Quarta, 27 de Mai de 2020
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Quarta, 20 Mai 2020 14:56

João Lourenço, o gigante, tem medo do Abel?

Durante os primeiros 12 meses do seu mandato, João Lourenço conseguiu convencer milhões de Angolanos de que a má governação, baseada na corrupção, no saque desbragado, na lavagem de dinheiro e noutros males, chegara ao fim com a saída de José Eduardo dos Santos, o Homo Corruptus.

Sobreveio a milhões de Angolanos e Angolanas a imagem de um país que – além de livre das perversas práticas predatórias que levaram Angola ao marasmo – em tempo útil estaria livre da partidarização das suas instituições e da privatização do Estado.

Transcorridos pouco mais de 2 anos, a realidade crua e nua revela um país que continua subjugado aos desígnios de um partido que o domina há longos 44 anos. E, se nada for feito para ser travado, acabará por completar 50 anos no poder (em 2025).

O regime deu sinais claros que mostram e demonstram que o projecto de poder do MPLA é mais importante que o projecto de sociedade.

Todo aquele discurso reformista transmitido através da boca do seu então candidato a Presidente da República tem-se relevado um conto do vigário. «Corrigir o que está mal e melhorar o que está bem» tem sido um logro.

Através de uma governação marcada por actos e discursos políticos espectaculares, João Lourenço conseguiu – em um ano – reverter toda a psicologia de descrença e revolta contra o MPLA que caracterizava a atitude da vasta maioria dos Angolanos. Os cidadãos passaram a acreditar em João Lourenço.

Entretanto, enquanto conseguiu manter grande parte do Povo na ilusão de reforma, o Partido-estado pôs em marcha uma série de medidas estratégicas que acabaram por revelar que o que o MPLA tem feito é, na realidade, melhorar a sua máquina de manutenção do poder, visando continuar no poder nos próximos anos e décadas independentemente das condições socioeconómicas e da vontade política dos cidadãos. O que isto quer dizer?

O MPLA, o partido que sustenta o regime, sabe perfeitamente que a crise económico-financeira (que vem de 2014), a multiplicação da pobreza e da miséria, os escândalos de corrupção e malversação do seu Governo, dentre outros problemas, constituem os grandes inimigos de João Lourenço no esforço da manutenção do poder. Além das condições conjunturais, outros grandes obstáculos ao MPLA e ao seu presidente residem essencialmente nos grandes adversários políticos. Um deles é Abel Chivukuvuku. Em condições normais, essa figura, com a máquina apropriada, derrotaria João Lourenço em eleições. Então, visando garantir o seu projecto de poder a todo o custo, o regime recorreu aos seguintes estratagemas:

1 - ESTRATAGEMAS DE INTERVENÇÃO SOCIAL: são linhas de intervenção que visam, a curto e médio prazos, melhorar a imagem do MPLA junto das insatisfeitas populações dos 164 municípios do País através de projectos de construção e requalificação de infraestruturas municipais em sede do PIIM (Programa Integrado de Intervenção nos Municípios). Cada obra deve(rá) ser publicitada de forma pravdesca para reverter a repulsa das populações, principalmente em municípios onde a maioria dos eleitores não tem simpatias pelo Partido-estado. Desta forma, acredita o MPLA, as eleições autárquicas são favas contadas, ou seja, serão facilmente ganhas por si.

2 - ESTRATAGEMAS DE DILAÇÃO: o ano 2020 foi apontado por João Lourenço como aquele em que as eleições autárquicas teriam lugar. Sim, teriam, pois, independentemente da actual conjuntura do Coronavíruas/Covid-19, estava visto, ainda em 2019, que as referidas eleições não seriam realizadas em 2020. O atraso no processo de elaboração, discussão e aprovação do pacote legislativo autárquico e o aumento de tarefas no referido processo fazem parte de manobras dilatórias, enquadradas em estratagemas de dilação, que dão tempo ao MPLA para realizar projectos que visam assegurar a agenda de manter-se no poder. O PIIM acaba por ser também um estratagema de dilação.

3 - ESTRATAGEMAS DE CONTROLO POLÍTICO-JUDICIAL: em finais de 2017, João Lourenço exonerou Manuel Aragão do cargo de Juiz Presidente do Tribunal Supremo e, a seguir, o nomeou para exercer o cargo de Juiz Conselheiro Presidente do Tribunal Constitucional (TC). O objectivo era evidente: Manuel Aragão iria usar o cargo e, como tal, o TC para fazer controlo e bloqueio político de (eventuais) processos de reconhecimento de projectos político-partidários. Por outro lado, a nomeação e tomada de posse de Júlia Ferreira (ex-porta-voz da Comissão Nacional Eleitoral, CNE) como juíza conselheira não foi mera coincidência. A senhora desempenhou um papel fundamental na fraude eleitoral de 2017 e, ademais, era conveniente que fosse colocada no TC, o tribunal que trata dos processos eleitorais, a par dos processos partidários.

4 - ESTRATAGEMA DE CONTROLO DA ADMINISTRAÇÃO ELEITORAL: em Fevereiro de 2020, Manuel Pereira da Silva (ex-presidente da Comissão Eleitoral de Luanda, CPEL) tomou posse como presidente da CNE. Trata-se de uma figura tóxica que, além do histórico de gestão danosa na CPEL, foi também um dos artífices na implementação da fraude eleitoral de 2017.

5 - ESTRATAGEMAS DE BLOQUEIO DE ADVERSÁRIOS: depois da CASA-CE, que presidiu por 7 anos, Abel Chivukuvuku idealizou um novo e original projecto político-partidário, com uma denominação genial: Partido do Renascimento Angola – Juntos por Angola (PRA-JA). Apesar de reunir mais do que os requisitos necessários, o projecto foi arbitrariamente indeferido por Manuel Aragão. Na verdade, o caso do chumbo do PRA-JA foi e é tão escandaloso e vergonhoso, que a onda de desaprovação dos cidadãos levou o próprio Presidente da República manifestar-se incomodado. A descrença no TC foi reforçada.

João Lourenço sabe perfeitamente do que se passa: o seu MPLA está a usar o TC para bloquear adversários políticos. O objectivo é impedir que políticos com pergaminhos não tenham a possibilidade de concorrer às eleições de 2022, excepto aqueles que não representam ameaça. Bloquear Abel Chivuvkuvuku é o principal objectivo.

Ao longo das décadas, o MPLA tem-se apresentado como um «partido glorioso e vencedor» e que está «no coração dos Angolanos.» É o partido que se autodefiniu como sendo o próprio Povo Angolano. «O MPLA é o Povo e o Povo é o MPLA», dizia o lema, levando à inferência de que é um gigante imbatível.

Ora, se o MPLA é um partido de milhões e contra o qual ninguém pode, por que usa o TC para bloquear Abel Chivukuvuku? Se João Lourenço é o poderoso reformador de Angola, como se explica este medo pela figura do Abel Chivukuvuku? O MPLA, um partido gigante, tem medo de um embrião, ou seja, um partido que nem existe ainda (PRA-JA)?

A resposta é clara: o MPLA é derrotável. João Lourenço é derrotável. O regime está fragilizado.

João Lourenço sabe que as eleições de 2022 não serão favas contadas. E, para não enfrentar grandes adversários, a máquina que preside recorreu ao TC para bloqueá-los, com particular incidência para Abel Chivukuvuku.

A jogada é completa: enganar os cidadãos com uma falsa governação da reforma; preparar as instituições de administração eleitoral para realizarem a fraude em 2022 (e no ano das eleições autárquicas) e bloquear adversários através do TC.

Manter o poder a todo o custo. Este é o grande propósito do MPLA de João Lourenço.

João Lourenço é o gigante que tem medo de Abel Chivukuvuku. Tem medo, porque é um gigante de barro. Sabe que, com jogo limpo, seria derrotado.

Por Nuno Álvaro Dala

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