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Quinta, 06 Outubro 2022 20:14

Após a derrota em Luanda: "MPLA poderá ser obrigado a abrir mão das zonas urbanas"

Após a derrota do MPLA em Luanda nas legislativas de 24 de agosto, o governador de Luanda, Manuel Homem, vai ter que gerir as expetativas de uma população que se decidiu claramente contra o partido no poder.

O Movimento Popular de Libertação em Angola (MPLA) vai eleger, no próximo sábado (08.10), o governador de Luanda, Manuel Homem, para a liderança do Comité Provincial do partido na capital angolana, substituindo o atual primeiro secretário Bento Francisco Bento.

O partido no poder tenta, assim, melhorar a sua comunicação, depois de ser derrotado pela oposição, a União Nacional de Independência Total de Angola (UNITA), em Luanda, nas últimas eleições legislativas. É o que diz o analista político Edmilson Ângelo, docente das universidades de St.Mary's e Royal Holloway, ambas em Londres.

Em entrevista à DW África, Ângelo considera que os resultados do escrutínio recente tornam premente a realização de autárquicas. Para já, adianta o investigador, o MPLA vai ter que cooperar com "quem tem o domínio na capital", até para garantir a própria sobrevivência.

DW África: Como pode o MPLA redimir-se em Luanda?

Edmilson Ângelo (EA): Não é uma questão de como se pode redimir em Luanda, mas sim como pode cooperar com quem agora tem o domínio da capital para, talvez, mudar a sua imagem nas zonas urbanas do país. O que aconteceu com essa alteração não é nada de estranho, porque o 'modus operandi' do próprio partido já é assim. A pessoa que é eleita como governador é automaticamente a pessoa que é escolhida como primeiro secretário do partido. Só que houve uma nova estratégia para últimas eleições, onde isso foi separado. Havia um governador nesse âmbito e um secretário provincial para a província de Luanda. Isso apenas para as eleições.

Essa separação de poderes, ou, até certo ponto, essa dupla nomeação, não funcionou. Agora o MPLA volta àquilo que é o normal, que é nomear o governador, que acaba por ser automaticamente o primeiro secretário. Será o que vai acontecer nas outras províncias também.

DW África: Não sendo Manuel Homem uma figura nova na capital angolana, acredita que esta seja uma boa escolha da direção do MPLA?

EA: As pessoas não vão fazer a análise do trabalho de Manuel Homem enquanto primeiro secretário, mas sim enquanto governador da capital de Luanda. Então, isso é mais uma nomeação que acaba por ser uma questão interna do partido e não muito uma questão externa para o país como um todo. Claro que, tendo em conta o que aconteceu na capital, que foi essa grande derrota do próprio partido [MPLA], havia essa necessidade urgente de uma alteração. Talvez seja isso que estamos a ver com essa nomeação. Mas a nível do partido, não muda nada.

DW África: Tendo em conta a derrota do MPLA em Luanda nas últimas eleições, pode-se dizer que esta troca no Comité Central acontece tarde demais ou vai sustentar o partido na capital angolana?

EA: Talvez o que vá acontecer aqui seja o novo slogan que o partido lançou logo depois das eleições, que é governar mais, fazer mais e comunicar melhor. Esta nomeação acaba também por refletir a nova estratégia do MPLA para uma melhor comunicação. Houve uma falha na comunicação e talvez agora, com a nomeação desse ex-ministro da Comunicação Social para governador de Luanda e para primeiro secretário [do partido] na capital, se acabe por ter aqui uma estratégia de melhor comunicação. Talvez seja a reflexão dos desafios do partido. Agora, ainda é cedo para fazermos uma análise sobre como será esse processo de nomear alguém que tenha o domínio da comunicação para a capital. Porque a verdade é que, mais do que qualquer coisa, as pessoas estão cada vez mais a tentar não olhar muito para identidades partidárias, mas sim para trabalho político dos governantes.

DW África: Se essa tendência de enfraquecimento do MPLA em Luanda continuar, quais poderiam ser as consequências para o partido?

EA: O partido será obrigado a ter que abrir mão do poder nas zonas urbanas como Luanda, possibilitando a partidos como a UNITA governarem as capitais. Mas, acima de tudo, aqui o desafio será aceitar que, cada vez mais, há a necessidade de abrir um espaço para as autarquias, [com] o partido no poder a ser o intermediador de todo o processo de governação local a nível da sociedade civil e do partido que for eleito nessas áreas. Mas a verdade é que, na eventualidade de isso não dar certo, o grande perigo é de estarmos aqui perante uma realidade onde o partido no poder não vai conseguir ganhar nem um voto ou ter um deputado na capital.

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