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Domingo, 03 Outubro 2021 23:48

Resignação VS Rebeldia. Posicionar-se no lado da justiça.

Houve um homem chamado Galileu Galilei, dedicado ao estudo, a horas encerrado, tirando as conclusões da sua observação, que descobriu que a terra não estava no centro do universo, se movia e, portanto, era o sol que ocupava o centro e entorno ao qual os planetas giravam. Esse descobrimento enfrentou a verdade institucionalizada, o Vaticano, a Igreja, as crenças populares do momento e a insistência em manter o que ela havia descoberto, lhe custou ir ao julgamento.

Por: Adão Xirimbimbi “AGX - Jurista

Como seria possível uma pessoa naquele momento poder pensar que Aristóteles havia se equivocado, que as sagradas escrituras mentiam? Os cálculos matemáticos, as observações, o exercício da razão, lhe estavam mostrando que era a terra que se movia.

Estamos hoje na República de Angola na terceira década do século XXI, em um momento em que em outras ocasiões da história as sociedades tinham que escolher um caminho ou outro, seguir na resignação, aceitar a realidade actual ou mostrar a rebeldia, indicar outra realidade possível (outro caminho).

A resignação é a aceitação da realidade actual, é conformar-se com a realidade política, económica e social, é ser cúmplice da situação precária a que o povo está submetido. A resignação é um produto que como qualquer droga dorme as pessoas, dorme a consciência, a resignação é como a morfina, cocaína. A resignação é produto de muitas causas. A resignação é filha do discurso totalizador, como se fosse uma nova religião, não há mais verdade que a competitividade e não há mais santos e mais poderes que os mercados, a economia tem que crescer constantemente, não importa se contaminamos as águas, os rios, os mares ou os ares.

Para que a realidade não seja encarada como deve ser, nos incutem na televisão o futebol, muito futebol, concursos degradantes (ex. Luta pela Fama), vida dos personagens populares que não alimentam a razão de estudo, de analise, a crítica da nossa realidade social. Temos tudo isso para que o povo não veja e que confunda a sua existência real com a realidade que passa na TV, um caso de alienação, um caso de drogar a população.

Os discursos oficiais vêm do poder público, dos tribunais, das escolas, das Televisões Públicas e dos meios de Comunicação, o discurso de que não há outra saída, essa realidade é a única e possível que pode haver, discurso de que estamos mal, mas estávamos pior no tempo da guerra. Não importa que o povo veja ao seu arredor ou entorno factos que estão contradizendo as cifras, dados oficiais e os discursos. Essa é a resignação.

E quando numa sociedade a desculpa do atraso ainda seja a guerra, é porque não estão dizendo a verdade. E desta forma, são obrigados a mostrar quem destruiu o país no tempo da guerra, essa é a única justificação.

Culpar ao desempregado pela falta de emprego, porque ele não conseguiu triunfar na sociedade, essa é uma filosofia Calvinista que reina nos EUA, não deve imperar na nossa sociedade. Aquela sociedade dá oportunidades a todo mundo e, se não triunfaste a culpa é tua. Será que em Angola todas as oportunidades estão para todos os cidadãos? 

Na actualidade mundial o domínio do poder já não é através da força, dos aparatos militares, mas sim do domínio da mente, através da televisão, dos discursos políticos, dos meios de comunicações que só dizem uma parte da verdade.

A política angolana é entendida como compra e venda de votos, onde até os ditos activistas já deram conta do negócio rentável que fazem os políticos. Já deram contam que o importante é falar e mostrar aquilo que o povo quer ouvir e ver, e não explicar um projecto ou programa de nação, pois isso não interessa ao povo. Essa é uma cultura da hipocrisia, estão a criar uma sociedade de hipócritas.

Diferente da resignação, está a rebeldia, mas não é a rebeldia que incita a destruição do país, que incita o ódio entre irmãos angolanos.

A rebeldia não é um insulto, não é má resposta, a rebeldia é um grito de inteligência daqueles que dizem que não estão de acordo com essa situação actual do país, porque entendem que pode haver outra realidade no país, e, portanto, não assumem essa realidade e lutam contra ela. Essa é uma actitude intelectual, é um posicionamento que nasce da mente e do coração do povo em querer mudar a situação, essa é a rebeldia fundamental.

Outras actitudes que acompanhamos na nossa sociedade são barulhos, são insultos, confusões, incitação a intolerância política. A rebeldia não é isso, mas sim um posicionamento com outros valores e a decisão de fazer frente aos valores actuais. É uma forma de expressar que não aceitamos que a competitividade e o mercado continuem a reger a nossa sociedade, quando não há condições para que seja assim. A rebeldia é a forma de expressar que há uma declaração de direitos humanos que há que cumprir-se, e isso significa uma sociedade em desenvolvimento, onde não há marginalizados. Custará muito tempo construir essa sociedade, mas é imprescindível lutar por ela, inclusive morrer por ela se há que morrer por um ideal nobre, essa é a verdadeira rebeldia.

Essa é uma rebeldia fundacional que significa também defender que existem valores que devem ser mantidos, como o processo da reforma do Estado, que é um processo que não deve parar.

Mobilizar não é somente encher as ruas de gente, é também consciencializar, fazer com que a sociedade pensa por sua conta para perturbar aos demais. Os grandes revolucionários da história se caracterizam por fazer pensar a gente, o valor deles é o pensamento.

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