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Domingo, 29 Novembro 2020 23:57

O diálogo de mentira e o projecto de poder do MPLA

Angola vive uma situação tragicómica: o partido que procedeu à fundação do Estado e que o tem governado desde 11 de Novembro de 1975 é o mesmo que transformou Angola num projecto falhado.

Tenho afirmado que, caso Nós (Angolanos e Angolanas) não façamos nada, o partido delinquente completará 50 anos no poder. E, provavelmente, irá para além deste horizonte temporal.

O MPLA tem-se mantido no poder porque possui um projecto de poder em que a manutenção do poder a todo o custo é o objectivo fundamental.

Basicamente, quer dizer que, se determinadas reformas governamentais ou medidas políticas beneficiarem o Povo sem que tais beneficiem o partido delinquente, o seu governo simplesmente não as levará a cabo. Um exemplo reside no problema das autarquias. A sua implementação em Angola é uma determinação constitucional, mas ao longo dos anos, sobretudo a partir do advento da paz, o partido delinquente tem recorrido a diversos malabarismos políticos para não as implementar. Se a sua implementação agora favorecesse o partido delinquente, Angola já estaria autarcizada, e, por exemplo, o jovem Inocêncio de Matos não teria morrido a tiro quando se manifestava precisamente – dentre outras questões – para exigir que as autarquias fossem realizadas no País.

Durante a farsa do Diálogo do Presidente da República com a Juventude, ele basicamente deixou patente que ao MPLA não interessa a implementação das autarquias. O evento foi, aliás, um logro político. Uma montanha que pariu um rato muito – muitíssimo – pequeno. Os jovens saíram do encontro com uma mão cheia de nada.

O Diálogo do Presidente com a Juventude foi uma táctica de psicologia política que visou: descomprimir o clima político carregado em que ele ficou exposto como um tirano; fazer operação de charme político diante de Estados e entidades ocidentais; desmantelar o espírito de protesto, quase revolucionário, que tomou conta da juventude manifestante e activista e ganhar tempo.

Tais objectivos, e outros, não foram concretizados, pois, essencialmente, o estrato da juventude que tem estado a realizar frequentes e pesadas manifestações um pouco por toda Angola não esteve presente na farsa, o que quer dizer que o Presidente da República gastou tempo e energias com os estratos juvenis que pouco ou nada têm a ver com o movimento de protestos que denunciam os incumprimentos e mentiras do seu governo.

Na verdade, é ideal que em Angola sejam realizadas manifestações de forma ininterrupta até 2022. Aliás, a próxima manifestação terá lugar a 10 de Dezembro de 2020. A desilusão do Diálogo do Presidente da República com a Juventude acabou por aumentar os sentimentos de revolta e reforçou a determinação de as manifestações serem realizadas com uma frequência e força maiores.

Felizmente, o novo tirano não conseguiu travar a juventude manifestante e activista.

Entretanto, ao passo que é fundamental que as manifestações continuem a ser realizadas em todas as províncias de Angola, é importante que seja adoptada uma filosofia e metodologia que garanta que, por exemplo, as manifestações durem dias seguidos, e não apenas umas horas, haja um plano de defesa contra a violência policial, e que não deem alternativa ou espaço de manobra ao líder da máfia chamada MPLA.

O projecto de poder do partido delinquente também passa pelo controlo da Comissão Nacional Eleitoral (CNE). O regime rege-se pelo entendimento estalinista segundo o qual os eleitores podem votar no que quiserem, mas quem ganha são aqueles que controlam o sistema eleitoral. O modelo de organização do sistema eleitoral angolano foi concebido para não ser realmente independente. Antes, pelo contrário, foi engendrado para materializar o princípio comunista segundo o qual o Estado deve estar subordinado ao partido, razão pela qual é impossível que o presidente da CNE não seja militante do MPLA.

Do exposto infere-se que é uma tremenda ilusão acreditar que o MPLA será derrubado em 2022 e que, como se diz, «vai gostar». O problema não reside mais nos cidadãos e cidadãs eleitores, que já perceberam que, com o MPLA, Angola continuará a chafurdar na lama de um gigantesco pântano civilizacional de proporções distópicas. O problema reside na máquina partidária que controla o órgão de administração eleitoral, a quem não interessa o sentido do voto, mas apenas fazer a fraude.

É um erro esperar que sejam os partidos na (o)posição (os únicos) a lutar para mudarem o quadro, pois, o risco de fraude em 2022 indica que, caso os Angolanos e Angolanas não façam nada, limitando-se a votar sem abortar as manobras da CNE controlada pelo MPLA, será o Povo que «vai gostar», ou seja, ter o desprazer de viver mais 5 anos de suplício às mãos do partido delinquente, que, assim, chegará aos 50 anos no poder em 2025.

Morreu um Angolano a 11 de Novembro de 2020. Não basta que  Inocêncio de Matos seja elevado à categoria de herói da juventude.

É preciso mostrar e demonstrar que a morte dele não foi em vão. 

A luta da juventude continua e a vitória (fim do MPLA) é certa.

Honra eterna a Inocêncio de Matos!

Por Nuno Álvaro Dala

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