Quinta, 24 de Junho de 2021
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Quarta, 12 Mai 2021 17:27

O renascimento de uma gigante que tinha descido ao inferno de Isabel dos Santos

A empresária angolana, que tinha convertido a então falida Efacec numa multinacional lucrativa, tornou-se carrasca do grupo português, que voltou ao bom caminho com mão estatal.

Em novembro de 2015, a Efacec ganhava um CEO portista e habituado a correr 40 quilómetros por semana. Ângelo Ramalho tinha sido escolhido pela nova acionista maioritária da empresa, a angolana Isabel dos Santos, para dar depressa a volta a uma companhia que se encontrava numa situação financeira crítica, com prejuízos acumulados superiores a 100 milhões de euros e a necessitar de medidas excecionais de reforço de capitais próprios para sair de uma situação de falência técnica.

O maratonista Ramalho foi rápido a pôr a Efacec novamente em terreno positivo – o grupo que opera nos setores da energia, engenharia e mobilidade fechou o exercício de 2016 com lucros de 4,3 milhões de euros, tendo chegado aos 7,5 milhões no ano seguinte. Um resultado que praticamente duplicou em 2018, para 14,1 milhões de euros.

Nesse ano, no dia 5 de fevereiro, Isabel dos Santos tinha sido recebida de forma apoteótica na Efacec. Acompanhada pelo marido, o entretanto falecido Sindika Dokolo, e do então ministro da Economia, Caldeira Cabral, a empresária esteve naquela que foi a sua primeira presença num evento em Portugal após a sua exoneração de funções na Sonangol pelo sucessor do pai à frente da presidência de Angola.

O cerco a Isabel dos Santos começou a adensar-se. Atacada pelo governo angolano, antigos parceiros, supervisores, justiça, o abanão final que fez desmoronar o mundo da filha primogénita de José Eduardo dos Santos surgiu no início do ano passado, com a publicação da investigação jornalística Luanda Leaks, que expôs alegados esquemas financeiros da empresária que lesaram o erário público angolano em centenas de milhões de dólares.

Demora na saída de Isabel dos Santos sufoca a Efacec

“A publicação dos denominados Luanda Leaks, em meados de janeiro de 2020, desencadeou uma sucessão de reações que impactaram a relação da Efacec com os seus clientes, fornecedores e, em particular, com o sistema financeiro”, relata a administração no relatório e contas de 2020 da empresa, no capítulo sobre “O Luanda Leaks e a Nacionalização”.

A equipa de gestão liderada por Ângelo Ramalho garante que “procurou, desde o início” deste turbulento processo, “proteger ao máximo a empresa e os seus ativos, tendo solicitado formalmente, no dia 23 de janeiro de 2020, à acionista maioritária que, em benefício da empresa, colocasse a sua participação maioritária à venda e saísse da estrutura societária do grupo Efacec”.

O pedido da administração foi rapidamente satisfeito, tendo sido acompanhado pela renúncia dos representantes de Isabel dos Santos na companhia, incluindo a do então “chairman” Mário Leite da Silva. No entanto, “o quadro complexo de efeitos combinados de questões de ‘compliance’, quebra de confiança e de impacto reputacional” fez com que, “paulatinamente, os principais bancos de relacionamento da Efacec fossem dificultando a emissão de instrumentos de ‘trade finance’”.

Acresceram cortes na concessão de financiamento de tesouraria e redução dos limites de exposição das seguradoras de créditos à Efacec. Entretanto, em março do ano passado, é anunciado que a participação da empresária angolana na empresa seria vendida “a um investidor final num prazo de seis a 12 meses”. Mas nada aconteceu nos meses seguintes, “protelando o levantamento do bloqueio do sistema financeiro e reforçando o estrangulamento operacional da Efacec”, conta a administração da companhia, no mesmo documento.

Passado meio ano sobre a eclosão do Luanda Leaks, “tornou-se mais difícil serenar fornecedores, que começaram a exigir condições mais gravosas com receio sobre os seus créditos, e clientes que começaram a proceder ao cancelamento de contratos já adjudicados”. Para desbloquear a situação, a administração lançou, há precisamente um ano, um processo com vista à apresentação de manifestações de interesse e propostas não vinculativas de aquisição dos 71,73% de Isabel dos Santos.

No final de junho, quando já contabilizava uma dezena de ofertas, “a inexistência de um acordo entre todas as partes interessadas”, a que se somava os efeitos da pandemia da covid-19, “ameaçou, de forma quase irreversível, a sustentabilidade da empresa”, admite a sua administração.

Uma situação que determinou a intervenção do Estado português, que viria uma semana depois, a 2 de julho, a aprovar o decreto-lei para nacionalizar a posição acionista da empresária angolana na Efacec. Com o respaldo público, a companhia firmou um empréstimo bancário, com garantia estatal, de 70 milhões de euros. A nacionalização permitiu à Efacec o acesso a financiamento e liquidez para inverter o ciclo negativo de tesouraria “e repor” a empresa “de volta ao caminho da normalidade”, conclui.

Operacionais positivos após prejuízos de 73 milhões

E assim aconteceu. Depois de ter acumulado prejuízos superiores a 100 milhões de euros nos dois últimos exercícios, com as vendas a recuarem 39% em 2020, para 216 milhões de euros, tem registado uma evolução positiva nos últimos tempos.“O resultado operacional do [primeiro] trimestre [de 2021] será marginalmente positivo – embora abaixo do planeado, assinala o segundo trimestre consecutivo de resultados operacionais positivos, depois de sete trimestres consecutivos de resultados operacionais a cair, dos quais quatro consecutivos de resultados substancialmente negativos”, revelou recentemente o CEO da empresa ao Negócios.

O Governo selecionou agora cinco de entre 10 propostas para avançarem no processo de reprivatização da Efacec. Antes, ao Negócios, Ramalho tinha cerrado fileiras: “O processo de reprivatização que está em curso não nos deve distrair, nem condicionar a nossa atividade.”

71,7%
CONTROLO ESTATAL
Está em curso a venda de 71,73% da Efacec, posição que era de Isabel dos Santos e foi nacionalizada. 

2.350
TRABALHADORES
A Efacec, que tem José de Mello e a TMG como acionistas minoritários, emprega atualmente cerca de 2.350 pessoas.

73,3 PREJUÍZOSA
Empresa registou prejuízos de 73,3 milhões de euros em 2020, ano em que faturou 216 milhões.

Jornal de Negócios

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