Quarta, 26 de Janeiro de 2022
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Segunda, 04 Outubro 2021 00:19

“O MPLA está em Guerra Civil e João Lourenço precisa de cortar algumas cabeças”

Como é que estás a ver a situação política em Angola?

Olhe, sou angolano, sou um optimista. E se há um traço comum entre os angolanos, é este optimismo. Eu acho que um lado positivo, é que se criou em Angola uma dinâmica de abertura. Com a ascensão do novo líder da UNITA, Adalberto (Costa Júnior), que é um homem aberto, na verdade um excelente líder político, se a UNITA melhora, o MPLA é obrigado a melhorar também e a abrir o campo democrático para não perder o apoio da Sociedade Civil. Então, neste sentido, vejo com optimismo essa dinâmica política e depois, todos nós sabemos que a situação económica não é boa, que a população está a passar por grandes dificuldades e esta pandemia global não facilitou ao Estado, o próprio partido no poder, mas, no cômputo geral, vejo com optimismo a situação política em Angola.

Depois daquela manifestação do último fim-de-semana (11/09), com aquelas trocas de comunicados entre os dois partidos, chega José Eduardo dos Santos, o antigo Presidente. Isto pode, de alguma forma, representar algum tipo de ruído na política nacional, de tão tensa que ela já está?

Isto é verdade! Este clima de pré-campanha eleitoral que se instalou é negativo, porque houve um tempo, depois que João Lourenço chegou ao poder, em que houve uma certa descomprensão política e as pessoas passaram a reagir umas com as outras de forma mais democrática e mais urbana. Depois voltou-se um pouco atrás com esta pré-campanha eleitoral e esta chegada do presidente José Eduardo dos Santos não vai augurar nada de bom, porque, em princípio, vai reforçar estes antagonismos presentes na sociedade. Também não vejo muito bem em quê é que o partido no poder lucra com a chegada de José Eduardo dos Santos. O actual presidente, João Lourenço, parece que o único caminho que lhe resta é não perder o apoio da Sociedade Civil e, por conseguinte, ganhar as eleições de forma justa e manter acesa essa ideia de que está a combater a corrupção. Se chega alguém como José Eduardo dos Santos, não me parece muito bem como é que o MPLA reagirá a isto porque, se estender a mão ao ex-presidente, estará a estender a mão à corrupção, porque a verdade é que José Eduardo dos Santos foi sempre o epicentro da corrupção e, por outra, se não estender a mão e hostilizá-lo, estará a incentivar a Guerra Civil no seio do próprio partido (MPLA). Então, não se percebe muito bem em que é que isto favorece o presidente João Lourenço e o MPLA. Parece exactamente o contrário, parece que isto favorece a oposição. Portanto, se formos muito perversos, podemos pensar que esta foi uma jogada de José Eduardo dos Santos, foi tentar enfraquecer o presidente João Lourenço e fortalecer a UNITA. Isto é, se quisermos ser maquiavélicos.

Vamos lá colocar isso de maneira diferente: Dentro de uma estratégia política do próprio MPLA, é possível fazer-se um aproveitamento da presença de José Eduardo dos Santos numa outra perspectiva?

Eu acho muito difícil que o MPLA ganhe em termos de apoio popular com esta situação. É verdade que existem em Angola muitos saudosistas. Há pessoas que têm saudades do presidente José Eduardo dos Santos e acham que naquela época havia mais comida, por exemplo. É verdade que a situação se degradou mas também, é um facto que a situação está assim não por responsabilidade do presidente João Lourenço, mas devido às condições globais, nomeadamente, esta situação da pandemia. Eu não consigo ver, sinceramente, como é que vá ajudar. Acho é que vai jogar petróleo na fogueira, vai reforçar este ambiente de Guerra Civil dentro do próprio partido, não vai pacificar o partido ou, se, eventualmente, se fizesse essa aliança que algumas pessoas dizem que pode acontecer, entre o presidente João Lourenço e o ex-presidente José Eduardo dos Santos, isto seria muito mau para a imagem do actual presidente, para a imagem do MPLA, em termos do combate à corrupção. Portanto, não percebo em que é que isso possa ajudar o MPLA, a longo prazo.

Acha que a vinda de José Eduardo dos Santos a Angola tem alguma mensagem subterrânea? Conhecendo como o conhecemos, ele aproveita eventualmente, uma fase que ele entende que pode ser de maior fragilidade de João Lourenço desde que chegou ao poder?

Pode ser também que o presidente José Eduardo dos Santos entenda que esta é uma boa oportunidade para negociar, uma vez que do outro lado, há uma certa fragilidade. Neste ponto de vista, sim. Isto servirá os interesses de José Eduardo dos Santos e da sua família. Para o MPLA interessa manter o seu eleitorado. Não me parece que consiga. Agora, pode ser que essa chegada seja para defender os interesses pessoais do antigo presidente e da sua família. Isto é outra situação e faz sentido. Mas, a longo prazo, isso não beneficia o MPLA.

A probabilidade de João Lourenço e José Eduardo dos Santos se encontrarem, que proveito terá isso?

Se se encontrarem, se houver um encontro oficial, com divulgação pela imprensa…

O que seria normal…

Sim, seria normal um encontro.  Mas a acontecer, isto enfraquece politicamente o presidente João Lourenço. Agora, pode-se cumprir esta agenda – secreta de José Eduardo dos Santos – que é negociar a sua situação e a da sua família, porque não vejo como é que isso beneficia a imagem do MPLA no combate à corrupção ou ao presidente João Lourenço. Não beneficia, não. Pode apaziguar o partido porque, este está em Guerra Civil. Mas esse apaziguamento interno, não me parece que a médio ou, a longo prazo, até às eleições, venha a beneficiar a imagem de João Lourenço, venha acrescentar eleitorado ao MPLA.

Olhando para a relação entre José Eduardo dos Santos, João Lourenço e o MPLA, além da corrupção, o que é que terá corrido mal e que impediu que tivesse havido uma relação sadia entre estas três instituições?

Acho que precisamos estabelecer um distanciamento histórico para avaliar exactamente o que se passou. Na verdade, não sabemos o que é que levou João Lourenço a romper de forma tão abrupta com o antigo presidente. Pode ser que João Lourenço seja genuíno na sua intenção de combater a corrupção. Pode ser que não, ou pode ser a maneira que ele tinha de conseguir espaço político para se afirmar; que ele tivesse pensado que esta ruptura era necessária (e era de facto) porque a verdade é que, logo após à sua eleição, conseguiu um grande apoio da população e esse apoio popular, não há dúvida nenhuma, obteve-o ao romper com o ex-presidente e com a sua família. Apareceu como o grande combatente contra a corrupção e se foi uma estratégia ou se foi genuíno, não sabemos. Se ele acredita genuinamente na democracia e acredita genuinamente que é importante combater a corrupção, nós não sabemos. Não temos dados para afirmar isso, nem num sentido, nem no outro. Como sou optimista e como não se deve julgar negativamente as pessoas sem provas, eu prefiro acreditar que o presidente João Lourenço é autêntico e que a sua fé na democracia é autêntica e que a sua fé no combate à corrupção é autêntica.

Esta afirmação do presidente João Lourenço que dizes que qualquer  analista de política nacional está de acordo, é ofuscada, digamos, pelos resultados deste combate à corrupção?

Sim, evidentemente. Vamos dizer que João Lourenço começou bem, mas depois não continuou. Não houve uma continuidade porque, em Angola toda a gente sabe quem é que está no centro da corrupção. E a maioria dessas pessoas não foi sequer, pelo que saibamos, incomodada. Portanto, aparentemente, houve uma hesitação, houve um desaceleramento neste combate. É verdade também que João Lourenço herdou todo um aparelho corrupto, todo aparelho do MPLA estava ligado, de uma forma ou de outra, à corrupção ao longo de décadas e, ele teria que negociar sempre ou seria cilindrado neste processo. Aqui também, acho que é preciso dar-lhe algum espaço, o benefício da dúvida, e é verdade que todos nós em Angola sabíamos que essa ruptura era necessária. A população angolana está descontente porque viu que o combate à corrupção não foi avante e viu as suas condições a degradarem progressivamente. Se a situação económica estivesse muito bem, se as pessoas, os angolanos de uma forma geral, se sentissem bem, não estariam sequer preocupados. As pessoas não estão bem e custa muito saber que há situações de fome no País, graves e ao mesmo tempo saber de casos de corrupção, pessoas que desviam mil milhões de dólares como até aqui, dinheiro esse que deveria ser utilizado para o combate à pobreza, construir estruturas de saúde, de educação, etc., etc..

No último programa “Conversas Entrecruzadas” fiz uma afirmação de que o MPLA ou o seu Governo, está demasiadamente concentrado na UNITA e está a se esquecer daquilo que é essencial, que é governar; que é prestar atenção a estas questões da fome, da pobreza, saúde, educação. Não acha que numa altura como esta, em ano pré-eleitoral deveria de facto, prestar menos atenção a estas questões de disputa política com a UNITA e governar mais?

Sem dúvida! O problema é que existe em Angola uma obsessão pelo poder e nunca tivemos alternância. As democracias só se confirmam, a sua vitalidade só se confirma com alternância. Nós olhamos para Cabo Verde, onde em todos esses anos de democratização tem havido alternância, onde os partidos políticos têm se alternado no poder. Em países assim, não existe esta obsessão tão acentuada, quer dizer que a possibilidade de perder está lá e as pessoas aceitam que podem perder e quando a pessoa aceita que pode perder, talvez não esteja tão focada em combater o adversário político, esteja mais focado em cumprir as suas propostas, os seus objectivos de Governo. Acho inclusive que o presidente João Lourenço, enquanto pessoa, enquanto estadista, sairia a ganhar a longo prazo se o MPLA perdesse as eleições e se ele soubesse aceitar essa derrota e fazer a transição, fazer a alternância. Ele sairia bem e sairia como um homem que democratizou verdadeiramente o País, que cumpriu esse papel para a alternância democrática. Porém, sei também que é difícil aceitar isto, mas espero que o presidente João Lourenço compreenda isto: se tiver que ganhar, que seja com Justiça e que se perder, saiba aceitar e perceber que esta derrota, pode ser uma vitória.

Quando o presidente João Lourenço  disse em Barcelona, antes de tomar posse, que se considerava um reformista, a primeira impressão com que se ficou é que ele estava a referir-se a questões económicas.  Não tendo havido estas reformas na área económica, porque a COVID-19 obstou, a baixa do preço do petróleo não ajudou e mesmo algumas medidas internas não resultaram para que pudessem devolver a esperança aos angolanos, tendo dito que não se revia em Gorbatchov, estando mais próximo a Deng Xaoping…

Estas declarações foram infelizes e, se ele foi autêntico, se ele percebeu o que estava a dizer, então não deixa grandes expectativas, infelizmente. Espero que ele não tenha dito isso em consciência. Mais uma vez, o que eu posso dizer é o seguinte: acredito realmente que o presidente João Lourenço está entre a espada e a parede, porque ele dificilmente pode recuar, porque se recuar, vai acabar sendo devorado pelo seu próprio partido (MPLA), porque criou inimigos de estimação, que não lhe vão perdoar aquilo que ele lhes fez e, a única alternativa é avançar, é avançar para o campo da democratização e no campo do combate à corrupção, que são aqueles campos que ainda lhe podem garantir apoio popular e, até uma possível vitória porque, se neste espaço que falta, mesmo não tendo grandes resultados governativos, o combate à corrupção avançasse de forma satisfatória, se víssemos pessoas grandes serem presas e julgadas, tenho a certeza que muitas pessoas que hoje estão a pensar em votar na UNITA, votariam no MPLA; inclusive porque a grande mais-valia da UNITA é a incógnita; nunca ter governado e que é uma vantagem. É uma vantagem porque, acredito, a maior parte dos dirigentes da UNITA, são menos corruptos porque aqueles que eram corruptos, já saíram, já aceitaram os tostões do regime. Portanto, os que ficaram, genuinamente, não são corruptos. Essa é a mais-valia da UNITA

Agora em termos governativos, será que a UNITA nos conseguiu convencer que tem quadros para governar e de que tem propostas para governar melhor que o MPLA? Até agora, não vi isso. Por exemplo: no meu campo, que é a cultura, eu nunca ouvi a UNITA apresentar uma proposta que fosse alternativa real à alternativas que também o MPLA não tem. Também nunca as soube mostrar e então, tenho dúvidas que em termos governativos, que a UNITA fosse melhor que o MPLA. Agora, no combate à corrupção, que já é uma coisa muito importante, eu acredito que sim, que seria. Se entretanto João Lourenço mostrar que pode fazer melhor e que está a fazer isso de coração, se nós virmos resultados no combate à corrupção, aí, muita gente que pensa votar na UNITA, acho que poderia mudar de opinião porque, acho que o MPLA ainda tem possibilidades de ganhar de forma legítima, mas para isso, João Lourenço tinha que saber avançar no campo da democracia e no campo do combate à corrupção; precisaria de pôr ordem no próprio partido (MPLA), precisaria de afastar aquelas pessoas que, durante décadas, estiveram ligadas à corrupção e aquelas pessoas que durante décadas estiveram ligadas ao pior do regime totalitário e que mostraram autenticamente não acreditarem na democracia e sempre tiveram postura totalitária.

Quando te referes a estas questões de corrupção, não é apenas corrupção financeira e económica mas também da própria corrupção da política nacional e estes, ainda estão lá.  O facto de o presidente João Lourenço, por exemplo, ter devolvido aquela matéria legal sobre as eleições à Assembleia Nacional, terá conseguido fazer uma leitura correcta das reacções do espaço público e…

Isto é verdade. São gestos que de alguma forma me trazem uma certa esperança, sim, porque vêm de encontro àquilo que estou a dizer, que nos dizem que ele tem noção de que precisa ampliar a sua plataforma de apoio e que precisa disso para a sua própria sobrevivência dentro do partido. Ele não tem alternativas, por isso, acho estranha esta visita do ex-presidente porque isso, a meu ver, neste momento, José Eduardo dos Santos seria o pior inimigo do presidente João Lourenço, não é o Adalberto (Costa Júnior). É o pior inimigo. O pior inimigo de João Lourenço é José Eduardo dos Santos.

Nada que não fosse previsível, não?

Nada que não fosse previsível, exactamente. Agora, às vezes, nós também estamos a fazer análises e depois não é nada disto, são coisas muito mais simples, não sei. Até pode ser que José Eduardo dos Santos tivesse saudades dum bom muzongué… (risos)

Não acha que um encontro entre os dois, primeiro, tinha que se esclarecer o objectivo da visita de José Eduardo dos Santos  a Angola e por outro  clarificar-se de facto, a relação entre os dois? Podemos fazer este tipo de leitura?

Podemos. A verdade é que José Eduardo dos Santos representa uma instituição, é um ex-presidente. O encontro entre o actual e ele é possível neste contexto democrático, de diálogo, mas a percepção que ficará é que estará a haver um acordo entre o João Lourenço e o epicentro da corrupção. Esta percepção não poderá deixar de existir. Não há maneira. Se eu próprio, um cidadão comum, amanhã for visto a almoçar com o presidente José Eduardo dos Santos ou com Isabel dos Santos, o que é que as pessoas vão pensar? É difícil fazer uma outra leitura. Se amanhã, você for convidado para jantar com a Isabel dos Santos, você vai?

 Eu já jantei com ela (risos).

 Ai é? Ah, bom, você é jornalista, tem propósitos jornalísticos, mas, imagine um cidadão comum, um empresário, a leitura será certamente diferente, política. Não será favorável a essa pessoa neste momento. A Isabel dos Santos, hoje, é uma entidade radioactiva, se alguém está com ela, é aceitar a corrupção. Eu fico sempre surpreendido com a quantidade de seguidores que ela tem no Instagram, de amigos que comentam, fazem comentários, etc. Eu consigo, por exemplo, entender a empatia que possa existir pela tragédia que aconteceu com ela, a perda do marido, tudo isso mas, acho que quem apoia dessa forma, inclusive com likes, coisas tão simples como estas, está a apoiar a corrupção e há uma coisa estranha nisso: então você foi roubado durante anos, não foi roubado pouco, porque aquilo que a Isabel dos Santos tirou, tirou de todos angolanos, quer dizer, houve escolas que não foram construídas, pessoas que morreram por causa da ambição desta mulher. Não há outra leitura possível em relação a isto. Não há! Eu consigo entender a empatia, também simpatizo com ela como pessoa, mas não consigo olhar para ela e não perceber que está ali a pessoa mais corrupta do país e que devido à corrupção dela, devido à atitude dela houve pessoas que não estudaram, que morreram de doenças que podiam não ter morrido e essas acções são criminosas. Não é que ela enriqueceu somente, ela retirou o dinheiro que poderia ter sido aplicado para a melhoria da condição dos angolanos.

Deixa-me recuar um pouco, quando refere à posição do presidente João Lourenço entre a espada e a parede, que é uma situação extremamente complicada para a situação dele. Colocando o facto de ele estar numa situação tão complexa como é a actual, deixando que o processo fosse transparente, a UNITA ganhasse, o MPLA perderia força para fazer fosse o que fosse contra João Lourenço?

Eu acho claramente que o MPLA iria sofrer um processo de purga, quem sabe, poderia ressuscitar mais tarde, de uma forma muito mais a ver com o seu programa. Não há dúvidas que quando o MPLA surgiu, era o MPLA do Mário e Joaquim Pinto de Andrade, do Gentil Viana, Viriato, etc., era um movimento muito generoso, que tinha um programa muito idealista e eles podem recuperar este património. Então, acho que se o MPLA passasse para a oposição, isso poderia ser bom para o partido e bom para Angola, a longo prazo. Depois disso, mais tarde, o MPLA poderia retomar o poder numa outra condição, já purgado de todos esses elementos que, na realidade, nunca acreditaram nesse programa original, embarcaram no partido por oportunismo. Quantos militantes de alto nível do MPLA, realmente acreditam no programa do partido e quantos são oportunistas? Todos nós sabemos o peso dos oportunistas naquele partido é imenso e só existe porque o partido está no poder desde a independência. Sou daqueles que acredita que se o MPLA perdesse, soubesse aceitar a derrota, seria bom para eles, seria uma espécie de refundação. O MPLA perderia todo esse peso, dos oportunistas que durante esse tempo todo se agarraram àquela estrutura para sugar, retomaria o projecto original e poderia ressurgir como um grande partido, limpo e preparado para ganhar eleições e conduzir mais uma vez o país.

Quando olhamos para UNITA, percebe-se que tem uma espécie de ideário e que qualquer militante fala de Muangai. No MPLA, referências destas foram completamente diluídas…

Sim. Devem-se contar hoje pelos dedos das mãos, aquelas pessoas que estão no partido e que estão lá realmente por acreditarem na ideologia original, nas propostas originais que defendem aqueles ideais de solidariedade, de Justiça Social, etc., que o MPLA defendia na sua origem. Mas atenção, em relação à UNITA, da mesma forma que o MPLA, se calhar, precisa se distanciar da sua história totalitária, dos seus líderes totalitários. Da mesma forma, a UNITA precisa distanciar-se das práticas totalitárias do partido e dos assassinatos internos que o seu líder, Jonas Savimbi, cometeu e não foram poucos e, eu não vejo isso acontecer. Não vejo ninguém dentro da UNITA dizer que isto aconteceu, porque todos sabem. Realmente a queima das bruxas aconteceu, é um facto; o assassinato do Tito Chingunji, do Wilson, ninguém na UNITA ignora isto, e ninguém na UNITA ignora a participação de (Jonas) Savimbi nestes processos.

De quem é a responsabilidade?

Para julgar, deveriam ser as lideranças actuais do partido. Estas lideranças não têm coragem de fazer isso. Eu entrevistei Savimbi, era um homem de grande coragem e o facto de ter morrido em combate, nas circunstâncias em que morreu fez com que, ao longo dos anos, a sua imagem crescesse em termos populares ou seja, você tem hoje muitos jovens em Angola que idolatram a figura dele, que ouvem os seus discursos, etc..

Mesmo sabendo desse passivo de Savimbi…

Muitos não sabem e muitos não prestam atenção a isso.

Isso não é muito em oposição à política do MPLA? À prática de governação do MPLA?

Esta forma como se idolatra Savimbi, é muito semelhante à forma como o MPLA idolatra Agostinho Neto. Aliás, é muito curioso porque Savimbi, nunca criticou o 27 de Maio, nunca se atreveu a criticar, pelo contrário, ele achava que era natural porque era um problema interno…

Era uma prática que ele achava normal…

Exacto. Não condenava. Portanto, há muitas semelhanças entre a UNITA e o MPLA a esse nível. Lembro-me que uma vez entrevistei Savimbi, no Andulo, em tempo de guerra e aquela mini-sociedade que a UNITA ia criando aí, no Bailundo, etc. era uma sociedade absolutamente totalitária, estava-se mais à vontade em Luanda do que se estava nas zonas da UNITA. Chegava-se ali e tinha logo 2 a 3 agentes de segurança que nunca mais te largavam, que acompanhavam os jornalistas 24 horas. Era uma sociedade totalitária e eles agora dizem que na guerrilha tinha que ser assim. É claro que se a UNITA, naquela altura tivesse alcançado o poder, tinha instituído um sistema totalitário no país, pior do que o MPLA. Não tenho a mínima dúvida disso. Não é hoje!

O contexto é totalmente diferente. Eu e a Ana Maria Simões fizemos uma aposta em que em função do ambiente de crispação política entre MPLA/Governo e a UNITA, JL e ACJ deviam encontrar-se. Na verdade, fui mais específico: O Presidente da República deveria convidar ACJ ao palácio presidencial. Justifica-se um encontro entre os dois?

Eu acho que tem ganhos políticos para os dois lados, mas, provavelmente, quem ganha mais é João Lourenço com uma atitude dessas. Seria falta de inteligência política não fazer isso. A verdade é que dentro do MPLA e dentre as pessoas que aconselham o presidente João Lourenço, há-de haver uma linha reaccionária e muito pouco inteligente, mas há também pessoas com inteligência suficiente para perceber que João Lourenço tem ganhos políticos em receber o líder da oposição.

Espero que o receba porque já há lá dentro da Presidência um pedido de ACJ de Março e outro de Abril, ele poderia ignorá-los e fazer este convite…

Aquilo é uma estrutura pesada. É uma estrutura que vem de trás e agora está ao lado de João Lourenço. Acho que isto tem prejudicado o presidente João Lourenço, uma estrutura pesada com um pensamento arcaico, pouco democrática, pouco moderna, pouco adaptada às condições actuais. Eu acho que João Lourenço devia desmontar isso também e chamar juventude à sua volta, que fossem jovens mais antenados com o tempo actual, capazes de compreenderem os processos actuais e com mais foco para a democracia, o que é que mais falta. Porque se a pessoa acreditar realmente na democracia, verá que isto é importante, por mais ganhos políticos que se possa ter, é preciso para a apaziguar a sociedade e João Lourenço, no início conseguiu isso. Se isso acontecer, este clima de descompressão que ele criou logo após ascender à Presidência, foi uma coisa notável. O Presidente devia ser um agente capaz de estabelecer ligações, pontes irmanando todos, como em qualquer família. Esse é o papel do Presidente da República, de apaziguamento, o papel nº1. Eu acredito que ele é refém do aparelho do partido (MPLA), que ele não pode ir mais além porque não conseguiu descolar-se desse aparelho, que é um aparelho reaccionário, corrupto, antigo e arcaico.

Há aí uma publicação que diz que há um plano de comunicação para o partido e há outro plano de comunicação político para o Governo, no caso para o presidente João Lourenço. Estamos a falar de duas instituições quase parecidas. Acha que é possível o presidente João Lourenço ajustar-se a um plano de comunicação que apenas diga respeito ao partido e outro para a governação? Aí teríamos como duas pessoas diferentes…

É difícil. O problema é esse. É que a excessiva presença do partido (MPLA) no Estado, esta ligação que era explícita de que o MPLA é o Povo e o Povo é o MPLA, quando uma pessoa defende uma coisa destas, é uma desgraça porque isto não é democracia.

Olhando para aquela manifestação (11/09), aquela moldura humana atrapalhou o MPLA, o MPLA ficou com medo…

Acho que o MPLA já está com medo desde que o Adalberto (Costa Júnior) tomou posse dentro da UNITA. Todos nós sabemos que o Adalberto (Costa Júnior), provavelmente, é o político mais hábil que há em Angola ou então, o mais sedutor. No MPLA não há ninguém assim. Não há um dirigente no MPLA que se aproxime do Adalberto (Costa Júnior), com essa capacidade, com esse capital de simpatia. Adalberto (Costa Júnior) consegue entrar até nas famílias do MPLA. Portanto, quando ele ascendeu à Presidência da UNITA, muita gente ficou panicada.

E com razão…

E com razão porque, acho que pela 1ª vez a UNITA tem condições para ganhar eleições, sobretudo dentro desta frente mais ampla, a Frente Patriótica, com a presença do Abel (Chivukuvuku), do Filomeno (Vieira Lopes), do Justino (Pinto de Andrade), nomes que têm muita simpatia em Angola e têm muita simpatia de pessoas dentro do partido no poder e pela primeira vez, pessoas que sempre votaram no MPLA, estão a considerar votar nesta Frente Patriótica. Isto é novo em Angola.

Esta coisa de o Presidente da República  ter devolvido aquele pacote das eleições para reapreciação na AN também o colocou em rota de colisão com o próprio MPLA porque, na verdade, foi o próprio MPLA que aprovou aquilo…

Acho que isto causa uma incomodidade interna, não há como não causar, mas a gente sabe que o MPLA está em Guerra Civil. Este é o ponto novo neste quadro em que, pela 1ª vez, o MPLA vai em eleições numa situação de conflito interno grave, fragilizado.

Como é que o PR pode sair desta “saia-justa”, com o congresso aí à porta, em Dezembro?

Mais uma vez acho que a única maneira de ele conseguir sobreviver politicamente e de ter ganhos políticos, é avançar, no quadro da democracia, do combate à corrupção, avançar sem medo, avançar cortando cabeças. Este é o momento de cortar cabeças e claro que, se amanhã, a Justiça angolana apresentar nomes grandes, nomes que todos nós sabemos que estiveram ligados à corrupção, pessoas que enriqueceram de forma, enfim, inimaginável ao longo desses anos de corrupção absoluta, isto terá ganhos políticos.

José Eduardo Agualusa (ESCRITOR) À MFM:

Jornal O Kwanza

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