Quinta, 01 de Outubro de 2020
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Terça, 11 Fevereiro 2020 16:37

Entalado, mais uma vez - Graça Campos

É uma constatação unânime: o consulado do Presidente João Lourenço tem sido marcado por muita turbulência. Poucas situações embaraçosas não desaguam no seu “colo”.

Poucos dias depois da tomada de posse, João Lourenço viu-se obrigado a abrir mão do seu secretário para os Assuntos Económicos, Carlos Panzo, em cuja conta bancária, na Suíça, a brasileira Odebrecht, mundialmente conhecida por untar os bolsos de dignitários de vários países, depositou muito dinheiro, aproximadamente uns 18 milhões de dólares.

Dir-se-ia que, para o padrão de alguns governantes angolanos, 11 milhões de dólares seriam uns miseráveis trocos, mas sucede que esses “trocados” foram parar à conta de Carlos Panzo ao tempo em que exercia elevadas funções no Ministério das Finanças. Donde, a conexão com a corrupção.

Confrontado com robustas evidências em posse das autoridades judiciais helvéticas, João Lourenço viu-se mesmo forçado a despedir o seu secretário para os Assuntos Económicos.

Pouco depois, o Presidente João Lourenço viu aterrar nos seus braços a Air Connection Express, uma batata muito quente, que tinha a particularidade de envolver pessoas ligadas a si não apenas por laços profissionais, mas também sanguíneos.

A Air Connection Express pretendia-se uma companhia aérea supostamente destinada a encurtar distâncias no interior do país. Veio a saber-se, pouco depois, que toda a operação, montada às costas da TAAG, que assumiria a parte de leão nas despesas, não era se não um ardil para sugar o erário.

Com quase metade do seu gabinete “ensopado” até à medula, João Lourenço desmantelou a operação, mas poupou os operadores. Augusto Tomás, ministro dos Transportes e artífice da maracutaia, Pedro Sebastião, ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança, Frederico Cardoso, ministro de Estado e chefe da Casa Civil, e o próprio irmão, Sequeira João Lourenço, secretário executivo da Casa de Segurança, perderem os anéis, mas preservaram os dedos.

Depois de outras tantas trapalhadas, que se sucederam a uma cadência assustadora, eis que acaba de explodir no colo do Presidente da República mais um daqueles casos que constrange qualquer. A revelação de que o actual diretor do gabinete de João Lourenço embolsou, inexplicavelmente, a maquia de 17 milhões de dólares, é um daqueles casos que não permitem que o Titular do Poder Executivo assobie para o lado. Não há escapatória. João Lourenço tem de acionar a Procuradoria Geral da República, quanto mais não seja porque a cidadania não aceita mais que o gabinete do Presidente da República seja liderado por alguém que é abastecido de dinheiro de origem desconhecida.

Poder-se-á, eventualmente, alegar que a conta bancária de Edeltrudes Costa foi irrigada ao tempo de José Eduardo dos Santos. Mas nem essa alegação afasta João Lourenço da obrigação de acionar a PGR. Afinal de contas, Augusto Tomás e toda a turma do Conselho Nacional de Carregadores foram julgados e condenados por crimes cometidos na era do outro senhor. Os deputados Higino Carneiro e Manuel Rabelais têm a justiça à perna por pretensos desmandos praticados à época da liderança clarividente.

Para ser coerente e emprestar sólida credibilidade à cruzada contra a corrupção, João Lourenço tem de ser capaz de cortar na própria carne, isto é, colocar o diretor do seu gabinete à disposição da Justiça. O primeiro passo seria, obviamente, despir Edeltrudes Costa da função que exerce. Afinal, receber depósitos bancários de fontes escusas pode ter criado no (ainda) diretor do gabinete do PR algum vício. E os vícios, como se sabe, são resistentes.

Além do mais, o cargo de Edeltrudes é apetecível a “oferendas” por parte daqueles que gostam de encurtar caminhos.

João Lourenço, é sabido, tem um “fraco” por Edeltrudes Costa. Isso é que explica que o tenha resgatado dos destroços de que José Eduardo dos Santos se tinha desembaraçado. Mas justamente por isso é que a denúncia do Expresso oferece ao Presidente da República a oportunidade de reafirmar que nesse combate à roubalheira, corrupção e impunidade não se olha a filhos e enteados. Todos têm de ser punidos à medida das suas infracções.

Ver partir aquela que é uma das “estrelas” do seu gabinete será, por ventura, das maiores provações por que passará o Presidente João Lourenço. A coerência tem preço.

Uma pergunta: o black out da imprensa pública em torno do caso que envolve Edeltrudes Costa é um sinal de tergiversação inspirado pelo ou no palácio presidencial ou é mais uma manifestação de auto-censura?

Por Graça Campos / Correio Angolense

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