Quarta, 27 de Mai de 2020
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Sexta, 22 Mai 2020 22:32

Se a covid-19 mata muita gente em Angola, a malária mata muito mais

Há pandemias piores do que a do novo coronavírus. Em Angola a malária causa estragos piores, sem esquecer a corrupção institucionalizada
doenças

Até agora, foram três as vítimas mortais angolanas do novo coronavírus. O suficiente para pôr Angola em sentido e para provar, contra todas as superstições, que a covid-19 também mata naquele país africano lusófono. Mas, se a covid-19 mata, a malária mata muito mais.

Mata tanto, de facto, que o escritor angolano José Eduardo Agualusa não resistiu a ir para as redes sociais desafiar os angolanos “a lutarem contra a malária com a mesma energia com que lutamos contra a covid-19”. Olhando para a diferença de número de vítimas entre uma e outra doença, o autor de “Nação Crioula”, não duvida que em Angola a malária continua a provocar um rasto de estragos humanos incomparavelmente mais devastador.

“Só no primeiro trimestre deste ano registaram-se em Angola 2548 óbitos num total de dois milhões de casos, mais 467 vítimas mortais face ao mesmo período em 2019”, revelou o coordenador nacional da luta contra a malária em Angola, José Martins.

O que Agualusa não saberá é que este esforço corre o risco de sofrer um violento soco no estômago, depois de o último relatório do Fundo Global de Luta Contra a Malária ter arrasado a gestão das suas subvenções por parte do Ministério da Saúde angolano.

SUMIÇO DE QUASE MEIO MILHÃO DE DÓLARES
Segundo esse relatório, a que o Expresso teve acesso, o Secretariado do Fundo admite pôr fim às “subvenções de que o Ministério da Saúde é o beneficiário principal”, transferindo fundos e atividade para o Programa dsa Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Entre outras graves irregularidades detetadas na gestão dos recursos do Fundo em 2019, há quase meio milhão dólares em paradeiro desconhecido. O Ministério da Saúde não consegue explicar a sua utilização.

“Até dia ao próximo dia 20 de junho, Angola terá de justificar os ‘buracos’ atribuídos à sua responsabilidade no âmbito do cofinanciamento do programa”, revelou ao Expresso fonte do Fundo Global. Na conclusão do relatório, o Governo é acusado de “incapacidade de cumprir os compromissos nacionais”. O documento censura o Ministério da Saúde pelo “mau desempenho das subvenções” e o fornecimento de “dados não-fiáveis” sustentados por “estruturas de gestão ineficientes”.

O Fundo recorda que no passado, “por inoperância” governamental, foram transferidos para outros países 55 milhões de dólares () que eram destinados Angola. Apesar de “não haver ruturas e de estar garantida a distribuição de testes rápidos de combate a malária”, garante José Martins, a malária leva voltas de avanço às três mortes provocadas pela covid-19.

Os seus estragos há muito derrubaram as trancas colocadas à porta de aeroportos para evitar a entrada em Angola do conoravírus, que forçou em fevereiro a suspensão das ligações áreas com os primeiros países afetados pela pandemia.

Matando multidões, a malária deambula pelos carreiros de cemitérios abarrotados de cadáveres abandonados, devido à distância familiar imposta pela quarentena de outra pandemia. No vazio da morte daqueles que, como Anastácio Serafim, não têm o equivalente em kwanzas a €8 para comprar cortisona, a malária não chega aos calcanhares dos milhões de euros colocados nas mãos da Comissão Interministerial de Combate ao Coronavírus.

“Numa primeira fase foi desembolsado, em crédito adicional, o equivalente em kwanzas a 31 milhões de euros, mas outra soma igual já está a ser disponibilizada”, garante ao Expresso fonte do Ministério da Economia angolano.

MILLENNIUM-ATLÂNTICO CRIA FUNDO DE APOIO EMPRESARIAL PÓS-COVID-19
A nova pandemia parece longe de fazer os mesmos estragos que a malária, mas o susto que os seus efeitos provocam coloca em sentido todo um país. Acomodada em condomínios fechados ou confortáveis apartamentos com vista para o mar, longe da podridão dos charcos de águas pútridas, do lixo e da impiedosa perseguição dos mosquitos, a classe rica angolana sucumbiu ao pânico com a chegada da pandemia. Sem darem a cara, através das empresas, empresários estenderam a mão, oferecendo recursos financeiros e material médico.

O ex-vice-presidente angolano Manuel Vicente, antigo patrão da Sonangol; os generais Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, que foi chefe da Casa Militar do anterior Presidente, José Eduardo dos Santos; e Leopoldino Nascimento “Dino”, antigo chefe das comunicações da Presidência, reuniram o conglomerado do seu vasto universo empresarial e disponibilizaram meios às autoridades. “Não poderíamos ficar indiferentes ao momento, e oferecemos também algumas toneladas de fuba de milho e kits com material de limpeza”, afirmou Nascimento ao Expresso.

Os acionistas do Banco de Negócios Internacional (BNI), liderados pelo banqueiro Mário Palhares, colocaram à disposição do Estado 1,3 milhões de euros para a compra, à China, de 30 ventiladores, fardas para médicos e 100 mil testes de covd-19.

Atento à próxima fase de desconfinamento, o Banco Millennium-Atlântico não quis circunscrever a sua ação solidária à compra de material de biossegurança. Com a entrada em vigor do estado de calamidade em Angola a partir de segunda-feira, os seus acionistas apostam no lançamento do primeiro fundo de investimento social de impacto e transformação de empreendedores.

Sob a gestão da Hemera Capital Partners, com uma dotação inicial de cinco milhões de dólares, este fundo é apoiado pelo DisruptionLab. O presidente do Banco Millenium Atlântico, António Assis, disse ao Expresso que o objetivo é “apoiar pequenas e médias empresas com provas dadas na sua atividade, que atendam às atuais necessidades do mercado, nomeadamente nas áreas mais gravemente afetadas pela pandemia”.

SISTEMA DE SAÚDE É FRÁGIL
O fim do estado de emergência gera apreensão, no entanto, por se temer a propagação do coronavírus perante as fragilidades do sistema sanitário de Angola. “Faltam testes, não se salvou um único doente nos cuidados intensivos e os números não batem certo”, garante ao Expresso um médico da Clínica Multiperfil, pedindo o anonimato.

Já para pessoas como André Almeida, operário de construção civil desempregado há um mês, o levantamento de algumas medidas de restrição surge como oportunidade para a vida conhecer um desafogo. Quem hoje percorre as ruas de Luanda tem a sensação de uma tragédia de combustão lenta, com bandos de crianças, quais pequenos pássaros de asas derrubadas, a mendigar à porta dos supermercados.

Na baixa da capital, definha uma juventude que vivia de arrumar carros e agora não tem quem ajudar a estacionar. À porta de vivendas, um exército de seguranças com rosto sombrio aguarda por uma refeição que tarda a chegar.

“Para já, o que nos afeta é a profunda crise económica e financeira resultante da má gestão e do roubo sistemático, que são, na verdade, as nossas grandes pandemias”, assegura ao Expresso Leonardo Daniel, proprietário de uma oficina de automóveis.

A preocupação é tanto maior quanto não param de crescer as suspeitas de alegados negociatas a volta de compras e adjudicações sem concurso público, envolvendo membros da Comissão Interministerial de Combate à Covid-19. A mensagem que corre nas redes sociais diz bem dessa apreensão: “O coronavirus nasceu na China, cresceu na Itália, estudou nos Estados Unidos e em Angola tornou-se um negócio”.

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