Na sua análise, Jonas Sebastião considera que uma eventual divisão interna no MPLA poderá enfraquecer o partido antes das eleições gerais, criando condições favoráveis para os partidos da oposição.
Segundo o dirigente, o principal objectivo deve ser evitar que a actual crise evolua para episódios de violência, defendendo que o confronto permaneça no plano político e institucional.
"Se o MPLA entrar no processo eleitoral completamente fracturado e fragilizado, isso será uma vantagem para a oposição e para a sociedade civil que deseja a alternância", afirmou.
Jonas Sebastião entende que uma divisão no seio do partido poderá representar uma oportunidade semelhante àquela que, na sua perspectiva, surgiu nas eleições de 2022, considerando que um MPLA dividido poderá enfrentar maiores dificuldades no próximo processo eleitoral.
General Pacas acusa direcção do MPLA de impedir competição interna
Em entrevista ao programa Radar DW, o general na reforma Manuel Mendes da Carvalho, conhecido por "Pacas", classificou a exclusão de Higino Carneiro como uma decisão politicamente motivada.
Na sua intervenção, o antigo dirigente do MPLA defendeu que os estatutos do partido admitem a existência de múltiplas candidaturas e acusou a actual direcção de alterar as regras internas para impedir a realização de uma disputa efectiva pela liderança.
Segundo o general, a candidatura ainda poderá recorrer aos tribunais para contestar a decisão, considerando que existem fundamentos para impugnar o acto praticado pela comissão de candidaturas.
Ao longo da entrevista, Manuel Mendes da Carvalho teceu ainda duras críticas à governação de João Lourenço, acusando o Executivo de má gestão, degradação das condições de vida da população e falta de democracia interna no partido.
"Simulacro de democracia"
A activista e socióloga Luzia Muniz foi directa na avaliação. Para ela, o desfecho era inevitável porque, para ser diferente, teria sido necessário que o MPLA fosse um partido diferente — e não é.
Muniz recorda que sinais de alerta já haviam surgido nas organizações feminina e juvenil do partido, onde processos de aparente abertura interna terminaram sempre com uma candidatura única. O padrão, diz, repetiu-se agora com Higino Carneiro.
"O João Lourenço é árbitro, é jogador, é juiz de linha, é VAR, é dono do campo, dono da bola", afirmou, referindo-se ao controlo que o actual líder exerce sobre as estruturas formalmente encarregadas de supervisionar o processo eleitoral interno.
Na sua leitura, João Lourenço tem plena consciência da sua impopularidade — dentro e fora do partido — e sabe que, em condições de igualdade, perderia para qualquer adversário. Daí, conclui, a necessidade de garantir uma candidatura única ao Congresso.
Higino Carneiro: vítima do sistema que ajudou a construir
Tanto Luzia Muniz como a analista política Joana Sebastião, também ouvida no programa, recusam enquadrar Higino Carneiro como vítima. A narrativa que o apresenta como alguém surpreendido por uma máquina que o traiu não colhe junto de nenhuma das duas.
Joana Sebastião foi incisiva: Higino Carneiro conhece os meandros do partido, participou na construção do sistema que agora o desfavorece e sabe como este funciona. "Está a provar do veneno que ele próprio criou", afirmou.
Luzia Muniz acompanhou a análise, acrescentando que quem verdadeiramente quis mudar o sistema teve sempre a opção de o denunciar e de se afastar. Higino Carneiro nunca o fez. Pelo contrário, foi, nas suas palavras, "um actor da primeira linha da criação desse sistema repressivo e opressivo".
Ambas alertaram ainda para os riscos que o dirigente agora enfrenta. Joana Sebastião evocou o precedente histórico do 27 de Maio de 1977 para apelar aos apoiantes de Carneiro a que não arrastem militantes de base para um confronto que pode ter consequências graves. "Que se degladiem entre si com argumentos, apenas", pediu.
Impacto na oposição e nas próximas eleições
A questão de saber se a oposição pode tirar partido da crise interna do MPLA divide as análises — mas pela razão errada.
Joana Sebastião acredita que um MPLA fracturado e enfraquecido à entrada de um processo eleitoral representa uma oportunidade real para a alternância política. Recorda que em 2022 o partido já deu sinais de erosão, e que as divisões agora visíveis podem aprofundar essa tendência.
Luzia Muniz é mais céptica quanto à capacidade da oposição para capitalizar o momento. A sua dúvida é anterior: questiona mesmo se Angola tem, de facto, uma oposição com peso suficiente para o fazer. Quanto ao MPLA, a sua convicção é que o partido não sairá do poder enquanto mantiver o controlo das instituições do Estado — independentemente da sua imagem pública ou do nível de contestação interna.
Sobre João Lourenço, Muniz considera que a questão de saber se sai reforçado ou fragilizado deste processo é, para o próprio, secundária. "O João Lourenço pensa exclusivamente numa coisa: como é que vou manter-me no poder."

