Segunda, 28 de Novembro de 2022
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Segunda, 20 Junho 2022 14:16

Economista Alves da Rocha admite que queda de preços em Angola seja “medida eleitoralista”

O economista angolano Alves da Rocha admitiu hoje que a redução dos preços de bens da cesta básica seja uma “medida eleitoralista”, valorizando, por outro lado, a redução das tarifas alfandegárias e o aumento da produção interna.

“O país está em período eleitoral e, naturalmente, que o Governo ou o MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola], partido no poder, que mantém o poder político e o poder de decisão na política económica, tem todo o interesse em dar alguns sinais que a população possa interpretar como sinais positivos para os seus rendimentos”, afirmou hoje em declarações à Lusa.

Para o economista, a “diminuição da intensidade de aumento dos preços dos bens básicos, do ponto de vista eleitoral pode significar alguma abertura ou uma aceitação da parte dos eleitores”.

Agora “a questão está em saber, depois das eleições [de 24 de agosto], o que é que pode acontecer, porque uma vez passado o período eleitoral e num contexto de crise económica e de crise política internacional, onde estará em causa a criação de uma nova ordem mundial, é bom que tenhamos consciência disso”, notou.

“Não se sabe muito bem quanto tempo deve durar essa guerra [na Ucrânia], e isso vai desencadear sérios problemas sobre a economia mundial e Angola não pode ficar satisfeita com o facto de o preço do petróleo estar nos níveis em que está”, realçou.

“Há muitas medidas que são tomadas propositadamente em períodos eleitorais, e isso não é específico de Angola, é no fundo o jogo da democracia”, frisou.

“Quem tem o poder, pretende preservá-lo e quem não tem pretende conquistar, mas vamos ver, uma análise mais consistente sobre esta trajetória do comportamento dos preços em Angola só podemos ter a partir do final das eleições ou até no final do ano”, argumentou.

Apontou, ao mesmo tempo, a redução das tarifas alfandegárias aos produtos da cesta básica e o aumento da produção interna de bens agrícolas como fatores que justificam a atual descida da inflação no país.

Para o economista, a taxa de inflação de 24,42% registada em maio de 2022, “ainda é muito elevada, porque os preços continuam a subir”, mas, sublinhou, “há aparentemente algumas razões” para a redução da dinâmica inflacionista em Angola.

“Uma das razões tem a ver, penso eu, com a diminuição das tarifas alfandegárias de todos os produtos que fazem parte da cesta básica e essa é uma razão fortíssima, ou seja, por esta via o Governo está a tentar diminuir o impacto daquilo a que se chama de inflação importada”, disse.

Aludiu ainda ao aumento da produção interna de bens alimentares da cesta básica, nomeadamente através de grupos empresariais que trabalham e produzem no domínio agroalimentar como uma outra razão para o percurso decrescente dos preços.

“Pode ser que sejam essas duas razões preponderantes para que o ritmo do aumento dos preços em Angola esteja mais controlado ou mesmo a diminuir”, admitiu Alves da Rocha.

O economist considerou que a sustentabilidade para o controlo da inflação é um fator a ter em conta, referindo que a “taxa de inflação de 18%, estimada pelo Banco Nacional de Angola (BNA) para 2022, é uma possibilidade rodeada de muitas incertezas”.

“E nesta questão das incertezas entra, justamente, a situação económica mundial com a invasão da Ucrânia pela Rússia, nomeadamente no domínio dos fertilizantes e dos cereais”, frisou.

A inflação em Angola cifrou-se nos 24,42% em maio de 2022, atingindo o nível mais baixo desde janeiro de 2021, segundo dados do Índice de Preços no Consumidor Nacional (IPCN) de maio 2022, divulgado na semana passada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) angolano.

“A variação homóloga situa-se em 24,42%, registando um decréscimo de 0,52 pontos percentuais em relação à observada em igual período de 2021. Comparando a variação homóloga atual com a registada no mês anterior verifica-se uma desaceleração de 1,37 pontos percentuais”, lê-se no documento do INE.

A classe “alimentação e bebidas alcoólicas” foi a que mais contribuiu para o aumento do nível geral de preços com 0,47 pontos percentuais durante o mês de maio, seguida das classes “bens e serviços diversos” com 0,10 pontos percentuais, “vestuário e calçado” e “mobiliário, equipamento doméstico e manutenção” com 0,07 pontos percentuais cada e “saúde” com 0,05 pontos percentuais.

Alves da Rocha recorda que a inflação nos Estados Unidos da América e na Europa já constitui um problema, “que a política económica dos diferentes governos vai tentar resolver”, e que Angola não é uma economia fechada e deverá também arcar com os efeitos negativos da crise mundial.

Angola “não é, por enquanto, um país autossuficiente em nenhum produto, mesmo da Reserva Estratégica Alimentar [REA] ou da cesta básica, nós não somos um país autossuficiente ou próximo da autossuficiência”.

“Portanto, isto significa que, voltando à questão da sustentabilidade e redução da intensidade dos preços, a uma dada altura vamos também arcar com os efeitos negativos desta crise internacional”, notou.

“A não ser que internamente se consiga de alguma maneira intensificar ainda mais a produção nacional desses produtos essenciais da cesta básica e da REA, juntando a este aumento substancial uma anulação das tarifas alfandegárias que impendem sobre esses produtos importados”, salientou.

O aumento sustentado da produção interna de bens da cesta básica, no entender do economista angolano, “é ainda uma questão sensível”, na medida em que, realçou, Angola “é um país altamente dependente das importações”.

“E ainda que consigam incremento significativo na produção de alguns bens, não nos podemos esquecer que muitos desses bens da cesta básica têm uma componente importada muito forte”, afirmou.

“Essa inflação importada vai continuar a existir e, naturalmente, que os empresários angolanos vão ter de repercutir o valor dessa inflação importada para as matérias-primas, para os bens intermédios, que nós usamos para ter o produto final vão ter que repercutir no produto final”, apontou.

O também diretor do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola reiterou que a “diminuição da intensidade do aumento dos preços dos bens básicos é um sinal positivo”, lamentando, no entanto, o atual ambiente para os empresários que garantem a sustentabilidade da produção.

O ambiente que estes empresários, “que investem o que é seu e não dependem do Governo”, têm para garantir a sustentabilidade da produção “não é completa e totalmente positivo, toda a gente sabe disso”.

“Há questões que aumentam imenso os custos empresariais, há questões relacionadas com a burocracia, que em Angola é uma coisa terrível e que encarece muito os custos de produção”, criticou ainda Alves da Rocha.

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