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Sábado, 18 Março 2023 13:04

Repressão policial prova que Constituição não funciona em Moçambique – ativista

Os organizadores da marcha pacífica em homenagem ao ‘rapper’ Azagaia, hoje reprimida pela polícia moçambicana com gás lacrimogéneo, em Maputo, dizem que a ação das autoridades é prova de que a Constituição não funciona no país.

Quitéria Guirrengane, ativista e uma das organizadoras da marcha, disse à Lusa que quando os polícias chegaram ao local de início da marcha, disseram saber que a ação era legal, “mas tinham ordens superiores” para a impedir.

“Aqueles que deram as ordens superiores são os que não dão a cara, que dizem que nos dão despacho positivo, mas, por detrás, dizem à polícia: ‘agora vão chutar aquela gente’”, referiu, concluindo: “Esta é a prova inequívoca de que na República de Moçambique a Constituição não funciona”.

O país “funciona na base de ordens superiores, daqueles que estão nos seus gabinetes e têm medo da mensagem de Azagaia”.

Foi a segunda vez em cinco dias que a polícia usou gás lacrimogéneo para dispersas população, depois da na terça-feira ter bloqueado o cortejo fúnebre do ‘rapper’ do povo.

O funeral foi a maior concentração no país dos últimos anos, com palavras de ordem contra a governação, inspiradas nas letras de Azagaia.

Quitéria Guirrengane considerou que a marcha seria “uma ação de homenagem pacífica e simpática”, impedida por “um Estado de vergonha absoluta” – depois de a organização ter seguido a lei e dialogado com o município na preparação do evento.

“Era desnecessário ter esta polícia de intervenção rápida”, destacou, sobre a carga com gás lacrimogéneo de hoje de manhã – e que acabou por atingir a circulação automóvel e transeuntes no centro da cidade.

“Depois vão dizer que nós é que incitámos à violência”, assinalou, considerando que é a repressão policial que “vai incitar os jovens que partem edifícios”.

“Porque os jovens não querem fazer coisas de mal, mas depois não lhes permitem. O que resta? Não resta mais nada”, sublinhou.

“Se uma pessoa estivesse bem na cadeira onde está, não teria medo do povo”, referiu, numa alusão aos governantes moçambicanos.

Quitéria Guirrengane considerou que em Moçambique vive-se “num Estado capturado, em que há pessoas que pensam que a República lhes pertence”.

A ativista recomendou aos participantes que, por uma questão de segurança, se dispersem.

“Nós, como quem convidou, não podemos sair daqui sem prestar contas às pessoas” e “os nossos advogados também estão a caminho”, concluiu.

“Presidente, responda-nos: somos criminosos? Somos insurgentes? Porque é que estamos a ser atacados”, questionou uma mulher numa das ruas da capital, durante a intervenção policial, e em direto numa televisão local, dirigindo-se diretamente a Filipe Nyusi.

“Eu não tenho arma”, referiu, de mãos no ar, sublinhando o “direito à manifestação”.

Noutro ponto do centro da cidade, a polícia atirava gás lacrimogéneo contra os participantes na marcha – que nem chegou a começar – sob o olhar incrédulo de Inocêncio Manhique, jovem de 24 anos, um dos integrantes.

“O que está a acontecer é uma barbárie. É o neocolonialismo, é a falta de respeito que os nossos governantes têm [para com o povo], os de lá de cima: estamos a falar de Nyusi e os demais”, disse.

Mesmo face à ação da polícia, referiu: “Não havemos de parar”.

“Querem-me matar à bala? Eu já morro de fome. Uma bala vai-me matar em menos de 30 segundos, mas a fome mata-me todos os dias, desgraça-me a mente”, destacou.

Sete é o nome artístico de um músico que ia participar na marcha e que agora é mais um dos “indignados” com a ação da polícia.

“Somos o povo que deve ser ouvido. A marcha era a forma de nos escutarem, mas parece que nem a isso temos direito. Não temos livre expressão”, destacou.

“Só podemos continuar a marchar e ver onde vamos chegar, não podemos parar, temos de tentar mobilizar ouros jovens”, acrescentou.

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