Quarta, 27 de Mai de 2020
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Domingo, 10 Mai 2020 13:10

Desvalorização do kwanza faz tremer a banca portuguesa

A liberalização da distribuição de dividendos vai beneficiar as instituições financeiras com capital português em Angola

Os bancos de matriz portuguesa a operar em Angola deverão, pela primeira vez este ano, ver consolidada a solidez dos seus lucros convertidos em euros, depois de o Banco Nacional de Angola (BNA) ter abandonado o monopólio do repatriamento de dividendos.

“Não repatriamos dividendos, nem interferimos neste processo, que está liberalizado desde o ano passado”, garantiu ao Expresso, o governador do BNA, José Massano.

A liberalização da gestão do mercado cambial está, no entanto, a ser avaliada com reservas em diversos meios financeiros perante a permanente desvalorização do kwanza face ao dólar ou ao euro. Apesar de ter registado um incremento em moeda angolana (21.383.057.000 kwanzas em 2019 contra 20.548.879.000 em 2018) o lucro líquido do Banco Caixa Totta Angola (BCTA) em euros em 2019 (€40 milhões) foi inferior ao resultado apurado em 2018: €58 milhões.

“Temos reservas em relação à liberalização da gestão cambial devido à prevalência de discrepâncias entre a data do apuramento dos resultados líquidos e a data da transferência dos dividendos”, explicou fonte do BCTA, detido em 51% pela Caixa Geral de Depósitos (CGD).

O mercado tem sido fortemente afetado não só pela desvalorização do kwanza em relação ao dólar, que entre 2018 e 2019 atingiu 33%, como pela inflação, que há dois anos era de 18,6% e no final do ano passado estava nos 16,9%. Neste primeiro trimestre chegava aos 17,29%.

Do lucro líquido de 2019, o BCTA decidiu distribuir aos acionistas, a 31 de dezembro último, apenas 50% desse montante, dos quais €10 milhões cabiam à CGD.

Não tendo sido feita, até hoje, qualquer operação de repatriamento dos dividendos, estes valores já só correspondem a pouco mais de €9 milhões. “E poderá ser ainda menos se a transferência para o exterior demorar muito tempo e o kwanza continuar a perder valor face ao euro”, acrescenta fonte do BCTA.

Queda histórica no BFA

Com um decréscimo na ordem dos 51,2%, o Banco de Fomento Angola (BFA), que era a joia da coroa de Isabel dos Santos na banca angolana, registou uma queda histórica nos resultados que passaram em 2018 de €643,5 milhões para €312,4 milhões em 2019.

Detentor da maior carteira de títulos da dívida pública, durante anos, para o BFA, o financiamento ao défice do Estado constitui a sua principal fonte de capitalização.

Mas “o vencimento de títulos, a redução da carteira de depósitos e de recursos petrolíferos para as operações cambiais e o não investimento no crédito”, segundo um alto responsável do BFA, contribuíram para a brutal baixa dos seus resultados. “A dinamização do mercado secundário de títulos veio trazer mais transparência ao valor dos ativos, e a troca de títulos indexados por títulos ajustáveis acabou por afetar bancos como o BFA, que praticamente não trabalhava para a economia real”, adverte o economista Miguel Bonifácio.

Dividendos congelados no Millennium

Depois de ter fechado com sucesso o exercício de 2019, o Banco Millennium Atlântico (BMA), com um crescimento de 12% face a 2018, registou um resultado líquido de €74 milhões com um rácio de solvabilidade de 14,5%.

Os acionistas do BMA decidiram, por outro lado, congelar, pelo segundo ano consecutivo, a distribuição de dividendos preconizando um reinvestimento dos lucros para poder fazer face aos desafios da crise financeira e pandémica que atinge o mundo e Angola.

“Agora, a nossa aposta estará virada para a contínua inovação digital dos nossos serviços e o reforço da contratualização de linhas de financiamento junto do Commerzbank e IFC — International Finance Corporation — para ajudar os esforços do Governo de diversificação da economia”, disse ao Expresso fonte do BMA.

Em fase de fusão com o Banco de Negócios Internacional (BNI) quem também surge com resultados positivos é o Finibanco, detido em 51% pelo Montepio. Se em 2017 e 2018 os seus lucros em Angola ajudaram a retirar do vermelho os resultados do Montepio em Portugal, no final do ano passado a sua contribuição atingiu os €9 milhões.

A pretensão do banqueiro Mário Palhares, principal acionista do BNI, de antecipar a compra de 30% do Finibanco em Angola, foi, entretanto, abortada por inobservância, por parte deste banco, de normas impostas pelo BNA. “O Finibanco tem a posição cambial fora dos limites legais”, explicou ao Expresso o governador do BNA, José Massano. EXPRESSO

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