Quarta, 15 de Julho de 2020
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Segunda, 10 Fevereiro 2020 11:38

Clã de José Eduardo dos Santos apropriou-se das riquezas de Angola

Autora do livro "O Domínio de Angola, um retrato do poder de Eduardo dos Santos", considera que reinado do antigo presidente foi autoritário e funcionou sobre apropriação por um clã das riquezas país.

A autora do livro “O Domínio de Angola, um retrato do poder de José Eduardo dos Santos”, considera que o reinado do antigo Presidente foi “autoritário e funcionou sobre a apropriação por um clã das riquezas do país”.

Em entrevista à Lusa a propósito do lançamento do livro, na terça-feira, Estelle Maussion considerou que o poder de que gozou José Eduardo dos Santos durante 38 anos em Angola teve por base um “sistema que tem raiz na guerra civil, que tornou-se autoritário e que funcionou sobre a apropriação por um clã das riquezas do país”.

Para a autora, jornalista da agência francesa de notícias France Presse e da rádio France Internationale (RFI) correspondente em Angola entre 2012 e 2015, “este sistema, que parecia intocável, finalmente está em dificuldades com a saída do poder da família e a chegada do João Lourenço”.

Questionada sobre se os documentos com vários contratos de Isabel dos Santos, conhecidos como Luanda Leaks, a surpreenderam, Estelle Maussion respondeu que há “detalhes sobre a rede internacional de ativos do casal Isabel dos Santos-Sindika Dokolo que ficavam na sombra até lá”, mas acrescentou que “as revelações levaram questões antigas sobre a origem da fortuna da filha do antigo Presidente angolano, sobre a relação entre o seu sucesso e o seu estatuto de filha de chefe de Estado”.

O livro agora publicado “descreve o sistema de governação do antigo Presidente e da sua família ao longo de 38 anos” e que beneficiou da “hipocrisia de países, organizações e empresas em nome de interesses diplomáticos ou económicos”, incluindo em Portugal, onde houve uma “posição muito ambígua do governo português e de várias personalidades do país durante o passado”.

No livro, que passa em revista os 38 anos de poder de José Eduardo dos Santos, recuperando as principais notícias e acontecimentos do reinado e enquadrando-os nos jogos de poder da elite angolana, a autora pretendeu “dar um testemunho vivo, documento e ao mesmo tempo acessível deste período.

trajetória da família de José Eduardo dos Santos “é única, uma extraordinária ascensão seguida de uma queda espetacular”, considera Estelle Maussion, que se mostra confiança na capacidade do novo Presidente em impor reformas e um combate assertivo contra a corrupção.

“Há uma vontade muito forte de encarnar uma rutura”, responde, quando questionada sobre se João Lourenço representa uma mudança de paradigma ou apenas uma mudança de cadeiras entre a elite de Angola.

Esta rutura, defende, “passa por declarações, nomeações em série, inquéritos e processos judiciais, e ao mesmo tempo, várias reformas foram lançadas para rever as regras dos negócios, implementar outras práticas na administração, melhorar a eficácia e a transparência”.

Tudo isto, acrescenta, “envia bons sinais, mas ainda é cedo para fazer um balanço e vai demorar muito tempo para mudar as mentalidade em relação à corrupção”, alerta a jornalista escritora, que admite surpresa na rapidez com que João Lourenço substituiu figuras importantes do antigo Executivo e lançou processos judiciais contra familiares do antigo Presidente.

“Acho que foi uma surpresa para muita gente; ver membros da antiga família presidencial em frente de um tribunal era impensável alguns anos atrás; a rotura é muito forte mas não é suficiente”, argumenta a autora, concluindo: “O novo Presidente tem também que produzir resultados concretos na melhoria das condições de vida da população, e esse é o real desafio num contexto económico difícil”.

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