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Terça, 16 Janeiro 2024 18:04

"Não cheguei à Sonangol porque o meu pai deu ordem para que isso acontecesse" - Isabel dos Santos

Acusada de 12 crimes pela sua gestão da Sonangol, Isabel dos Santos diz que a petrolífera estava falida e que a "gestão danosa aconteceu lá atrás", no tempo das administrações de Manuel Vicente.

sabel dos Santos reagiu pela primeira vez à acusação do Ministério Público de Angola contra si pela sua liderança da petrolífera Sonangol e diz que a “gestão danosa” que lhe imputam “aconteceu lá atrás. Afirmando que a principal empresa de Angola estava “falida” quando chegou à liderança do conselho de administração em 2015, Isabel dos Santos responsabiliza as administrações de Manuel Vicente pelo estado ruinoso das contas da petrolífera.

“Quem geriu a Sonangol durante mais tempo foi o eng. Manuel Vicente. Esteve lá desde 1999 e até ir a vice-presidente do MPLA, em 2012. De 2012 a 2014, foi o eng. Francisco de Lemos que fez uma declaração a dizer que a Sonangol estava em situação de pré-falência”, afirmou em declarações ao Rádio Essencial de Luanda.

“A dívida da importação de produtos refinados (gasolina e gasóleo)” era de vários milhares de milhões de dólares. “Estávamos à beira de deixar de ter gasolina e gasóieo [em 2015]…. Então os senhores administradores que andaram por aqui, o que andaram a fazer?! A gestão danosa aconteceu lá atrás”, acusa a filha mais velha de José Eduardo dos Santos.

Isabel dos Santos foi acusada da alegada prática de 11 crimes pela forma como foi contratada como consultora e como mais tarde geriu a Sonangol enquanto presidente do Conselho de Administração, sendo que o MP de Angola imputa-lhe a prática dos crimes de associação criminosa, burla qualificada, abuso de confiança, participação económica em negócio e fraude fiscal qualificada, entre outros.

Nepotismo? “No início, eu não queria. Mas a situação era urgente”

Segundo a acusação, que consultada pelo site angolano Maka Angola, o MP imputa a Isabel dos Santos o alegado desvio de cerca de 200 milhões de dólares ao longo de cerca de dois anos. Os factos subjacentes a essa acusação não são novos e prendem-se essencialmente com a investigação jornalística do caso Luanda Leaks, liderada pelo jornal Expresso.

Os cerca de 200 milhões de dólares terão sido alegadamente desviados através da sociedade Ironsea (que se chamava Matter à data dos factos), gerida por Paula Oliveira, amiga de Isabel dos Santos e igualmente acusada no mesmo processo pelo MP de Angola, juntamente com Mário Leite da Silva (ex-braço direito de Isabel dos Santos) e Sarju Chandulal Raikundalia, ex-administrador da Sonangol.

Oliveira, Leite da Silva e Raikundalia são cidadãos portugueses.

Outra das acusações do MP de Angola prende-se com o alegado nepotismo da sua contratação para liderar a Sonangol, visto que Isabel dos Santos é filha de José Eduardo dos Santos, presidente de Angola em 2015 e que faleceu em julho de 2022.

“Não cheguei à Sonangol porque o meu pai deu ordem para que isso acontecesse. Fui convidada por um comité de avaliação da situação da Sonangol e propuseram o meu nome ao Presidente da República. Quem me convidou foi o dr. Edeltrudes Costa, presidente do comité. Por o Presidente ser o eng. José Eduardo dos Santos, meu pai, eu não queria que ele me nomeasse. Ele também não queria. Até procuramos outras pessoas.”, afirmou.

Contudo, continua Isabel dos Santos, “havia uma situação de urgência, não havia dinheiro na Sonangol devido à descida do preço do petróleo e quando eu cheguei à empresa fui confrontada” com uma dívida gigantesca “relativa ao pagamento da importação de produtos refinados, como gasolina e gasóleo. Em poucos dias, Angola podia ficar sem gasolina e gasóleo nos postos de abastecimento.”

“Portanto, a acusação diz que eu não fui contratada no âmbito de um concurso público. Não fui porque havia uma situação de urgência”, enfatiza, acrescentando que “há um acórdão de um tribunal superior — Constitucional ou Supremo, tenho de procurar — que disse que a minha nomeação foi por mérito. Não foi por nepotismo.”

As explicações sobre o processo de contratação. “Fui convidada na qualidade de engenheira a ser consultora”

Logo no início da entrevista, Isabel dos Santos fez questão de explicar aos ouvintes da Rádio Essencial, uma rádio de Luanda, que é “engenheira de formação” e que criou as suas “empresas nos anos 90”, tendo as mesmas “tido sucesso em Angola. Em função da experiência de mais de 20 anos na gestão de empresas, fui convidada em 2015 pelo Ministério das Finanças para apresentar uma visão sobre o setor de petróleos em Angola.”

“Em 2015, o preço do petróleo baixou muito, houve prejuízos e foi a primeira vez que a Sonangol não conseguiu dar dinheiro ao Estado”, continua Isabel dos Santos. “E é assim que sou convidada na qualidade de engenheira Isabel dos Santos a ser consultora. A decisão de contratar a minha empresa de consultadoria foi tomada pelo Estado angolano, não foi tomada por mim.”

“O contrato com a minha empresa foi autorizado pelo Tribunal de Contas de Angola e fomos autorizados a subcontratar várias empresas internacionais de grande renome: KPMG, McKinsey, Vieira de Almeida”, entre outras.

“Todas essas empresas não eram minhas”, enfatiza Isabel dos Santos, tentando contornar uma das ideias fortes da acusação: de que a filha de José Eduardo Santos contratou, enquanto líder da Sonangol, as suas próprias empresas de consultadoria.

“Quando terminamos o trabalho, apresentamos um relatório com várias soluções e a reestruturação da Sonangol foi aprovada e avançou. E depois convidaram-nos a implementar as nossas ideias”, conclui. OBSERVADOR

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