Terça, 24 de Mai de 2022
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Sexta, 29 Abril 2022 00:10

João Lourenço demarca-se dos passivos do regime

Está no ar e vai já em velocidade de cruzeiro uma campanha, alegadamente patriótica, que pretende a todo custo passar ao eleitorado a ideia de que o actual Presidente da República e líder do MPLA nada teve a ver com os erros de governação do passado.

Por Severino Carlos

Não me parece que esta desabrida fuga para a frente vá beneficiar grande coisa o Presidente João Lourenço.

As pessoas conhecem, e por isso não adianta esconder, os vários papéis de alta visibilidade e responsabilidade pública que ele desempenhou durante o regime político e governativo de José Eduardo dos Santos (JES). 

João Lourenço não pode "apagar" que foi secretário-geral do MPLA e, ainda por cima, à semelhança do que acontece hoje como Presidente da República, foi projectado no cargo pelo próprio chefe do regime, JES.

João Lourenço não tem como negar que foi durante muitos anos -- mesmo quando fez a travessia do deserto devido a desinteligências com JES, que ele mesmo no fundo foi quem semeou em virtude, se quisermos, de alguma falta de tacto na gestão das suas ambições de poder -- um dos vice-presidentes da Assembleia Nacional. Não foi um cargo qualquer; é no parlamento que se têm jogado as cartadas legislativas que favorecem o partido no poder.

E, por fim, foi por escolha de JES que João Lourenço foi ministro da Defesa. Outro cargo governativo de grande relevância na hierarquia política do regime e do país, pelo qual, aliás, passam muitas das suspeitas de que tenha sido o mealheiro que lhe garantiu alguma fortuna pessoal, nem sempre de forma legal e irrepreensível.

Portanto, nessas posições políticas e cargos governamentais, João Lourenço foi também cúmplice do regime que (des)governou o país. E nessa condição deve também colher o ónus e não apenas os louros.

Assim, ficar-lhe-ia melhor uma postura de assunção honesta de responsabilidade, caminho que ele de certo modo vinha trilhando com um discurso apropriado e transparente durante os primeiros tempos do seu mandato presidencial. E foi mesmo graças a essa atitude que nessa fase ele terá caído  relativamente no goto da sociedade, rendendo-lhe algum ganho de popularidade.

De modo que estar agora a renegar todo o passivo do passado se revela contraproducente e apenas fará com que o eleitorado o olhe com fortes reservas, conforme já está a acontecer.

Não é honesta a postura política ambivalente que João Lourenço adoptou nos últimos tempos. Aterrou nas províncias de Cabinda e do Cunene na qualidade de Chefe de Estado e, ainda no terreno, sem mesmo despir-se da roupa que trazia,  metamorfoseou-se em cabo eleitoral a fazer campanha pelo seu partido.

Estas atitudes estão a cair mal na sociedade. O Presidente da República e líder do MPLA não pode continuar a tomar os eleitores e cidadãos como os mesmos tansos e pacóvios do passado. Os angolanos evoluíram.

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