Sábado, 19 de Outubro de 2019
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Quarta, 09 Outubro 2019 12:14

Samakuva manteve mistério para descobrir o "João Lourenço" da UNITA

Isaías Samakuva, à espera de entregar o testemunho ao terceiro presidente da UNITA, chamou ontem, 8, a imprensa com um rosto carregado de mágoas pelo comportamento de jornalistas que fizeram várias notícias e até opiniões a darem conta de que não era um político sério, com falsos argumentos que apontavam que pretendia candidatar-se.

Estive a ler o seu discurso que está a circular nas redes sociais e acho que, de facto, o político tem razão no que aponta.

Samakuva descreveu, cronologicamente, as vezes que disse publicamente que pretendia abandonar a Presidência da UNITA e as razões que concorreram para que ele recuasse.

Sou - mesmo que me chamem de "egocentrista" - dos jornalistas que sempre escreveram a dar crédito, nos últimos tempos, à sua última palavra, não pela sua "palavra de honra", pois não o conheço bem, mas pelos factos políticos. Havia fortes indicadores que me mostravam que Samakuva não iria avançar contra todas as acusações se que fui alvo nas redes sociais. Felizmente, o tempo mostra quem de facto faz análises mais próximas da verdade. E ainda bem que os meus artigos estão publicados com datas.

Qualquer bom analista percebeu que Samakuva esteve no silêncio nos últimos tempos - neste quesito de se sai mesmo ou se fica - para também ver quem eram de facto os seus possíveis sucessores, na UNITA, com coragem de mostrar a sua intenção de se candidatar, mesmo que o "líder" entendesse voltar a candidatar-se. E todo o mundo na UNITA sabe que se Samakuva entendesse candidatar-se ganharia seguramente. É o mesmo fenómeno que acontece noutros partidos angolanos.

Na verdade, Isaías Samakuva fez uma jogada de mestre: queria ver quem eram os "candidatos naturais". Os nossos líderes de partidos políticos ficam muito preocupados com a passagem de testemunho. A transição é sempre um motivo de muita incógnitas nos nossos partidos políticos. Os líderes, muitas vezes, voltam à primeira forma quando percebem que ainda não há "boas ousadias" para a sua sucessão.

É só ver, se recuarmos a história, quantas vezes José Eduardo dos Santos disse que abandonaria a Presidência da República e do MPLA, mas não o chegou a fazer, com excepção da última vez em que os próprios militantes do MPLA ganharam coragem para dizer que o candidato natural era João Lourenço. Antes disso, nenhum deles ousava "afrontar" o chefe. Pelo contrário, até organizavam passeatas, em todo o país, para endeudar o líder.

José Eduardo dos Santos também recuou várias vezes. Também faltou à sua palavra e, no entanto, não foi tão fustigado pela imprensa. Por que, com Samakuva, a nossa imprensa - inclusive o Jornal de Angola que chegou mesmo a fazer "fake news" no dia 23 de Julho com uma manchete "Samakuva é candidato à presidência da UNITA" - teve este comportamento?

Porque a nossa imprensa, de uma forma geral, também não é ousada. Ainda pecamos muito profissionalmente, salvo raras excepções. Ainda temos uma imprensa pública que depende muito das "ordens superiores". E 9 Jornal de Angola provou que não tem uma gestão credível. Nenhum jornal sério, no mundo, põe, na página principal, em letras garrafais, uma "falsa notícia". Isto diz tudo sobre a credibilidade da editoria de Política do Jornal de Angola. Aliás, já tinha alertado sobre as tendências do passado que ainda existiam no Jornal de Angola. Hoje ficou provado que não falamos à toa.

Quando o Jornal de Angola veio dizer que "estava desfeito o mistério" sobre se Samakuva avançaria ou não, alegando ter recebido informações credíveis de uma fonte dentro da UNITA que Samakuva iria voltar a candidatar-se, eu percebi logo que era "fake news". E percebi por que Samakuva não usou o Direito de Resposta e de Rectificação a que tem direito por lei.

Na verdade, Samakuva pretendia alimentar tal mistério para ver quem seria o "João Lourenço" da UNITA. E o "João Lourenço" da UNITA apareceu. Foi ele o primeiro a dizer que iria candidatar-te, já tendo perdido em 2011, mesmo que Isaías Samakuva decidisse continuar. Ele chama-se Estêvão José Pedro Kachiungo. Foi o Kachiungo o primeiro a dizer que tinha um projecto de continuidade, mas com novos horizontes. E disse-o sem rodeios. Todos os outros que também pretendiam candidatar-se não quiseram manifestar-se enquanto Samakuva não dissesse nada, pois não queriam perder. Não foram ousados. Todos sabem que se o líder avançasse não seria derrotado nas urnas, pois os nossos militantes ainda não têm a cultura de derrotar um líder nas urnas.

Só quando os outros viram que Samakuva não estava a recolher assinaturas é que também começaram a aparecer. Foi assim que depois surge a intenção de Abílio Kamalata Numa, a de Adalberto Costa Júnior, a de Raúl Danda, a de Lukamba Gato, a de Alcides Sakala e a de Liberty Chiyaka. Gato e Chiyaka preferiram, no entanto, recuar para apoiar outros candidatos.

Noutros artigos, mostrei que os nossos líderes muitas vezes dizem que vão sair para medir pulsações. Tivemos há dias um caso similar com o Bloco Democrático (BD) com o presidente Justino Pinto de Andrade. Também anunciou que sairia da Presidência do BD, mas acabou por ficar até ao término do mandato por decisão dos seus companheiros. Não deixou de medir pulsação interna.

Samakuva tem razão de ficar zangado com a imprensa, pois não é o único que procedeu desse jeito e, no entanto, não vemos o mesmo Jornal de Angola e outros órgãos de imprensa a fazer "fake news" com outros presidentes que também recuaram por decisão dos seus companheiros. Não podemos ter aqui dois pesos e duas medidas. A imprensa deve ter o mesmo comportamento com todos. É o que manda a Lei de Imprensa.

Portanto, acho bem que Samakuva esteja zangado com a imprensa, de uma forma geral, que o difamaram, salvo excepções, por ter tido uma estratégia de silêncio, cujo resultado já tinha percebido.

Cada líder tem a sua estratégia política, embora ache ser preciso que os nossos políticos não devam prometer o que eles sabem que podem não cumprir. Mas são as "manobras" da política.

Penso que Samakuva pretendia, com o seu silêncio, descobrir quem era o João Lourenço da UNITA (o ousado e persistente, com capacidade para afrontar o líder) para o substituir. E penso, por isso, para além de outros aspectos que já avancei noutros artigos sobre a irreverência, determinação, coragem e trabalho nas bases, no silêncio, de Estêvão José Pedro Kachiungo, que temos o "João Lourenço" da UNITA.

Só acho estranho que a nossa imprensa não esteja atenta a sinais políticos que apontam que Isaías Samakuva merece os nossos aplausos por ter cumprido a sua última palavra quando podia ficar eternamente como presidente da UNITA, de acordo com os estatutos da UNITA. Isto merece reconhecimento de todos os angolanos, de Cabinda ao Cunene. É um progresso.

E teve capacidade de sofrimento quando todos o acusavam de pretender ficar mais como presidente, mesmo com "vontades maioritárias" dentro do seu partido que já faziam fortes campanhas nas redes sociais para a sua permanência. José Eduardo dos Santos não recuou quando notou muito apoio dentro do MPLA. Samakuva mostra aqui que é um político que deve ser estudado. É um político que ganhou o meu respeito. Felicito-o pela coerência e determinação, mesmo contra forças internas.

Por: Carlos Alberto (Cidadão e Jornalista)

Por Líderes Coerentes

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