Quinta, 11 de Agosto de 2022
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Quarta, 03 Agosto 2022 00:33

A abertura de João Lourenço, a mudança de Adalberto da Costa Júnior

O atual presidente de Angola abriu a porta da mudança e fez com que a sociedade angolana manifeste um sentido de urgência inédito. O líder da UNITA vislumbra uma hipótese inédita de chegar ao poder e para tal alia-se à família dos Santos.

O caminho para as eleições gerais de 24 de agosto em Angola está a ser marcado por uma perceção nova, a de que a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) pode vencer o ato eleitoral.

Esta possibilidade resulta, em boa parte, da natureza da governação do atual Presidente da República. João Lourenço abriu o regime e introduziu uma narrativa nova de combate à corrupção que legitimou os protestos da sociedade angolana em outras áreas.

A panela de pressão que esteve hermeticamente fechada no decurso dos 38 anos de governação de José Eduardo dos Santos, o qual não dava espaço para qualquer tipo de contestação, abriu-se, e os vapores de uma certa libertação social e política foram-se disseminando.

Paradoxalmente, esta abertura proporcionada por João Lourenço constitui a sua maior fraqueza, na medida em que determinadas franjas da sociedade reclamam por medidas urgentes e exigem que o chefe de Estado em exercício e o seu Governo encontrem soluções para problemas que têm décadas e relativamente aos quais se mantiveram em silêncio durante o consulado de José Eduardo dos Santos.

Dito de outra forma, a democratização crescente da sociedade possibilitou que se fosse sedimentando a ideia de que é viável haver uma alternativa de governação. Em paralelo, as hipóteses de afirmação política de João Lourenço foram limitadas pela crise económica decorrente da covid-19. Os problemas que resultam de um conjuntura externa desfavorável estão a ser imputados a João Lourenço.

Em circunstâncias normais, sem pandemia, Angola teria registado um aumento do investimento estrangeiro, criando com isso mais emprego, uma subida das receitas provenientes do petróleo, e, porventura, começado a tão proclamada diversificação da economia. Tudo isto, envolto na cruzada política de combate à corrupção que lhe granjeou reconhecimento.

Líder da UNITA muda narrativa

A constatação de que a política se constrói com oportunidades e que o trajeto para lá chegar é sinuoso, está bem patente na narrativa de Adalberto da Costa Júnior. A UNITA, durante anos incontáveis, fez do clã dos Santos o seu maior inimigo. Agora, o seu líder, afasta esse passado e alia-se à família do falecido presidente numa tentativa de derrotar João Lourenço e o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola).

Os dos Santos deixaram, na oratória do presidente da UNITA, de serem dilapidadores do erário público e metamorfosearam-se em sacrificados. Fica a pairar a dúvida se os dos Santos não estarão, inclusive, a financiar a UNITA, pois só assim é entendível a viragem de discurso.

"O que estamos a assistir hoje é meramente um problema de vingança. De perseguição, de problemas de relacionamentos, de pessoas, não é um problema de combate à corrupção", afirmou Adalberto da Costa Júnior em declarações ao Observador no passado dia 31 de julho.

Todavia, há que ter em conta, não só o sistema eleitoral de Angola (cada província elege cinco deputados), mas também as motivações de quem votar. É bem provável que as escolhas sejam ditadas por motivos mais prosaicos do que aqueles que são referidos por quem vive num ambiente mais urbano e tem acesso às redes sociais.

João Lourenço (mesmo sem intenção) democratizou Angola e institucionalizou a mudança. E este é um contexto absolutamente novo para o país e que leva até que os Estados Unidos, através da sua embaixada em Luanda. digam orgulhar-se "de apoiar as reformas democráticas de Angola por meio de formação disponível para todos os partidos políticos".

Jornal de Negócios

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