Quinta, 09 de Dezembro de 2021
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Domingo, 17 Outubro 2021 10:34

Movimentos que reivindicam independência das Lundas, não têm legitimidade – Rafael Marques

O ativista e jornalista angolano Rafael Marques defende que os movimentos que reivindicam a autonomia das províncias das Lundas não têm qualquer legitimidade e não trazem benefícios às populações locais.

Rafael Marques de Morais falou à Lusa a propósito do lançamento do seu livro “Magia e Miséria: Revolta em Cafunfo”, uma investigação sobre os incidentes trágicos de 30 de janeiro, em que várias pessoas morreram durante confrontos com a polícia numa manifestação organizada pelo Movimento do Protetorado Português da Lunda Tchokwe (MPPLT)

“Não assiste aos líderes do movimento qualquer legitimidade, do ponto de vista histórico, para reclamar a independência das Lundas (províncias do norte de Angola). Nunca houve um reino Lunda Tchokwe, houve sim um reino Lunda que foi destruído por agressão pelos Tchokwe”, justificou.

A destruição da capital do reino Lunda ocorre com a penetração colonial, coincidindo com a chegada de Henrique Carvalho, o enviado português à corte Lunda, que celebra a 02 de setembro de 1886 o que Rafael Marques descreve como “tratados fictícios” que não foram assinados nem validados pelo então rei Lunda, Xá Madiamba.

“Todos esses líderes são Tchokwe, não são Lunda. São os descendentes dos invasores que agora reclamam a legitimidade de ser herdeiros legítimos do reino que eles destruíram, não faz sentido absolutamente nenhum”, salientou o jornalistas em entrevista à Lusa.

Para Rafael Marques, “a grande responsabilidade é do governo do MPLA que nunca se preocupou com a história e sempre adulterou também, de uma certa maneira, para beneficio próprio, a história de Angola.

A independência das províncias angolanas da Lunda Norte e Lunda Sul é reclamada por duas organizações: o MPPLT, que promoveu a manifestação em que morreram mais de uma dezena de pessoas, liderado por Zecamutchima (atualmente preso); e o Manifesto Jurídico Sociológico do Povo Lunda-Tchokwé, de Jota Filipe Malakito.

No livro que analisa os acontecimentos de 30 de janeiro que vai ser lançado na próxima segunda-feira em Cafunfo, Rafael Marques usa o enquadramento histórico para refutar estas pretensões, concluindo: “Em finais do século XIX, os Tchokwe invadiram os Lunda, terminando com o seu antigo reino. A parti daí, o que existe são construções ou reconstruções efetuadas pelo poder colonial a fim de garantir seu domínio”.

Na obra faz também referencia às dificuldades que encontrou quando fazia investigação no terreno e que lhe foram colocadas pelos líderes do MPPLT.

Aponta em concreto a “extraordinária rede de informantes, intrigas, desinformação e calúnias” que o secretário geral do MPPLT, Fernando Muaco conseguiu gerir em Cafunfo, com apoio de políticos da oposição e ativistas sociais para “impedir a todo o custo a continuidade da investigação”

O jornalista e ativistas sublinha, por outro lado, que “em circunstância alguma as comunidades locais encontram alívio ou esperança no MPPLT e que as manifestações que tem sido organizadas pelo Movimento ignoram as reivindicações elementares da população sobre a falta de empregos , o estado das estradas, a questão das ravinas, etc.”

No dia 30 de janeiro, confrontos entre a polícia e manifestantes do MPPLT deixaram em Cafunfo, uma vila mineira da Lunda Norte, rica em diamantes, mas com elevados níveis de pobreza, um número indeterminado de mortos.

Rafael Marques estima que terão morrido 13 pessoas, enquanto os números oficiais apontam para 6 mortos e membros da comunidade local ouvidos na altura dos incidentes contabilizaram mais de 20 vítimas.

As versões divergiram também quanto aos objetivos da marcha, entre os que garantem que se tratava de uma manifestação pacífica e o relato das autoridades angolanas que descreve uma tentativa de invasão da esquadra local e um atentado contra a soberania de Angola.

Rituais de magia fomentaram violência em Cafunfo

Quase nove meses depois dos confrontos em Cafunfo que fizeram vários mortos na vila mineira de Angola, o ativista e jornalista Rafael Marques lança um livro em que explica como a crença na magia contribuiu para a violência dos acontecimentos.

Rafael Marques de Morais, autor do site Maka Angola e com diversos livros publicados sobre a situação nas províncias das Lundas, passou mais de 40 dias no terreno e entrevistou mais de uma centena de pessoas para esclarecer os incidentes de 30 de janeiro de 2021, quando várias pessoas perderam a vida em confrontos com a polícia durante uma manifestação organizada pelo Movimento do Protetorado Português Lunda Tchokwe (MPPLT).

Muitos dos participantes da marcha acreditavam ser imunes aos ferimentos e à morte, devido aos rituais mágicos realizados pelos organizadores e chefes do movimento antes da manifestação.

Sem se pronunciar sobre os vários relatos sobre os acontecimentos, também díspares no que diz respeito à contagem das vítimas – as autoridades oficiais dizem que se tratou de um ataque à esquadra local e contam seis mortes, membros da sociedade civil consideraram que se tratou de uma manifestação pacífica e apontaram mais de 20 mortos, - Rafael Marques de Morais avançou para a sua própria investigação.

Concluiu que morreram durante os confrontos 13 pessoas, outras 16 ficaram feridas (incluindo uma criança de nove anos) e seis estão desaparecidas, mas admite que os números não são definitivos, pois tratou-se de “uma situação muito confusa”.

“Eu passei meses a investigar, não sei como no dia seguinte as pessoas tinham números conclusivos”, declarou em entrevista à Lusa.

No livro “Miséria & Magia”, que vai ser lançado no dia 18 de outubro em Cafunfo (Lunda Norte) expõe a forma como o contexto de pobreza nesta província rica em diamantes, em que nove em cada dez pessoas são pobres, e a ausência do Estado contribuíram para a radicalização dos manifestantes que, a 30 de janeiro, avançaram contra a polícia convictos de que a magia os protegeria das balas.

Através da recolha de testemunhos, Rafael Marques estabelece uma cronologia detalhada e descreve como os rituais de magia e “preparações botânicas” revelam “uma prática de mobilização e controlo de massas, de incitação à violência e de tomada de poder político através de uma justificação tradicional”

O investigador e ativista concluiu assim que “os rituais de magia ocuparam um lugar instrumental na mobilização de massas, sobretudo de camponeses, como um comando do poder tradicional contra a ordem político-constitucional”.

“Os participantes sentiam-se com extraordinários poderes para confrontar, com violência, as forças de defesa e segurança”, escreve Rafael Marques, acrescentando que com estes rituais, os chefes do MPPLT consolidaram o seu poder junto das massas, em Cafunfo.

“A manifestação não foi pacífica”, disse à Lusa Rafael Marques de Morais, realçando que a crença na magia levou a que houvesse grande propensão para a violência por parte dos manifestantes.

Durante vários dias, os manifestantes que estavam também convencidos de que o mundo assistiria em direto à sua marcha, via satélite, procederam a intensos rituais de magia para se “blindarem”.

“Muitos acreditaram nisso, iam empolgados. Com a magia não podiam comer, tinham de observar abstinência sexual e uma série de rituais. Obviamente que muitos deles foram marchar com fome e passaram a madrugada toda em rodas de dança. Já se vê o estado de espírito em que se encontravam quando houve toda aquela confrontação e quando começaram os tiros. A ideia é que não se pode recuar, não se pode voltar atrás porque a magia fica sem efeito, tem de se avançar contra as balas”, descreve o jornalista e ativista.

Durante a noite, os manifestantes entoaram cânticos mágicos, mas também orações cristãs, e muitos pernoitaram nas imediações da esquadra de polícia sem serem detetados.

Pelas 04:30 da manhã, recebem a informação de que o satélite já está a filmar. Empunhando paus, fisgas, arcos e flechas, catanas e outros objetos cortantes avançaram contra a esquadra.

O inspetor-chefe Alfredo Hebo “23”, da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) é o primeiro a cair. Esfaqueado nas costas e nas nádegas e agredido à catanada na cabeça é dado como morto e deixado no chão.

Segue-se a confusão. A polícia tenta inicialmente dispersar a multidão com gás lacrimogéneo e balas de borracha, sem sucesso. Sucede-se um tiroteio e a morte do primeiro manifestante, Borges Mauanda, que terá sido atingido com um tiro na nuca.

Os confrontos continuam noutras barreiras das forças de segurança com agentes e manifestantes a usarem magia contra magia. Alguns dizem ter voado do local dos tiros e ter sobrevivido graças à “botânica”.

No final de algumas horas, treze pessoas estavam mortas e muitas outras, feridas, fogem para as matas para encontrar refúgio.

No livro, Rafael Marques enuncia os fatores que levaram a este desfecho: “Ignorância, miséria, negligência e incompetência política são a argamassa para a radicalização sangrenta a que se assistiu em Cafunfo, aproveitada por política e intransigência, cujos resultados só podem ser funestos”.

Deixa também um conjunto de recomendações que passam, sobretudo, por intervenções que favoreça o crescimento económico autossustentado, a educação e a saúde com envolvimento do Estado, sociedades mineiras e comunidades locais.

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