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Sábado, 25 Março 2023 15:35

Presidente da Fundação 27 de Maio reage a carta dos órfãos das vítimas da purga

Os órfãos das vítimas da purga de 27 de Maio de 1977 em Angola revelaram na quarta-feira que as ossadas que lhes foram entregues como sendo possivelmente dos seus familiares não correspondem aos seus respectivos ADN.

Em reacção, o presidente da Fundação 27 de Maio, entidade que tem trabalhado com o Estado angolano na identificação das vítimas da purga, refere que isto se deve ao facto de os queixosos se terem recusado a disponibilizar o seu material genético às autoridades angolanas.

No âmbito do processo de reconciliação e reabilitação das vítimas da purga do 27 de Maio de 1977, as autoridades angolanas resgataram e mandaram analisar ossadas que se supõem pertencer a algumas das pessoas que foram mortas naquela época, sendo que alguns exames foram efectuados no exterior por iniciativa dos familiares das vítimas congregados na associação M27.

Na passada quarta-feira, numa comunicação intitulada "Carta a Angola", a associação M27 revelou que o ADN das ossadas encontradas não corresponde aos seus familiares e denunciou "uma máquina de propaganda" em torno da entrega de corpos “em cerimónias públicas". Respondendo a esta carta, o general Silva Mateus que dirige a Fundação 27 de Maio refere que esta situação se relaciona com o facto de os interessados recusarem cooperar com as autoridades angolanas e terem, por conseguinte, retirado material genético de amostras não identificadas.

"Depois de ter interagido com as entidades competentes, a situação é a seguinte: o governo angolano não entregou ossadas de José Van Dunem, nem da Sita Valles, nem do Rui Coelho. Também não entregou nenhum resultado de ADN. O que se passa é que essas famílias que estão em Portugal não aceitaram dar as amostras (do seu ADN) para que o governo angolano fizesse a triagem do ADN das ossadas que aqui temos. Eles próprios arranjaram médicos forenses que vieram a Angola e no conjunto das ossadas que aqui estão, presumindo-se que possivelmente estejam ali também (os corpos de) Sita Valles, José Van Dunem e de Rui Coelho, eles próprios tiraram algumas amostras nalgumas ossadas e levaram para Portugal. Lá fizeram triagem, não deu certo, não encontraram coincidência das amostras que eles levaram com as de Sita Valles, José Van Dunem e de Rui Coelho. Sendo assim, o governo não tem qualquer responsabilidade por este teste que eles fizeram porque eles não aceitaram fazer o teste em Angola, nem forneceram os materiais genéticos para que se fizesse aqui a triagem. Nós continuamos a fazer o nosso trabalho. Esperamos que eles agora venham para dar aqui o ADN ou então trabalharem em conjunto aqui em Angola porque essa coisa de levar amostras de ossadas a Portugal, fazer e não dar certo e voltar outra vez, vamos estar num vai e vem e o tempo vai passando", refere o dirigente da Fundação 27 de Maio.

Ao afirmar entender que os familiares pretendam realizar perícias alternativas, o general Silva Mateus considera que há uma tentativa para denegrir o trabalho de identificação que está a ser feito. "Os que fizerem, podem fazer (os testes). Não nos opomos a isso. Até seria de agrado para nós, Fundação 27 de Maio, porque nós somos os mais interessados nessa questão. Há trinta, quarenta anos que nos debatemos sempre à volta das ossadas e da entrega para funerais condignos de forma a sairmos airosos desta situação. Não vamos criar obstáculos para que esse desiderato que é nosso seja concretizado. Só que eles não querem cooperar. Há qualquer coisa para denegrir esse processo", considera o responsável.

"Nós, Fundação 27 de Maio, estamos a criar as condições para o nosso conselho consultivo abordar essas questões todas. Dia 27 de Maio, haverá um conselho consultivo onde vamos pôr a público todas estas questões à volta destas ossadas. As ossadas que o governo angolano divulgou foram do Nito Alves, Jacob Caetano João"Monstro Imortal", o Arsénio Lourenço Mesquita "Sihanouk" e o Ilídio Ramalhete, cujos testes estão ali, foram entregues às famílias. O ministro coordenador (deste processo) disse que podem fazer os testes para ver se é ou não é. Essa questão das ossadas de Sita Valles e de José Van Dunem está agora a criar uma espécie de descrédito às ossadas das pessoas que nós enterramos (...) Quem quiser, não há qualquer problema. A CIVICOP (Comissão de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos) entregou certidões das análises. As ossadas estão enterradas num cemitério. Quem tiver suspeição, arranjem as equipas médicas que quiserem, tiram as ossadas e fazem outro cruzamento. O governo angolano não se opõe a isso", acrescenta o general Silva Mateus.

No ano passado, o governo angolano organizou os funerais do antigo ministro do Interior "Nito Alves", Jacob Caetano João "Monstro Imortal", Arsénio Lourenço Mesquita "Sihanouk" e de Ilídio Ramalhete, vítimas da repressão que se seguiu à suposta tentativa de golpe de 27 de Maio de 1977, acontecimentos durante os quais se calcula que foram mortas 30 mil pessoas.

Estas cerimónias de homenagem aconteceram cerca de um ano depois de o Presidente João Lourenço ter formalmente pedido perdão, em Maio de 2021, pelos acontecimentos de 27 de Maio de 1977.

Em 2019, recorde-se, o executivo angolano ordenou a criação de uma comissão, a CIVICOP, no intuito de elaborar um plano geral de homenagem às vítimas dos conflitos políticos ocorridos entre 11 de Novembro de 1975 e 4 de Abril de 2002, data que marca o fim da guerra civil em Angola. RFI

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Last modified on Sábado, 25 Março 2023 16:00