Quarta, 23 de Junho de 2021
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Terça, 08 Junho 2021 22:55

BNA vai libertar 140 mil milhões Kz com ajuste das reservas obrigatórias em divisas

Se, por um lado, a libertação dos depósitos em Kwanzas que os bancos estavam obrigados a realizar no banco central para cumprir 2 pontos percentuais os 17% de reservas obrigatórias em moeda estrangeira vai permitir aumentar a liquidez na economia em moeda nacional, por outro, o aumento da taxa de reservas em moeda estrangeira de 17% para 22% vai secar liquidez dos bancos em dólares.

O Comité de Política Monetária (CPM) do Banco Nacional de Angola (BNA) de 28 de Maio decidiu aumentar o coeficiente das reservas obrigatórias em moeda estrangeira de 17% para 22% e terminar com a obrigatoriedade de cumprimento parcial em Kwanzas.

Com essa medida, os bancos comerciais estão agora obrigados a depositar 22% dos depósitos em divisas dos clientes no banco central, sendo que a totalidade das chamadas reservas devem ser cumpridas em moeda estrangeira. Até agora os bancos tinham de depositar no banco central apenas 17% dos depósitos em divisas, sendo que 2% dos depósitos tinham de ser cumpridos em moeda nacional.

Segundo o governador do BNA, José de Lima Massano, “essa medida vai permitir ganhar maior liquidez para o sistema bancário”, avançando que “os números indicam que no primeiro momento vai se libertar 140 mil milhões Kz (em moeda nacional), os tais 2% que os bancos eram obrigados a cumprir”.

Os bancos têm dois tipos de reservas (depósitos) junto do banco central: as reservas obrigatórias, uma percentagem dos depósitos dos clientes que os bancos são Finanças Arquivo Mercado obrigados a depositar no BNA, e as reservas livres, valores que os bancos depositam livremente no BNA. Nem as reservas obrigatórias nem as reservas livres são remuneradas.

A soma dos dois tipos de reservas são as chamadas reservas totais. De acordo com as estatísticas do banco central, no final de Abril deste ano as reservas bancárias totalizam cerca de dois biliões kz. Os depósitos obrigatórios no valor de 1,6 biliões kz, representam 81% das reservas bancárias, sendo os restantes 375 mil milhões Kz, o equivalente a 18% do total, depósitos excedentários. Das reservas obrigatórias, 1,2 biliões são em kwanzas, o que representa 76%, e os 24% em moeda estrangeira, equivalentes a 385 mil milhões Kz.

BNA vai libertar 140 mil milhões Kz com ajuste das reservas obrigatórias em divisas
Segundo o economista Porfírio Muacassange, essa medida apresenta um foco contraccionista para alcançar esforçadamente a meta de inflação estipulada para o ano económico de 2021, pelo que prevê que a vida das populações continuará mais apertada.

“Uma vez que a nossa economia ainda é muito vulnerável a choques externos, este substancial aumento do coeficiente das reservas obrigatórias poderá ter impacto directo na liquidez em moeda estrangeira dos bancos comerciais, fazendo com que haja uma redução na conta de bens na categoria de importações; redução da oferta de bens essenciais que impactam no Índice de Preços ao Consumidor (IPC), indicando possíveis aumentos de preços dos bens essenciais para as populações e uma possível continuação do cenário de depreciação da moeda nacional deteriorando ainda mais o poder de compra da população”, explicou.

“Esse tipo de medidas não promovem o crescimento económico por serem excessivamente restritivas, procurando salvaguardar dois indicadores que são a inflação e as Reservas Internacionais, fazendo vista grossa aos outros indicadores macro-económicos e sociais que promovem o bem-estar e levam a economia à verdadeira escada de desenvolvimento”, precisou.

Muacassange alerta que devido o contexto actual o banco central devia promover algum expansionismo das políticas económicas, isto é, “aceitando alguma inflação, através do quantitative easing para relançar a economia, promovendo o crescimento, aumento do nível de crédito e a geração de postos de trabalho”.

Nesta reunião o CPM decidiu também manter a taxa básica de Juro, Taxa BNA, em 15,5%, a taxa de juro da Facilidade Permanente de Cedência de Liquidez indexada à taxa de juro de mercado dos Bilhetes do Tesouro para 91 dias, acrescida de 0,5%, bem como a taxa de juro da Facilidade Permanente de Absorção de Liquidez com maturidade de 7 dias em 12%.

“Olhando para as decisões do Comité de Política Monetária (CPM), verificamos que a manutenção da Taxa de juros do BNA em 15,5%, sinaliza-nos que não é intenção da Política Monetária (PM) encarecer mais ainda o já escasso volume de crédito à economia”, disse Muacassange.

“Agora, fazer política monetária com a recorrente taxa de juros, parece-nos difícil promover o crescimento económico que tanto almejamos, na medida em que a taxa de juros BNA é uma das mais altas da região SADC e em comparação com outros países da União Africana” alertou dando como exemplos a África do Sul onde a taxa de referência do banco central é de 3,5%; Namíbia 3,75%; Botswana; 3,75%; Ruanda 4,50%; Moçambique 13,75%; RDC 3,25%)”.

Mercados não acreditam na nova meta de inflação do BNA


Após analisar o comportamento recente e as perspectivas dos principais indicadores económicos, o CPM reviu em alta a taxa de inflação para este ano, apontando agora para 19,5%, contra os 18,7% inicialmente previstos.

Em Março deste ano, depois da nonagésima sesta sessão ordinária do CPM, o governador do BNA, José de Lima Massano, disse que a subida da inflação está a ser provocada por restrições na oferta de produtos alimentares devido à seca e às dificuldades na importação, motivos que estão fora do alcance da política monetária. Os instrumentos de política monetária só são eficazes quando é a procura a fazer subir os preços.

De acordo com os dados avançados pelo BNA, o Índice de Preços no Consumidor Nacional (IPC) registou uma variação de 1,78% e 2,09% em Março e Abril de 2021, respectivamente, levando a inflação acumulada para 7,65% e a homóloga para 24,82% em Abril. “O aumento da inflação decorreu, fundamentalmente, do maior incremento na variação de preços da classe Alimentação e Bebidas Não Alcoólicas, reflexo do choque de oferta agregada de bens alimentares, justificado pela redução da oferta interna que não foi suficientemente compensada por importações”, explica o banco central.

Três dias antes da última reunião da semana passada do CPM, os economistas habitualmente consultados pela Bloomberg previam uma taxa de inflação de 22,5% em 2021, a qual deverá abrandar para 16% em 2022. Já as projecções da consultora Economist Intelligence Unit (EIU) apontam para uma taxa de inflação de 22,2%, este ano.

“O Kwanza estabilizou no final de 2020 e registou uma ligeira apreciação em Fevereiro e Março, mas um intervalo de tempo de vários meses entre as variações cambiais e os preços no consumidor. Como produtores e retalhistas repassam custos de importação para o consumidor, as pressões inflacionistas seguirão elevadas na primeira metade de 2021”, justifica a unidade da revista The Economist.

Segundo o economista Porfírio Muacassange, “do ponto de vista económico, o BNA ao incrementar a meta de inflação em 0,8 pp sinaliza que estava preocupado com o cumprimento da meta anterior. Sempre considerámos a meta de 18,7% uma meta bastante ambiciosa. Alguns organismos internacionais não se reviam na meta anterior nem se revêem na meta agora estipulada pelo BNA”.

“A revisão da meta em alta BNA poderia levar a pensar que está disponível para aceitar alguma inflação e libertar liquidez na economia, mas não é o cas. Se por um lado aumenta a meta de inflação, por outro agrava as medidas de contracção da liquidez no sistema”, explicou. Já o Economista Eliseu Vunge afirma que essa meta não vai se cumprir, apesar do optimismo do CPM.

“Há vários factores que poderão contribuir para que a meta não se cumpra. A inflação vai continuar a aumentar em função da forte dependência dos produtos importados. A depreciação do Kwanza também não vai ajudar, porque vai continuar a colocar pressão nos preços pagos pelos consumidores”, justificou.

“Cada dia que passa as coisas vão subindo mais, porque há um certo desajuste entre oferta interna que acaba por não ser suficiente para compensar a redução das importações. Essa situação vai continuar a pressionar os preços dos bens”, acrescentou.

“A forma como se está a secar a liquidez através dos instrumentos de política monetária parece-nos que o objectivo é mesmo alcançar a nova meta sem olhar para as consequências negativas que isto acarreta para o crescimento da economia”, rebateu Muacassange. MERCADO

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