Quinta, 06 de Outubro de 2022
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Quinta, 18 Agosto 2022 17:57

Eleições 2022: Debaixo dos chapéus de sol do MPLA, há quem vote UNITA

O vermelho e negro emoldura as paisagens dos bairros de Luanda a poucos dias das eleições, mas a vontade de muitos eleitores parece ser de mudança, desconfiados da transparência do processo eleitoral de 24 de agosto.

“Esta sombrinha não é minha. Eu quero a mudança, não isto. Mas é um bom chapéu porque faz sombra, ao menos serve para isso”. Debaixo de um chapéu de sol com a foto de João Lourenço, Presidente e recandidato ao cargo pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), Isabel António braseia e vende pele de porco junto ao mercado da Praça das Mulheres, no Cazenga, um dos municípios mais populosos da Grande Luanda.

De lenço garrido na cabeça, Isabel António diz que vota "três", o número da União para a Independência Total de Angola (UNITA), liderada por Adalberto da Costa Júnior.

Do outro lado da avenida cheia de carros multicolores e bancas que vendem de tudo, dezenas de chapéus de sol com as cores do MPLA dominam o panorama. Benedita vende “ouro falso”, anéis de latão e bijuteria vária. “Quero a mudança. Temos de mudar. Vemos os outros países a melhorar e nós sempre na mesma”, desabafa, tímida e de voz sumida porque "há quem oiça o que as pessoas dizem".

Mostra, discreta, o sinal dos três dedos e diz que já sabe onde vai votar. Quanto ao chapéu de sol vermelho e com o símbolo do MPLA, onde se lê “Paz e Desenvolvimento”, Benedita encolhe os ombros. “É apenas uma sombrinha. Troco já pela vitória da mudança”.

Rui usa um chapéu da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), com a figura do seu líder - Nimi a Simbi - e diz à Lusa que não quer falar sobre política. Mas o chapéu na cabeça, e não o de sol, denuncia o seu voto.

“Vou votar aqui. É o partido dos meus pais, dos meus avós. Com o voto não o vamos deixar morrer”, diz, numa referência ao histórico movimento de Holden Roberto.

Rui não quer discutir política mas lá foi dizendo que o MPLA “vai ter um mau resultado”, porque o povo “não está contente e está cansado”.

A UNITA tem crescido na periferia de Luanda e hoje o secretário provincial do partido está otimista num bom resultado e, mais do que isso, na capacidade de fiscalizar os votos.

“Vamos contar, assinar as atas e controlar o processo. Já sabemos os truques e estamos preparados para fiscalizar e denunciar”, diz à Lusa Nelito Ekuikui, que acusa a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) de querer afastar os eleitores das urnas.

“Andam a mudar assembleias de voto de sítio, a dois quilómetros de distância”, explica, apontando para um caso a poucos metros da sede da UNITA no Cazenga.

Para o dirigente da UNITA, o MPLA “perdeu muita expressão em Luanda” e “não houve um trabalho de mobilização” por parte do partido governamental.

Por outro lado, diz Nelito Ekuikui, Luanda “é uma das províncias em que mais despertou uma consciência cívica” e, hoje em dia, “o cidadão angolano sente que o processo eleitoral lhe pertence” e “exige eleições transparentes e justas”.

A lista da UNITA é também mais abrangente, com a integração em lugares de destaque de Abel Chivukuvuku, ex-fundador da CASA-CE (Convergência Ampla de Salvação de Angola - Coligação Eleitoral) e de elementos associados ao Bloco Democrático.

“Hoje a UNITA é mais do que era, é mais ampla”, afirma Nelito Ekuikui, que, no entanto, recusa que o seu partido seja destino apenas do voto de protesto contra a liderança de João Lourenço.

“Reduzir a UNITA ao voto de protesto ou antissistema era assumir que a UNITA não fez o seu trabalho. Mas fizemos, mobilizámos as pessoas, e fizemos muito trabalho político”, explica Nelito Ekuikui.

Mas nas ruas do Cazenga, o voto na UNITA confunde-se com o desejo de mudar. “Mudança. Quero mudança”, diz Rute, que trabalha todos os dias no mercado e vem do Cacuaco.

“Todos queremos mudar, mas todos temos medo depois”, diz a vendedora, que não confia em quem vai contar os votos. Porque "já sabemos o resultado”, desabafa, resignada.

Mas, apesar disso, Rute insiste que vai votar a 24 de agosto. “Não posso ficar quieta, sei que vão enganar, mas eu vou votar. Isto é democracia”.

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