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Quinta, 10 Novembro 2022 13:31

Kwanza está a desvalorizar em queda livre desde as eleições

Especialistas são unânimes em afirmar que o Executivo forçou a apreciação do Kwanza em tempos pré-eleitorais. Os benefícios passaram por baixar preços e exacerbar os resultados de políticas que permitiram ao país uma redução substancial do seu rácio da dívida sobre o PIB.

Após as eleições gerais, o Kwanza inverteu a tendência de apreciação, em que recuperou 29% face ao dólar e 47% face ao euro desde o início de 2022, tendo depreciado desde Agosto 12% face a estas duas moedas estrangeiras, com os especialistas a considerar que o mercado se está agora a ajustar à taxa de câmbio real depois de esta ter sido influenciada no período pré-eleitoral.

A política cambial iniciada em 2018, que visava a flexibilização da moeda, teve como principal consequência a depreciação do Kwanza face ao dólar e ao euro, uma tendência que durou até meados de 2021, período em que, com as eleições à porta, se começou a assistir à valorização da moeda nacional, como consequência da subida dos preços do petróleo nos mercados internacionais, o que permitiu ao Tesouro a captação de mais receitas em moeda norte-americana.

Com a subida das receitas fiscais, o mercado cambial foi "inundado" de moeda estrangeira, o que foi fundamental para valorizar o Kwanza e permitir o aumento das importações com vista a travar a subida dos preços no país. "O mercado é muito curto em Angola e a verdade é que o Estado é o maior detentor de dólares no País, fruto das receitas fiscais petrolíferas, pelo que qualquer intervenção feita pelo Tesouro acaba por ter efeito directo na taxa de câmbio. Tratou-se, pois, de uma valorização do Kwanza conduzida pelo Executivo em ano eleitoral, não só para baixar a inflação, mas também por uma questão cultural, já que o angolano acha que a taxa de câmbio está boa é quando o Kwanza está valorizado", admitiu ao Expansão um economista especialista em política monetária.

Acabou por dar algum jeito também a apreciação do Kwanza para o cálculo do rácio da dívida pública, já que quanto mais a moeda nacional estiver valorizada, maior é o PIB nominal, pelo que, desta forma, segundo cálculos do Expansão, este rácio rondava os 60% do PIB no primeiro semestre deste ano, o que já não acontecia desde 2015, tendo inclusive chegado a bater o recorde de 135,1% do PIB em 2020. Agora, a manter-se a depreciação do Kwanza, estes 60% do rácio dívida/PIB dificilmente se manterão até final do ano, já que segundo a Estratégia de Médio Prazo da Dívida 2022-2024, 83,4% da dívida angolana está exposta ao risco cambial.

Com a subida das receitas fiscais, em ano eleitoral assistiu-se a um aumento substancial nas importações (cresceram 52% no I semestre face ao mesmo período de 2021, passando de 5,4 mil milhões USD para 8,2 mil milhões), pondo em causa, até, políticas desenvolvidas pelo Governo com vista ao aumento da produção nacional, tudo com o objectivo, segundo especialistas, de fomentar a queda dos preços e controlar a inflação.

Para o director do Centro de Investigação Económica da Faculdade de Ciências Económicas da Universidade Lusíada de Angola (CINVESTEC), Heitor Carvalho, no período pré-eleitoral em que se verificou uma alta dos preços do petróleo o Executivo acabou por usar as receitas para subsidiar o consumo, baixando os preços dos bens alimentares e também dos produtos intermédios (matérias-primas utilizadas na produção) em vez de se criar reservas, o que potenciou agora um consumo completamente desproporcional à nossa produção de bens finais e uma dependência cada vez maior dos rendimentos do petróleo.

"Quando estes [rendimentos] baixarem entraremos de novo numa longa recessão. Em vez de aprendermos com os erros, repetimos tudo o que não devíamos ter feito de 2012 a 2014", salienta o economista. Heitor Carvalho admite que, face a esta realidade, "caminhamos para a deprecia[1]ção do Kwanza" e agora "já é tarde demais para se constituírem reservas. Vamos viver ao sabor da geopolítica internacional".

Já o economista Wilson Chimoco, que admite que o Banco Nacional de Angola (BNA) até tentou inverter essa tendência de apreciação nos primeiros meses do ano, também com ajustamentos da política cambial, numa actuação que acabou por ser insuficiente para travar a "acção intencional do Tesouro Nacional de apreciação da moeda em virtude do ano eleitoral e da gestão do stock da dívida pública interna indexada à taxa de câmbio".

"As eleições foram fundamentais na apreciação do kwanza, tanto pela via da oferta/importação de mais produtos, assim como na desaceleração da inflação. Contudo, a maior liberalização da saída dos invisíveis correntes e da manutenção da política monetária restritiva, até pelo menos o II Trimestre de 2022, por parte do BNA, associado ao aumento do preço do petróleo, foram os principais determinantes para a apreciação que se assistiu", sublinha.

Assim, Chimoco admite que estão dados todos os sinais para que o Kwanza volte a cair para valores acima dos 600 Kz por dólar nos próximos tempos. "Por um lado, porque ainda não temos uma estrutura de exportações que aguente as necessidades de financiamento externo do País e à medida que o preço do petróleo cair e o serviço da dívida pública externa tornar-se mais regular este facto vai-se agravar. Segundo, porque apenas nestes níveis a produção agrícola e a indústria transformadora ganham competitividade aparente, o que é condição necessária para sustentar as políticas de diversificação da economia e industrialização do País, que são fundamentais para a criação de emprego e redução da pobreza em Angola". Expansão

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