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Segunda, 21 Abril 2014 15:31

"Estávamos melhor no tempo dos portugueses do que com o MPLA", acha o soldado veterano Júlio Baião

Júlio Baião foi soldado durante toda a sua vida: começou em 1959 no exército português, mas desertou em 1961 e integrou os movimentos de libertação. Depois da independência lutou contra o MPLA, na fileiras da UNITA.

Júlio Baião, nascido em 1932, foi um simples soldado durante toda a sua vida, um veterano de guerra que chegou a atingir o grau militar de tenente-coronel. A vida militar de Júlio Baião começou no exército colonial português. Mas em 1961 desertou e integrou a União dos Povos de Angola (UPA), cujos dirigentes se refugiavam no Congo.

Depois da independência lutou contra o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), nas fileiras da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA).

Hoje, Júlio sente-se desiludido. Sente que a sua luta não é devidamente reconhecida por parte da sociedade. Critica também a "falta de democracia" em Angola. A entrevista teve lugar no recinto de uma antiga caserna militar soviética, hoje pertencente à UNITA, no município de Viana, nos arredores de Luanda.

DW África: Nasceu em 1932 na província do Huambo. A sua vida militar começou em 1959 no exército colonial português. Certo?

Júlio Baião (JB):Exatamente. Em 1959 decidi entrar na vida militar. Ingressei na tropa portuguesa, na província do Huambo. Efetuei os meus treinos no Huambo e em Sá da Bandeira [hoje Lubango]. Depois de nove meses de instrução fui transferido para Luanda.

Em Luanda os portugueses disseram-nos: "vocês têm que treinar muito porque vão para a guerra na Índia." Mas a guerra não era na Índia, era em Angola! Foi em 1960 que começou a guerra dos portugueses contra os angolanos e dos angolanos contra os portugueses. Eu estava presente quando foi disparado o primeiro tiro aqui em Angola. A luta começou em Cabinda, lembro-me bem, numa montanha na região de Miconje.

DW África: Sabe-se que os revoltosos ligados à UPA atacaram povoações e fazendas, munidos de catanas e outras armas rudimentares. Lembra-se disso? Lembra-se das armas que utilizavam?

JB: Catanas, ferros, pedras. Só havia uma arma mais sofisticada, uma arma chamada canhangulo [espingarda antiga de fabrico artesanal, de um só cano comprido e estreito, que se carrega pela boca].

Com as catanas cortávamos as cabeças dos inimigos. Eu mesmo estive lá, com catanas, pedras, ferros… Depois fomos capturando algumas armas de fogo aos portugueses. Os nossos ataques eram rápidos. A gente atacava muito rápido e depois retirava-se. Era mesmo assim. Morreram muitos portugueses civis nas fazendas, e muitos soldados, até 1975.

DW África: Morreram também muitos angolanos?

JB: Muitos angolanos também, porque quando íamos atacar as aldeias, os portugueses retaliavam.

DW África: Valeu a pena tanto sofrimento?

JB: Aquele nosso sofrimento valeu a pena, porque os portugueses acabaram por abandonar o nosso país. Houve um acordo entre os portugueses e os angolanos. O que a gente queria era que Angola ficasse nas mãos dos angolanos, mas não foi bem isso que aconteceu.

DW África: Viveu momentos difíceis?

JB: Muito difíceis! Mas valeu a pena, porque os portugueses foram embora. Era isso que a gente queria. Que os portugueses fossem embora para a gente ficar aqui em Angola, no nosso país. Mas o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola ) manipulou aquilo tudo e tomou o poder até hoje. Hoje está tudo na mão do MPLA, mas tudo é porcaria.

Quem lutou e quem venceu foi a UNITA e a FNLA. Foram esses os movimentos que lutaram contra os portugueses. O MPLA estava fora do país: estava em Brazzaville (República do Congo). Mas a UNITA não estava fora do país, estava aqui dentro de Angola!

DW África: O país, os angolanos, hoje são livres, ou falta ainda muito para terem a independência verdadeira?

JB: O que eu quero dizer é o seguinte: a paz ainda não chegou a Angola. A paz ainda não apareceu aqui em Angola. Continuamos à espera da paz. A população de Angola só tem sofrimento. Você encontra mutilados, você encontra viúvas, que estão a sofrer muito. Os antigos soldados sofrem, e o povo em geral está mal.

DW África: Ainda há muitas feridas?

JB: Muitas mesmo. Até aumentaram. Estávamos melhor no tempo dos portugueses do que com o MPLA. No tempo do colono, a gente comia à vontade. O sofrimento que o MPLA impõe ao povo angolano é maior.

DW África: Chegou a conhecer os líderes dos movimentos? Holden Roberto, Jonas Savimbi, Agostinho Neto ou José Eduardo dos Santos?

JB: Eu vi. Eu vi António Agostinho Neto. Eu vi Holden Roberto. Eu vi Jonas Savimbi. Foi este último que me recebeu quando eu fugi da tropa portuguesa. Conheci também o José Eduardo dos Santos [Presidente de Angola], quando ainda era miúdo.

Encontrei-o em Leopoldville em 1961. Eu estive presente quando ele viajou para a União Soviética para estudar. Foi para a União Soviética em 1961. Em 1979 foi nomeado presidente depois de ter chegado da União Soviética com o corpo do Agostinho Neto. Foi aí que ele subiu imediatamente ao poder.

DW África: Qual é diferença entre Holden Roberto, Jonas Savimbi e Agostinho Neto?

JB: O grande problema é Agostinho Neto [primeiro Presidente de Angola, líder histórico do MPLA]. Holden Roberto trabalhou bem. Ele queria a paz. Jonas Savimbi: ele é que queria mesmo a paz!

Ele não lutou lá fora, ele esteve mesmo cá dentro. Era um homem verdadeiro, um verdadeiro guerrilheiro. Foi ele que lutou pela democracia. Ele queria mesmo a democracia aqui em Angola. Mas essa democracia não existe ainda, hoje em dia.

DW África: E qual é o seu sonho para o futuro dos jovens em Angola?

JB: Os jovens só vão ficar livres quando mudar esse poder do MPLA. Só então é que os angolanos vão viver bem. Se isso não acontecer, nunca mais os angolanos vão ser livres. Pode publicar tudo o que lhe digo. Não tenho receio que mencione o meu nome. Pois já sou velho. Se morrer não interessa. Eu chamo-me Júlio Baião Lundovi. O meu nome de guerra é Baião. Até hoje sou tenente-coronel. Mas muitos dos meus alunos, que eu instrui, são generais.

DW.DE

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