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Quinta, 26 Setembro 2019 10:05

Rafael Marques aponta progressos na liberdade de expressão e falhas na economia em Angola

O ativista e jornalista angolano Rafael Marques apontou hoje uma "maior liberdade de expressão" e o "fim da ideia de impunidade" como aspetos positivos dos dois anos de presidência de João Lourenço, mas reclamou mais competência nas políticas económicas.

"Há um maior espaço de liberdade de expressão que os cidadãos devem aproveitar para se tornarem mais reivindicativos e participarem. Angola sempre viveu sobre o manto do medo e da repressão e, com João Lourenço, passou a haver um clima de distensão. As pessoas perderam o medo", disse Rafael Marques.

O jornalista falava à agência Lusa a propósito da passagem de dois anos da chegada de João Lourenço à Presidência da República de Angola, que se assinala hoje.

Por outro lado, apontou Rafael Marques, "acabou-se com a ideia de impunidade" no contexto do combate à corrupção com o julgamento de alguns dirigentes.

"Isso dá um exemplo bom de fim da impunidade", reforçou, questionando, porém, até que ponto poderão esses processos representar um combate efetivo da corrupção.

"Continua a haver muita corrupção e nota-se que o Presidente não consegue ou não tem mecanismos claros de controlo dos níveis de corrupção no seu próprio governo", considerou.

O jornalista e ativista, fortemente crítico do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, concede que João Lourenço "herdou um regime" e muitos dos dirigentes que estiveram no poder com o antigo Chefe de Estado, mantendo-se "muitas práticas do passado".

Com o país em recessão económica pelo quarto ano consecutivo, a dívida pública acima dos 80% do Produto Interno Bruto (PIB) e níveis elevados de desemprego, especialmente entre os jovens, Rafael Marques aponta "a degradação da situação económica" como o aspeto mais negativo da Presidência de João Lourenço.

"Reconhece-se que o Presidente não pode mudar a situação em dois anos depois de mais de 40 anos de saque e pilhagem, mas é importante que tenha uma equipa económica que dê garantias de sucesso a breve trecho e é isso que não está a acontecer", disse.

Rafael Marques denuncia uma política de "muitos ziguezagues" com uma "equipa económica incompetente".

"Tem à sua volta muitos indivíduos incompetentes e que não vão ajudá-lo. As vezes até parece que estão a sabotar a sua própria agenda. (...) É muito difícil esperar que pessoas com um alto nível de incompetência e pouca vontade de fazer andar o país, de responder aos problemas e de ouvir os cidadãos, consigam no espaço de cinco ou 10 anos alterar seja o que for", sustentou.

"Se o Presidente não mudar esta equipa económica, pouco ou nada poderá fazer", disse.

Para Rafael Marques, o sucesso de João Lourenço dependera da sua capacidade de regenerar a economia e garantir que haja de facto um clima melhor de investimento para se criarem empregos.

"Há um desespero muito grande sobretudo ao nível da juventude porque há mais empresas a fecharem, mais pessoas a serem despedidas e isso também é um estímulo ao aumento da criminalidade", alertou.

O jornalista considerou, por outro lado, que se começa a verificar "uma tendência", por parte dos grupos que veem os seus interesses ameaçados, de responsabilizar João Lourenço por tudo o que está a correr mal.

Sustentou, por isso, que o chefe de Estado devia ter feito, no início, do mandato uma "avaliação do estado em que encontrou o país para saber onde começariam as suas responsabilidades".

Marques assinala que continua a haver dirigentes públicos que são simultaneamente empresários e cujas empresas monopolizam os contratos públicos, adiantando que as pessoas começam a questionar se esta é a forma correta de combater a corrupção.

"Os dirigentes políticos, que devem ter um papel de isenção e estimular a concorrência como reguladores, são eles próprios concorrentes e ganham os concursos todos em que participam", disse.

"O grande capital está nas mãos de indivíduos que começam a fazer oposição e sombra a João Lourenço. É a primeira vez que acontece em Angola. Antes era o poder de José Eduardo dos Santos que, através dos seus títeres, controlava a economia. Os principais dirigentes eram os principais empresários do país, hoje alguns destes pseudo-empresários são a grande força de oposição às políticas de João Lourenço porque são os que têm mais a perder", acrescentou.

Por isso, defendeu, o Presidente "tem de ser mais enérgico no combate aos oligopólios que se criaram no país".

Rafael Marques antevê um próximo ano "muito difícil" para João Lourenço, "com mais problemas económicos, mais fome e mais desespero".

"Temos de ter um Presidente com uma capacidade maior de liderança e diálogo com os vários setores da sociedade para se encontrarem soluções conjuntas, mas, para isso, é necessário um Governo que possa pôr em prática essa sua visão e boa vontade de mudar o país", reforçou.

Para o ativista, João Lourenço tem de fazer uma escolha entre o seu partido, o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) e o país.

"Começa a haver uma questão de incompatibilidade entre os interesses instalados no seu partido - a organização que praticamente pilhou o país - e os interesses nacionais. A escolha tem de ser clara. Se escolher o MPLA, dificilmente conseguirá fazer história e alterar o quadro político e económico para que os angolanos possam augurar um futuro melhor", concluiu.

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