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Segunda, 15 Julho 2019 19:36

Coréon Dú considera mudanças legislativas vagas e insuficientes

O artista angolano Coréon Dú, filho do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, considerou hoje que as mudanças no Código Penal do país, saudadas pela descriminalização da homossexualidade, têm um "palavreado vago" e funcionam como "operação política de charme".

"Até eu conseguir ver um esforço institucional e social real para informar e educar o público de forma plural e condigna sobre temas como a educação sexual, direitos reprodutivos e a sexualidade humana" - disse, em entrevista à Lusa - "estas aparentes mudanças por via de legislação com palavreado vago continuarão a ser apenas uma operação política de charme para iludir a futura geração de eleitores".

Coréon Dú, nome artístico de José Eduardo Paulino dos Santos, frisou que "as supostas leis o que descriminalizam são 'vícios contra a natureza'", referindo que este é um tipo de linguagem encontrado em várias leis e textos religiosos e que se refere "a atos que podem ser cometidos por qualquer pessoa independentemente da sua orientação afetiva."

Ou seja, considerou que a legislação, na prática, "também se pode aplicar a pessoas heterossexuais envolvidas no que a sociedade em questão descrevia, os tais atos ou vícios".

O artista, que cresceu nos Estados Unidos, foi viver para Angola em 2006 e desde então, disse, acredita que "foram dados alguns passos para trás no que diz respeito a como são tratadas as liberdades afetiva e reprodutiva" e que "recentemente houve muito retrocesso com ar de progresso".

Coréon Dú considerou mesmo que há uma campanha de desinformação nos últimos anos e exemplificou com o seu caso: referiu que nunca teve de ocultar a sua orientação sexual e que esta foi conhecida pelos seguidores do seu trabalho desde muito cedo, sem que tal tenha sido utilizado contra si.

O artista descreveu um quotidiano angolano pautado por muito respeito pela vida privada de cada um.

"Nos últimos anos é que certos grupos têm tentado politizar e dramatizar em foro público a minha orientação afetiva para ganho das suas agendas políticas ou sensacionalistas", afirmou.

Coréon Dú cresceu na região metropolitana de Washington D.C., e explicou que a sua visão de Angola, ao crescer na diáspora angolana, era "informada pela imprensa internacional".

Para o artista multifacetado, que tem vários projetos na televisão, moda, música e comunicação, essa perceção não correspondeu com a realidade que encontrou no terreno quando regressou às origens. "Foi com muito espanto que em 2004-2005 testemunhei que em telenovelas angolanas e em peças de teatro populares já existiam personagens e temáticas LGBT [lésbicas, gays, bissexuais e transgénero] a serem abordadas publicamente", explicitou.

A Semba Comunicação de Coréon Dú esteve por detrás da telenovela "Windeck", em 2013, que tinha no enredo um casal de lésbicas e alcançou grande sucesso além-fronteiras, tendo sido nomeada para um Emmy Internacional, prémio atribuído a programas e profissionais de televisão.

"Estes contactos que tenho tido ao longo dos anos demonstraram-me que as mentes angolanas são muito mais abertas e tolerantes do que muitos esperam", afirmou.

No entanto, disse, há "uma série de tabus sociais que acabam por ser impostos socialmente, muitas vezes enformados por certos interesses sociopolíticos ou religiosos".

O artista falou de uma "certa onda de demagogia e diabolização de várias franjas da sociedade", com baterias apontadas a minorias sociais, como a comunidade LGBTQI+, e a maiorias que veem os direitos "constantemente a ser testados", como o caso das mulheres.

Entre os seus muitos projetos artísticos, Coréon Dú tem devotado atenção a iniciativas com "retorno social imediato", disse, com foco na informação, formação e elevação da autoestima social. "Acredito que a forma mais eficiente de ativismo é aquela que consegue reunir diálogo para trazer resultados", afirmou.

Alguns exemplos de projetos marcantes são o I Love Kuduro e Divas Angola, além de iniciativas como Droga Diga Não em 2005 e Divas Angola Delinquência Estou Fora em 2009.

"O meu maior interesse é encontrar formas e soluções pró-ativas de como gerar diálogos sociais e oportunidades que levam a avanços sociais pertinentes a mim e outras pessoas que se reveem na minha obra ou filosofia profissional e de vida", explicou.

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