Segunda, 16 de Março de 2026
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Segunda, 16 Março 2026 17:57

Poderá Ana Dias Lourenço tornar-se um trunfo para a oposição em Angola?

Mudanças no MPLA geram especulações sobre a sucessão de João Lourenço na Presidência da República de Angola - sobretudo depois de a primeira-dama, Ana Dias Lourenço, ter sido integrada no Bureau Político do partido.

Várias mexidas no Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA, partido no poder) estão a sustentar especulações sobre a sucessão de João Lourençona Presidência da República.

No 9.º congresso do MPLA foi tomada a decisão de colocar a primeira-dama, Ana Dias Lourenço, na cadeira deixada vaga depois da morte, em dezembro passado, do ex-presidente da Assembleia Nacional, Fernando Dias dos Santos "Nandó", no Bureau Político do partido.

Será que existem planos para colocar Ana Dias Lourenço, como testa de ferro do marido, na Presidência da República?

Sucessão familiar ou dinástica?

Muitos interpretam o facto como um movimento estratégico de João Lourenço para fortalecer a posição da sua esposa, preparando-a para ser cabeça de lista do MPLA e Presidente da República em 2027.

Alguns analistas veem nisso um passo para uma possível "sucessão familiar" ou dinástica.

Note-se que Ana Dias Lourenço já tem longa militância no partido, foi deputada e ocupou cargos governativos, foi ministra do Planeamento entre 2010 – 2016, e foi também representante de Angola no Banco Mundial, em Washington, de 2016 a 2017, antes de se tornar primeira-dama.

Lourenço quer alguém que lhe "ofereça segurança"

Para Nelito Ekuikui, secretário-geral do braço juvenil da UNITA, na oposição, a discussão em torno da primeira-dama reflete bem o clima de especulação e desconfiança em que, alegadamente, se move o Presidente João Lourenço.

"Colocar a esposa a ocupar a vaga do ex-presidente da Assembleia Nacional é uma jogada do chefe de Estado. Não creio que já seja certo que ela vai ser a cabeça de lista do MPLA, mas tudo é possível neste momento. Ele vai provavelmente optar por quem vai efetivamente lhe oferecer mais segurança", afirma o representante da UNITA em entrevista à DW África.

Lourenço afirma que não aspira a terceiro mandato

João Lourenço tem reiterado publicamente que não pretende concorrer a um terceiro mandato presidencial em 2027, respeitando os limites constitucionais (de dois mandatos de cinco anos). Ele desafiou o partido a encontrar um novo líder, defendendo inclusive a ideia de um sucessor mais jovem.

No entanto, há uma perceção generalizada de que ele mantém um controlo apertado sobre o processo, com desconfiança em relação a potenciais rivais internos.

"A minha convicção é que o Presidente João Lourenço [...] vive vários medos e esses medos não lhe permitem, de uma maneira natural, construir uma história democrática dentro do seu partido para a sucessão", comenta Nelito Ekuikui, da UNITA.

"Primeira-dama está conotada com a fome"

Não há confirmação oficial de que Ana Dias Lourenço será a candidata do MPLA, mas o "timing" e o contexto alimentam essa narrativa, refere Tchizé dos Santos, filha do ex-Presidente José Eduardo dos Santos e antiga deputada no Parlamento de Angola pelo partido MPLA .

Ana Dias Lourenço como candidata do MPLA à chefia do Estado seria, para Tchizé dos Santos, "meio caminho andado" rumo à vitória da UNITA em 2027.

"Espero que os camaradas do Bureau Político e do Comité Central do MPLA saibam que, se a Ana Dias for a candidata à Presidência da República pelo MPLA, isso é uma oferta de bandeja do poder à UNITA. O MPLA vai estar a oferecer de bandeja a Presidência da República a Adalberto Costa Júnior. Porque Ana Dias está conotada a 100% ao legado de João Lourenço, ao legado da fome [...] que todo o mundo está a sentir no estômago", afirma Tchizé dos Santos, que atualmente reside fora de Angola, mas observa atentamente os acontecimentos no seu país e no partido que o seu pai dominou durante décadas.

Tchizé dos Santos adianta: "Angola está hoje na lista dos países piores países do mundo para se viver e para ter crianças, é um dos países do mundo com mais pobreza. [...] É uma vergonha para todos nós. Então, já sabem: Se quiserem dar a vitória nas eleições à UNITA e a Adalberto Costa Júnior, é só apoiarem a candidatura da Sra. Ana Dias Lourenço."

 "Boa notícia" para a oposição?

Nelito Ekuikui partilha a opinião de Tchizé dos Santos: Colocar Ana Dias Lourenço como candidata do MPLA à Presidência da República seria uma boa notícia para a oposição, uma vez que a primeira-dama goza de pouca popularidade, a par do seu marido, afirma o representante da UNITA.

"Para a eventualidade dela ser a candidata do MPLA, penso que não é uma preocupação para a UNITA, porque a UNITA representa a esperança de Angola. Basta andar pelo país, pela Angola profunda e pelos centros urbanos: É visível que a UNITA representa hoje a esperança dos angolanos. Qualquer um que venha a ser um candidato do MPLA, a UNITA está em condições de o vencer."

O congresso ordinário do MPLA está previsto para dezembro de 2026. João Lourenço tem insistido que o candidato (ou cabeça de lista) só será definido aí, conforme os estatutos.

Nomes como Higino Carneiro (que manifestou intenção de concorrer), Manuel Homem, Adão de Almeida ou outros veteranos surgem em especulações, mas a entrada de Ana Dias Lourenço no Bureau Político do MPLA relançou o debate sobre uma opção "segura" para o atual líder. O congresso, em dezembro, será decisivo. DW Africa

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