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Segunda, 06 Janeiro 2020 11:36

Isabel dos Santos: a jóia falsa de Angola

Isabel dos Santos sempre cultivou uma imagem de poder, inteligência e glamour, de princesa intocável com o mundo a seus pés. Agora, em desespero, agarra-se à mentira para tentar manter um fio de dignidade. Parece tudo uma novela a que bem poderíamos chamar “A Ascensão e Queda de D. Isabel”.

Milhares e milhares de angolanos morriam de malária e febre amarela porque o Estado nem dinheiro tinha para medicamentos básicos, lençóis para os hospitais e para as morgues. Ao mesmo tempo, em 2015, o Presidente José Eduardo dos Santos emitia uma garantia soberana no valor de 175 milhões de dólares para a reestruturação de uma dívida do Estado usada para financiar a aquisição da joalharia de luxo suíça De Grisogono.

Essa joalharia foi um “presente” para a sua filha Isabel dos Santos e o marido Sindika Dokolo, e tornou-se o cartão de visita do casal entre as celebridades de Hollywood. Projectavam-se, assim, como figuras do jet set mundial, e podiam ser vistos rodeados de estrelas mundiais do cinema e da música, em Cannes, nas festas da De Grisogono.

Quem concedeu o financiamento ao Estado para comprar a joalharia destinada a Isabel dos Santos foi o Banco Internacional de Crédito (BIC). Como é sabido, Isabel dos Santos detém 42% do capital do BIC, que executou a garantia do Estado. O país só teve perdas, e milhares de angolanos pereceram porque os fundos que deveriam ter sido usados para a saúde serviram para alimentar os caprichos de uma filha mimada. Esta operação, agora detalhada pela recente sentença judicial de arresto de bens de Isabel, demonstra bem qual era o seu modelo de negócios: o saque ao Estado angolano.

Por via da captura do Estado, José Eduardo dos Santos usou as instituições públicas como mecanismo de enriquecimento da sua família e de mais alguns próximos do palácio presidencial. O auge de Isabel dos Santos e da classe dos “marimbondos” (principais beneficiários da captura do Estado e da corrupção) teve como consequência a miséria do povo angolano.

A partir de certo momento, o Estado angolano, enquanto estrutura de persecução do bem comum, deixou de existir, tornando-se apenas uma organização criminosa de saque das riquezas do país. Os cidadãos já não eram necessários. Podiam morrer sem dignidade, ser assassinados, não ter escolas nem hospitais. O apogeu de Isabel dos Santos teve como outra face o completo aviltamento da população.

O auge de Isabel dos Santos e da classe dos “marimbondos” teve como consequência a miséria do povo angolano

O aviltamento e a degradação humana em Angola foram possíveis porque a riqueza não provinha nem dos impostos que a população pagava, nem do seu trabalho e capacidade empresarial. A prosperidade derivava essencialmente do petróleo, e para o obter bastava a tecnologia e um punhado de estrangeiros. O cidadão angolano era um mero incómodo para as contas milionárias de Isabel dos Santos e da clique presidencial.

A propalada ideia de que Isabel dos Santos é uma criadora de empregos em Angola é simplesmente falsa. A fortuna que a filha do Presidente canalizou do Tesouro público para as suas aventuras privadas teria originado exponencialmente muitos mais empregos se tivesse sido aplicada de modo eficiente na economia. A riqueza proveniente do petróleo não serviu o país nem gerou emprego nacional. Em vez disso, permitiu que Isabel dos Santos e outros se tornassem bilionários, gerando pobreza e morte para os cidadãos.

É evidente que para atingir este grau de captura do Estado, José Eduardo dos Santos teve de instalar um reino de terror. Terror cirúrgico, mas permanente. Os assassínios de ativistas, incluindo um atirado aos jacarés (o famoso caso Cassule & Kamulingue https://www.makaangola.org/2014/11/kamulingue-cassule-cia-sinse-e-os-mandantes-dos-assassinatos/) tornaram-se a marca da repressão do regime, bem como os ferozes cães-polícias que sempre surgiam para desmobilizar qualquer pequena manifestação. Na periferia, os esquadrões da morte executavam sumariamente jovens, à luz do dia e com público, de forma arbitrária. Hoje, Isabel dos Santos diz que não vai a Angola por causa da onda de criminalidade. O modelo de segurança e de combate à criminalidade do seu pai era matar à toa.

Onde estava Isabel dos Santos quando a população morria por falta de hospitais do Estado ou devido à repressão das forças de segurança? Nunca se lhe ouviu um lamento, uma preocupação, muito menos uma acção.

Quis arrebatar tudo para si e não deixou nada para o País. É por isso que ninguém em Angola levanta um dedo para a defender

Isabel quis arrebatar tudo para si — diamantes, supermercados, condomínios, terras, bancos, televisões — e não deixou nada para o país. É por isso que ninguém em Angola levanta um dedo para a defender.

Qualquer associação de Isabel dos Santos ao activismo e à preocupação com o bem comum dos angolanos é no mínimo absurda. A sua história fala por si: não houve um único momento em que defendesse as liberdades fundamentais ou em que se preocupasse com a população.

Para manter o seu império, Isabel sempre recorreu à construção sistemática de mentiras. Ainda a propósito do recente arresto de bens, afirma-se chocada com o facto de não ter sido ouvida pelo tribunal. Ora, rodeada como está pelos mais reputados advogados, saberá certamente que o arresto é uma providência cível normalíssima em que não se ouve a outra parte e que não envolve qualquer acusação criminal.

Agora que é apanhada pela verdade, Isabel dos Santos tem de abandonar a realidade alternativa na qual tem vivido e, num acto de contrição, regressar a Angola para defender as suas acções e contribuir para o bem comum. Não há escapatória. Ainda pode enfrentar os factos com dignidade e começar um novo percurso, em cooperação com o povo angolano.

A exposição dos factos sobre Isabel dos Santos é também um exemplo para todos os actuais dirigentes angolanos. O tempo do saque, da captura do Estado, acabou. Hoje estão uns na barra do tribunal; amanhã, se tiverem o mesmo comportamento, estarão outros.

Quem saqueia o país, será acusado, julgado, condenado e perderá os seus bens, e os dirigentes terão de assumir uma nova postura de responsabilidade. A era da impunidade em Angola acabou. É esta a mensagem principal do caso de Isabel dos Santos.  

Por Rafael Marques “Expresso”

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