Quinta, 02 de Dezembro de 2021
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Segunda, 25 Outubro 2021 23:54

Encomendaram o caixão para Adalberto?

“Quis o destino que a Pátria o chamasse pela segunda vez a desempenhar o mesmo cargo, facto que não é comum e por essa razão gostaria de aproveitar esta oportunidade para felicitá-lo. Não sendo novo, conhecemos as suas qualidades, pois foi durante algum tempo colega no Conselho da República. Portanto, sabemos o que esperamos de si enquanto, mais uma vez, conselheiro do Presidente da República. Espero que desta vez venha para ficar”. 

Por Ramiro Aleixo

Este, o extrato do improviso feito pelo presidente da República João Lourenço, no acto de empossamento de Isaías Samakuva no retorno a membro do Conselho da República, cuja sessão parece ter sido convocada com o propósito de exibi-lo como uma peça de caça. Sim! Peça de caça porque não passa pela cabeça seja de quem for em estado de lucidez, que o Presidente da República esteja tão “distraído” em relação ao que se passa na UNITA, e que não tenha percebido que o próprio Isaías Samakuva não quer ser presidente dessa formação, mas apenas e só, um gestor “judiciário” imposto pelas circunstâncias, que tem mandato por pouco mais de 45 dias.

Alterar esse quadro seria assinar o seu próprio suicídio e passado relevante no seio desse partido. Ora, esperando que esse regresso de Samakuva seja “para ficar”, o presidente, nas entrelinhas, deu conta pública que está engendrada mais uma jogada para atingir Adalberto da Costa Júnior, depois da constatação de que, o Acórdão 700 do Tribunal Constitucional, não passa de um obstáculo que a UNITA, com muita elegância, está a ultrapassar, recolocando o presidente deposto de novo na linha da frente da disputa eleitoral na liderança do país, contra João Lourenço.

Desse discurso, pode-se aferir que João Lourenço não engole Adalberto nem com molho de Ketchup, e não se coíbe em demonstrar a sua preferência de relacionar-se com Samakuva, provavelmente pela forma cordata que caracteriza essa figura.

Mas, essa preferência é sua, como presidente da República e presidente do MPLA, que não significa que seja recíproca, mas apenas de respeito. Não é de certeza, dos milhares de militantes e simpatizantes da UNITA e não só, porque para além destes, há muitos outros milhares que se reveem em ADJ e têm-no como um grande activo no processo que pode conduzir, finalmente, a alternância do poder. E sejamos claros: nunca o MPLA (ou a sua governação) sentiram tanta pressão, para a qual tem contribuído os avanços e recuos de decisões desastrosas que têm rebentado com a estabilidade económica, social e de harmonização do país. Nem mesmo tendo toda a comunicação social pública a fazer a sua campanha antecipada, o “Só vai assustar já está” ou o “Contigo é possível”, pode ter efeito boomerang. Imagine-se por exemplo, se à boca da urna, cada eleitor (e serão maioritariamente jovens) muitos dos quais afectos ao MPLA, concluir que, quem não conseguiu resolver, ou melhor, quem é o culpado das desgraças que se abateram sobre o país em 46 anos, precisa de mais cinco para fazer o quê? E aqui está a questão de fundo: chama-se “medo de perder o poder”, mesmo, como se vê, fazendo pouco para merecê-lo. E só pensar nisso, alguém deve estar a sentir um frio terrível na coluna.

Outra conclusão a que se pode chegar, e esta não é novidade, é que o presidente João Lourenço tem uma postura de estadista que deixa muito a desejar. Não acredito que José Eduardo dos Santos, num caso semelhante, pronunciasse esse discurso. Habituou-nos a atitudes mais polidas. Já João Lourenço, não sendo propriamente um estadista mal-educado, passa a Nação e ao Mundo uma imagem truculenta, que, infelizmente, agrada a sua legião de jovens bajuladores, muitos dos quais, é só os ver nas exibições televisivas, não só seguem o chefe nesse domínio, como em muitos casos, superam-no em matéria de arrogância. Se o chefe diz ‘matem’ o gajo (no sentido figurado é claro) porque quem manda sou eu e apenas eu faço as “jogadas”, eles acrescentam: “vamos matar sim, mas, primeiro, vamos esfolar”.

Concluindo: se alguém ainda tinha dúvidas de que o Acórdão 700 não tem a mão do presidente João Lourenço, ele próprio acabou por dissipá-las. E se ainda assim persistirem as dúvidas, as cenas dos próximos capítulos podem ditar, em definitivo, o “assassinato” político de Adalberto da Costa Júnior. O que falta agora, como tem sido prática, é as instituições do Estado que funcionam a reboque das orientações do chefe, fazerem a devida interpretação da sua mensagem que é claríssima: “Espero que, desta vez (Isaías Samakuva) venha para ficar! Pode ver-se que não se tratou só de uma mensagem sedutora ao gestor da UNITA (Isaías Samakuva). É, no fundo, uma orientação e um desejo bem expresso: “Não quero aqui aquele tipo do Adalberto”. E falou, está falado!

Como é o presidente quem no fundo comanda toda a orquestra da comunicação social pública, está-se já a ver o filme que durante meses dominará a nossa actualidade. Não retratará a fome, o desemprego, o lixo, a falta de medicamentos. Será sobre os apoiantes de Adalberto que saírem à rua para provocar arruaças, e que a Polícia Nacional terá toda a legitimidade para não distribuir “chocolates e rebuçados”. Até nisso, na necessidade de se preservar a harmonia nacional, o presidente da República, não foi cauteloso.

Como tenho afirmado, este poder não gastou 40 milhões de dólares em tempo de crise para construir e equipar uma Comissão Nacional Eleitoral, para depois perder as eleições. É para se eternizar no poder!

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