partido. "De 1974 a meados de 1975, José Eduardo dos Santos voltou a desempenhar a função de Representante do MPLA em Brazavile. Em setembro de 1974, numa reunião realizada no Moxico, foi eleito membro do Comité Central e do Bureau Político do MPLA. Em junho de 1975, passou a coordenar o Departamento de Relações Exteriores do MPLA e, cumulativamente, também o Departamento de Saúde do MPLA", relata-se na Wikipédia. Quando a independência de Angola foi declarada, a 11 de novembro de 1975, ocupou os cargos de ministro das Relações Exteriores, vice-primeiro e ministro do Plano, gozando da fama de ser um "playboy".

Pelo caminho, o MPLA vive em momentos de brasa e, a 27 de maio de 1977, um grupo liderado por Nito Alves, então ministro da Administração Interna, ensaia um golpe de Estado. O regime reage e Nito Alves, José Van-Dúnem e a sua mulher, Sita Valles são mortos. Segundo cálculos da Amnistia Internacional, a reação ao golpe de Estado e a perseguição a pessoas tidas como "nitistas" ou "fraccionistas" traduziu-se em 30 mil vítimas mortais.

Um "mágico" que satisfaz interesses diversos

Como foi possível a José Eduardo dos Santos manter-se tanto tempo no poder? Ricardo Soares de Oliveira, no livro "Magnífica e Miserável – Angola desde a Guerra Civil" ensaia uma resposta. "A longevidade de José Eduardo dos Santos relaciona-se, em parte, com a capacidade de nunca esquecer os interesses de diferentes bases de apoio da elite e de os satisfazer, sem haver espaço para dúvida sobre quem detém o controlo". Contudo, existe a possibilidade de este edifício sofrer um abalo estrutural com a sua saída, apesar da mestria de Eduardo dos Santos em manter a coesão partidária.

"O MPLA, porém, é intrinsecamente fissíparo e as fricções podem reacender-se, sobretudo se a parada for inusitadamente alta e existir o receio de tudo perder. No fundo, muito depende das decisões complexas de um grupo de angolanos poderosos que, devido aos seus percursos, paixões e limitações pessoais, podem não revelar o sangue-frio que deles se espera na defesa dos seus próprios interesses", salienta o académico, professor associado de Política Comparada na Universidade de Oxford.

Daniel Metcalfe, jornalista, autor de "Dália Azul, Ouro Negro – Viagem a Angola" escreve que em certos meios José Eduardo dos Santos é conhecido como "o mágico". Porquê? "Em virtude do seu talento místico para tirar da cartola dinheiro, concessões ou oportunidades de negócios e redistribuí-los", o que explica, em parte, e estabilidade existente em Angola.

A avaliação do legado de José Eduardo dos Santos está longe de ser consensual. Patrício Batsikama gaba-lhe a visão de "estadista", caracterizada pela "permanente celebração da paz para garantir a integridade simbólica do Estado nacional com segurança". E acrescenta: "esta estrutura-se na concorrência dialógica entre diferentes capitais humanos que almejam o compromisso económico de produzir riquezas, em busca da prosperidade interna e na gestão de boa-vizinhança".

O jornalista Mfonobong Nsehe, num artigo publicado na Forbes em fevereiro de 2012, elegeu-o com um dos cinco piores líderes de África. "Em vez de transformar o boom económico de Angola em alívio social para o seu povo, canalizou as suas energias para intimidar os media locais e desviar os fundos do Estado para suas contas pessoais e familiares. A família de Dos Santos controla uma grande parte da economia angolana. Sua filha, Isabel dos Santos, acumulou uma das maiores fortunas pessoais de Angola usando o produto da alegada corrupção de seu pai para adquirir participações substanciais em empresas como a Zon Multimédia [agora a Nos] e em bancos portugueses".

Nicolau Santos, em fevereiro de 2017, logo após ser conhecida a saída de José Eduardo dos Santos da presidência interrogava: "Como é que a História julgará José Eduardo dos Santos". O atual presidente da RTP retorquia assim. "Essa é a pergunta que só terá resposta daqui a quatro ou cinco décadas, quando a distância permitir perceber as múltiplas nuances do seu longo reinado. Mas todos os aspetos positivos serão valorizados se Angola fizer uma transição suave e se for aprofundada a frágil democracia que se vive no país – e toda a análise lhe será desfavorável se Angola mergulhar numa convulsão política, económica e social. O tempo se encarregará de dar a resposta".

C/Jornal de Negócios

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