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Segunda, 22 Mai 2023 12:21

Relação entre China e Angola está "em fase de afinamento" - académico

O investigador do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Oxford Rui Verde diz que as relações entre Luanda e Pequim estão numa "fase de afinamento", em parte devido à corrupção, mas rejeitou o enfraquecimento desta ligação.

"Há quem defenda que há uma diminuição, eu não defendo. Eu acho que está a haver uma reavaliação, um redimensionamento", começou por dizer à Lusa o académico, que se encontra em Macau para participar na conferência "China e Angola: Um Modelo para as Relações Sino-Africanas", promovida esta tarde pela Fundação Rui Cunha.

"Estou a comparar muito às situações semelhantes que aconteceram no século XIX com Inglaterra na América Latina, no século XX com os Estados Unidos em África, isto é, os países avançam para grandes investimentos, depois há uns que resultam, há outros que não resultam e, obviamente, as contas têm que ser feitas e reequacionadas", continuou, lembrando que o estreitamento da ligação entre Luanda e Pequim teve início "nos anos 2000, com a política 'going out' [internacionalização da economia chinesa] de Jiang Zemin", ex-Presidente chinês.

À Lusa, o académico notou a importância "desta reequação", que "tem de ser feita", até porque "em Angola, parte dos frutos desse investimento foram apropriados privadamente".

"Há vários processos criminais em Angola, o primeiro dos quais é o famoso contra os generais 'Kopelipa' [Manuel Helder Vieira Dias] e 'Dino' [Leopoldino Fragoso do Nascimento] e, segundo as autoridades angolanas, fala-se em vários biliões ou mil milhões de dólares de dinheiros que chegam da China e nunca foram parar aos cofres angolanos, foram parar aos cofres destes generais e de outras pessoas", contextualizou.

Neste sentido, apontou Verde, "o principal problema na relação de Angola é que houve uma privatização da relação".

"Parece um clichê, mas o combate à corrupção nos dois pontos terminais é fundamental. Isto aplica-se a toda a restante África, como é evidente. Julgo que têm que ser criados mecanismos de transparência para que não seja possível esta privatização das relações".

Vários sinais "do recomeço da relação China-Angola", agora "de uma forma mais madura", foram dados entre o final de 2022 e o início de 2023, considerou.

"A China vive muito de símbolos e um dos primeiros símbolos é que o novo ministro dos Negócios Estrangeiros chinês [Qin Gang], que tomou posse em dezembro passado, na primeira viagem que fez ao estrangeiro foi a Angola para anunciar mais empréstimos", lembrou, confirmando que o país é o maior devedor da China entre as nações africanas.

Na visita de Qin Gang a Luanda, foi assinado um novo acordo de financiamento, sob a forma de empréstimo concessional (com taxas de juro mais baixas e prazos de reembolso alargados), no valor de 249 milhões de dólares (229 milhões de euros), para financiar um projeto nacional de banda larga em Angola.

Verde lembrou também declarações recentes e "muito ativas do embaixador da China em Angola", além de "símbolos do investimento chinês" no país, como os projetos da barragem Caçulo Cabaça, na província do Cuanza Norte, e o aeroporto Agostinho Neto, em Luanda, com inauguração prevista para o final do ano.

O mais alto diplomata chinês em Luanda, Gong Tao, foi recebido a 15 de maio pelo Presidente angolano, João Lourenço, tendo abordado as relações bilaterais entre os países e sublinhado que estão “num bom período do seu desenvolvimento”.

“As nossas relações já deram frutos no passado e assim vai continuar a ser”, frisou.

Gong Tao notou igualmente que o crescimento das trocas comerciais atingiu no ano passado 27 mil milhões de dólares (25 mil milhões de euros), um aumento homólogo de 25%.

Angola é o segundo maior parceiro comercial da China em toda a África, logo depois da África do Sul e a China continua a ser o maior parceiro de Angola desde a última década, continuou o embaixador, acrescentando que há interesse em diversificar os produtos comercializados.

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