Quarta, 13 de Novembro de 2019
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Segunda, 04 Novembro 2019 14:37

Por que o câmbio mexe connosco?

Angola não aproveitou a fase em que tinha elevadas reservas internacionais líquidas, quando atingiu os 32 mil milhões USD, para diversificar a sua economia. Em tempo de autêntica bonança, preferiu insistir na política do contentor por intermédio dos navios transcontinentais que atracavam em Angola.

Imagina um indivíduo que durante anos ganha um elevado rendimento e por conta dissonão faz as três refeições em casa. Desde o pequeno-almoço, ao almoço e até ao jantar tudo é feito em grandes restaurantes. Por este motivo, na cozinha da casa deste mesmo indivíduo nem sequer tem uma cebola, um alho francês, um tomate, etc., devido ao estilo de vida exuberante.

Chega o dia em que os rendimentos decaem de forma expressiva e já não é possível manter o estilo de vida de fazer refeições em restaurantes. É nesse momento com que se depara que não tem mantimentos na despensa de sua moradia. Aí começa um ciclo sufocante com prejuízos elevados, económica e socialmente.

E não estando preparado para uma nova temporada do quotidiano insiste em manter o estilo usando meios e formas desaconselháveis. Ora, Angola não difere do quadro acima apontado.

O País não aproveitou a fase em que tinha elevadas reservas internacionais líquidas, quando atingiu os 32 mil milhões USD, para diversificar a sua economia. Em tempo de autêntica bonança, preferiu insistir na política do contentor por intermédio dos navios transcontinentais que atracavam em Angola.

Qual é o custo disso nos dias que correm? Até cebola é importada da África do Sul e de outros mercados da Europa. Não há frangos de produção nacional nas grandes superfícies comerciais e até em pequenas lojas de retalho, para compensar o consumo nacional.

O que não se fez em décadas tem que ser feito agora. Não há outra saída. O que muitos governantes, gestores e a sociedade em geral não estão a perceber é que não há dinheiro. Esta mensagem deve ser clara da parte do governo, mostrando o real caminho que iremos trilhar de agora em diante.

Nos países com economias diversificadas, o cidadão comum não está preocupado com a taxa de câmbio no seu dia-a-dia, se é fixo ou se é flutuante livre. Porque a produção nacional compensa o consumo interno de tal modo que o preço do arroz, do feijão, do açúcar, da massa alimentar, entre muitos produtos, não sofre variações que afectam de forma drástica os rendimentos das famílias.

Trata-se de países onde só há preocupação com o câmbio quando um indivíduo vai viajar de férias e/ou em negócios, fazer turismo de saúde, ou ainda em situações em que se pretende importar matéria-prima para dar suporte a produção nacional.

De outra forma, no dia-a-dia das pessoas não há estresse com a questão de variações cambiais. Cá a questão é completamente diferente. Tudo gravita a volta do câmbio. As pessoas só conversam sobre o fenómeno porque está a corroer o poder de compra de seus rendimentos.

O que se comprava há um ano com algum conforto, hoje faz-se gastando mais kwanzas. É por aqui que o problema precisa de ser visto e encarado de frente para sairmos desta situação extremamente embaraçosa. Analistas, governantes, gestores, empresários, investidores, em Angola, sabem de cor e salteado que dos 13 produtos que compõem o cabaz da cesta básica, não há autossuficiência em nenhum deles.

Importa-se tudo. Desde o arroz, açúcar, feijão, fuba de milho, fuba de mandioca, farinha de trigo, massa alimentícia, carne seca, óleo de soja, óleo de palma, sabão em barra, sal até o leite em pó, todos estes produtos que integram a cesta básica são importados.

Como não pensar no câmbio todos os dias diante deste cenário? A tendência continua a ser a importação destes bens e respectivos serviços, o que leva a reduzir drasticamente as reservas internacionais líquidas.

O jornal Mercado publicou em Junho último uma matéria de cartaz segundo a qual Angola gastou 40 mil milhões USD com a importação de alimentos, nos últimos 10 anos. Ou seja, em média foram gastos cerca de quatro mil milhões USD por ano para importar bens alimentares. Houve ganho em 2018 ao poupar-se 2,8 mil milhões USD com a produção nacional, segundo o governo.

Sem uma aposta séria na produção nacional, concretamente na diversificação da economia, e com produtores nacionais a queixarem-se, nos últimos 10 anos, que produzir em Angola é 30 vezes mais caro que em qualquer um dos 15 países da SADC, só para exemplificar este bloco político regional, o País precisa fazer sérias correcções.

Diante destes cenários, como importar produtos - vamos nos cingir apenas no cabaz da cesta básica - é mais fácil que produzi-los, assiste-se a uma pressão dos bancos comerciais e importadores junto do banco central para aquisição de divisas.

Novamente, entramos na questão do câmbio que se tornou numa preocupação diária do cidadão comum. As reformas estruturais precisam incidir de forma insistente no fomento da produção nacional. É preciso mais apoios para quem pretende importar matéria-prima para produzir localmente.

Não há outro caminho senão este que nos leva para um beco muito apertado, mas, felizmente, com saída. Há quase 10 anos que o Ministério da Agricultura assinou um memorando de entendimento com a Universidade de Michigan, dos EUA, para a criação de uma plataforma sobre informação de mercados, o que permitiria saber em quais regiões de Angola existem produtos disponíveis para se evitar a importação desnecessária dos mesmos.

O projecto não saiu do papel. No final do ano passado, o Ministério da Economia e Planeamento promoveu o lançamento do Portal de Produção Nacional (www.ppn.co.ao), para ser utilizado por todos os produtores, independentemente do tamanho da sua produção, localização e sem qualquer custo.

Ora, o que está a faltar afinal de contas? Os importadores sabem quem de facto produz em Angola, onde e quais os respectivos preços? Ainda vamos a tempo de dar a volta mantendo o rumo de políticas em curso. No entanto, verdade seja dita que são políticas duras que exigem coragem de quem as executa e nervos de aço para quem as suporta.

Se não se recuar, investindo divisas para uma forte aposta na produção nacional, haverá resultados.

Embora a conjuntura mais se pareça a um parto à cesariana (aposta na produção nacional) onde, segundo obstetras, a mulher só pode levantar entre seis ou mais horas depois do parto e ainda tem dores - bem diferente de um parto normal (importação de bens e serviços), a solução continua a ser um parto à cesariana para evitarmos atrelar nossas vidas, diariamente, ao câmbio.

As reservas internacionais reduziram-se em sete mil milhões USD em 2017 e menos ainda no ano passado, mas a velocidade de entrada de receitas em moeda forte é super lenta face aos níveis de produção e preço do barril de petróleo e, também, a dívida contraída por décadas hoje paga com petróleo.

É preciso vontade política para desincentivar o recurso às divisas para constante importações de bens e serviços. Esforços à produção nacional são necessários para que esqueçamos o câmbio, flutuante livre ou flutuante com banda.

Por António Pedro / Jornal Vanguarda

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